I
Nossa
reflexão apresenta-se como uma indagação sobre a forma histórica
do conceito de ontologia, ou ciência do ser, como ciência
primeira, radicalmente distinta de todo outro tipo de saber científico.
Seja-nos
permitido confessar: se vamos neste momento interrogar os gregos e
medievais sobre a essência da filosofia e sobre seu estatuto
científico, que estamos intimamente convencidos de que vão seria
tentar compreender sequer o sentido dos problemas que hoje se
desenham no horizonte de nossa inteligência rejeitando ou
simplesmente desconhecendo os temas da especificação helênica
que modelam decisivamente — forçoso é reconhecê-lo — nosso
modus mentis.
Não
que professemos um fixismo estéril ou um culto cego do passado. A
reflexão filosófica, bem o sabemos, verifica por excelência a
lei de todo pensamento autêntico: ela é progressiva e criadora.
Mas importa sobremaneira definir a alma desse progresso e
discernir os frutos autênticos dessa atividade de criação. Ora,
se é lícito transportar ao campo da história da filosofia o que
tem lugar no desenvolvimento da doutrina cristã, diríamos,
fazendo uso de uma expressão de Santo Ireneu, que a marcha do
pensamento filosófico é animada também ela por uma dLnamij t²j
taradDsewj (cf. Adversus Haereses, I, 10; PG, VII, 552), pela força
viva da tradição. É na consciência de uma continuidade viva
com o passado que, para o filósofo como para todo homem, se abre
o acesso à terra nutriz onde se alimenta nossa autêntica
humanidade e em cujo solo lançam raízes os problemas reais,
esses que, como a Esfinge ante o viajor de Tebas, para usar a
comparação de Toynbee, levantam-se como um desafio a cada homem,
a cada época, a cada cultura, e trazem, na urgência mesma de
suas interrogações, a promessa de uma porta aberta para a
verdade. O progresso em filosofia deve consistir justamente em
adivinhar na face nova das aporias concretas que solicitam o espírito,
sob a conjunção de dado céu histórico, os traços antigos
desses problemas que bem se chamam "eternos" e cuja
permanência é como o signo que revela a constância de nossa
natureza e a unidade de nosso destino. É a um esforço de reinvenção,
portanto, a uma vocação supremamente humanista que a filosofia
nos parece convidada, se é verdade que o humanismo se define como
a consciência da continuidade humana.
Mas,
obedecendo ao ritmo específico do espírito, essa reinvenção em
que somos tentados a fixar a essência do progresso filosófico não
é repetição mecânica, é livre e espontânea criação. Eis aí,
na verdade, um estranho paradoxo! Se nosso espírito encarnado
encontra na fidelidade à sua condição e na aceitação do longo
passado que emerge no seio de suas mais atuais perplexidades as
amarras que o prendem ao real, há entretanto na unidade profunda
que define seu ser histórico uma dialética do diverso, em que
cada resposta à proposição dos mesmos problemas fundamentais é
um momento original, uma prospecção dinâmica. A pura repetição
convém ao instante matemático do tempo mensurável, à dispersão
quantitativa do espaço. O espírito, como mostrou Bergson,
obedece a uma duração qualitativa. E se um "dado"
objetivo se lhe impõe — uma "matéria", como diria
Kant —, não é a uma receptividade inerte que ela faz face, mas
a um acolhimento vital, a uma recriação em que o objeto é
plenamente assumido pela iniciativa interior.
Assim,
o progresso em filosofia deve consistir ainda em desocultar o
"dado" autêntico que seja um alimento real à
intussuscepção do espírito e libertar ao mesmo tempo a pulsão
criadora com que o espírito mesmo dilata o objeto à medida de
suas exigências concretas.
Ora,
este dado autêntico nós o encontramos, vindo do mais longínquo
passado, com o imperativo de uma questão metafísica primeira que
não é possível eludir. À reflexão filosófica de um momento
histórico determinado cabe realizá-lo na carne e sangue de sua
problemática vital e encontrar assim o sentido de seu legítimo
progresso. Eis por que, percorrendo os caminhos do passado,
esperamos dar mais seguramente na substância do presente. O
problema cartesiano da sabedoria, o problema kantiano da metafísica
como ciência são hoje mais agudos do que nunca. Formam mesmo a
opção decisiva que se oferece ao filósofo contemporâneo.
Iremos renunciar à especificidade da filosofia? Iremos exilar
suas questões centrais para a terra, inóspita à inteligência,
das "proposições sem significação"? O empirismo lógico
dos neopositivistas e a repugnância existencialista a uma expressão
racional do transcendente obrigam-nos, em última instância, a
formular estas graves interrogações.
Vamos,
pois, propô-las aos antigos. Vamos tentar surpreender nos seus ímpetos
primeiros a força viva da tradição filosófica. Tudo nos
convida a esperar receber aí, para o mais específico dos
problemas humanos, uma resposta que traz a antigüidade venerável
e a surpresa sempre nova da vontade. Para nós, repetimos, ela não
irá assumir a feição violenta de uma imposição exterior, mas
deverá florescer no cerne mais íntimo de nosso próprio ser e
responder, pelo absoluto mesmo de sua transcendente verdade, ao
apelo da imanência mais profunda. Em outras palavras: a resposta
que nos dá toda uma linha do pensamento clássico à decisiva
questão metafísica "há uma ciência do ser" (ou
ainda: "há uma ciência do metaempírico, do absoluto?),
iremos vê-la por sua vez surgir dentro de nós como se em nós o
ser se revelasse a si mesmo. Esta revelação definirá a essência
mesma do espírito, de tal sorte que a construção da metafísica
como ciência objetiva deve aparecer ao mesmo tempo nossa mais
fundamental e empenhativa atitude, e porá a descoberto, para
falar com M. Blondel1, "o ser transcendente e numenal que está
em nós".
II
O
Sofista de Platão, que é, juntamente com os livros de Aristóteles
que Andrônico de Rodes enumerou no seu catálogo após a Física
(t2 met2 t2 ,usik1), a carta magna da ontologia clássica, será
para nós um compreensivo ponto de partida2.
O
conteúdo do diálogo é conhecido. Aparentemente Platão
preocupa-se em dar uma definição do sofista que seja termo de
rigorosa divisão dialética. Na realidade, este intento é apenas
um tênue véu de humor que convida a penetrar a imensa seriedade
da discussão. Esta é, com efeito, o lance decisivo da
"batalha de gigantes em torno do ser" (Sofista, 246 a)
em que desde o início se empenhara a filosofia grega. Nesta
altura, Platão defronta o adversário mais temeroso, o grande
Parmênides (cf. Teeteto, 183 e). Os sofistas eram sabotadores de
primeira linha. O relativismo universal de Protágoras traduzia
apenas, na brilhante sedução de uma erística sutil, a opção
metafísica do eleatismo. Desde a aceitação da primazia do
inteligível ou da Idéia, de que já o Crátilo nos dá um enérgico
testemunho (cf. sobretudo Crátilo, 439 c), Platão superara
decididamente a posição heraclítica. A afirmação tranqüila
do mundo ideal, que atravessa o Fédon, o Banquete, a República,
não era entretanto um desconhecimento de que o problema essencial
do uno e do múltiplo se coloca também no plano do inteligível e
mesmo recebe aí toda a sua significação. O "método hipotético"
do Fédon e da República (cf. Fédon, 101 d-e; República,
510b-511 e; 333 c) mostra suficientemente como o problema das relações
ideais estava posto desde o início. Mas é no Sofista que ele é
enfrentado por si mesmo e, neste prodigioso esforço de especulação,
Platão lança definitivamente as bases da ontologia como ciência.
A sedução da posição eleática estava toda na afirmação
intransigente do ser e do pensar como incindível unidade — tF
g2r aXtF noeÇn te k2i e|nai — (Par
mênides,
fr. 3; Diels-Kranz, 6. Aufl. 28, B, 3). Mais que ninguém
"amigo das Idéias" (Sofista, 248 a), Platão aceita
plenamente a posição eleática da unidade inteligível, e todo
um aspecto de sua evolução é orientado pela problemática do
Uno3. O Uno eleático é entretanto formal e estático; e o
monismo de Parmênides revela-se afinal como radical impotência
da razão diante do "diverso" que é o mundo. Foi a
experiência sofística da ambivalência do logos, experiência
cujos desastrosos efeitos Platão constatava no seio da juventude
ateniense (cf. o texto típico de Filebo, 15 d-16 a) que o levou
ao exame crítico da posição eleática. Iniciado no Parmênides
com uma contraprova negativa, uma "gumnasWa") dialética
(Parmênides, 135 d), progride afinal no Sofista para uma solução
positiva. Não vamos analisar em pormenor o complexo diálogo. O
que interessa a nosso escopo é mostrar que nele a reflexão filosófica
vinga definitivamente as fronteiras de seu objeto próprio e logra
dar uma expressão racional à ciência do ser. Assim, o Sofista dá-nos
o primeiro estatuto científico da ontologia, e foi no
aprofundamento de sua posição que a reflexão filosófica
posterior pôde dar a este estatuto uma formulação plenamente
adequada.
No
itinerário histórico da ontologia, o Sofista representa o
primeiro momento que chamaremos "objetivo". Ele responde
ao problema da "#pist³mh" platônica, que emergira mais
grave do que nunca na "aporia" final do Teeteto. Se o
ser é Idéia, o inteligível puro; se a Idéia se exprime no
logos, na razão (cf. Fédon, 99 e 100 a), como é possível uma
ciência do ser quando este se fecha, de uma parte, no Uno
absoluto de Parmênides, e o logos aparece, de outra, como múltiplo
e, antes de tudo, dissociado no desdobramento da proposição, da
"dDxa"4 que é, como tal, relação de dois termos? Sem
renunciar ao absoluto do inteligível, como legitimar o relativo
da proposição? Para o eleatismo a proposição é pura
tautologia; e para os "erísticos", de que nos fala
Aristóteles (Física 185 b 25-32), a própria relação de
identidade deve ser supressa. Daí a conseqüência sofística da
impossibilidade do logos falso (se o logos é sempre expressão da
unidade absoluta do ser) e a doutrina de Protágoras do "pant’
4lhq²" (cf. Teeteto, 152 a ss.; Aristóteles, Metafísica,
G, 1009 a 6). Ora, a verdade tinha, para Platão, fundamentalmente
um caráter ontológico. Há uma equação que atravessa como um
leit-motiv toda a obra platônica, e é a que faz "Ser = Idéia
= Verdade"5. Se, de outra parte, a ciência é verdade, ou se
há uma ciência do verdadeiro, ela será uma ciência do
"ser realíssimo", do "Jntwj Jn": será uma ciência
das Idéias. Todo o esforço de Platão consiste, pois, em mostrar
no ser, que é Idéia, não uma unidade linear e indiferenciada6,
mas uma pluralidade ordenada, e substituir assim a tautologia estática
do princípio parmenidiano "o ser é; o não-era não é",
uma proposição sintética que exprima, justamente mediante o
dinamismo do logos, a unidade e a diversidade do ser. Sabemos como
Platão encontrou na clássica oposição do "movimento"
e do "repouso" ("kWnhsij" e
"st1sij", cf. Sofista 249 d ss.) os elementos que lhe
permitiram dar à afirmação do ser o caráter dinâmico
postulado pela estrutura do logos. Se dizemos "o ser é
movimento e repouso", temos, de uma parte, na radical oposição
em que se desdobra o predicado, a afirmação da pluralidade, de
outra, na irredutibilidade do sujeito (o ser, como mostrara Parmênides,
não é decomponível em elementos mais simples), a persistência
da unidade. Em outras palavras: se há oposição dentro do ser,
um contrário do ser é impensável. O ser é sempre um "trWton
ti", um terceiro termo com relação
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a seus predicados. E,
sendo assim, ele revela, precisamente na oposição relativa de
seus participantes, de que o movimento e o repouso são em toda a
história do pensamento pré-socrático o mais ilustre exemplo, na
posição mesma de cada Idéia como ser pela inteligência ou em
sua expressão pelo logos, um entrelaçamento (sumplok³, Sofista,
259 e) de relações fundamentais. A determinação destas relações
é justamente o primeiro passo com que a ciência do ser se
liberta do dilema eleático. Eis como: a posição de cada Idéia
como ser implica sua identidade consigo mesma; é a condição
necessária para que o objeto da inteligência se defina como tal
(c. Sofista, 249 b). Sua posição como determinada perfeição
inteligível implica uma relação de alteridade que a faz
"ser entre os seres" (cf. ibid., 258 b). Identidade e
alteridade são, assim, as relações primeiras que na ordem real
se hipostasiam para Platão em Idéias de que todas as outras
participam (Sofista, 254 d; 256 d-e 259 a) e na ordem lógica
definem as leis necessárias da afirmação objetiva.
Não
vamos mostrar como a partir daqui Platão constrói uma teoria do
erro e refuta a posição sofística. Interessa-nos, antes,
indicar como a dialética platônica constitui-se assim em
ontologia. Se o ser é síntese de "identidade", é síntese
do uno e do múltiplo. Quando o logos se desdobra, pois, na
proposição, ele é ainda a expressão da estrutura real do ser.
A proposição verdadeira, o "lDgoj 4lhq³j", será
aquela que, exprimindo a participação real de duas Idéias,
exprime os seres em sua razão mesma de ser (l~gei… t2 Gnta ƒj
%stin, Sofista, 263 b). Daqui que, se para Platão há somente ciência
das Idéias, e esta ciência é a dialética (Fédon, 78 c-d; República,
85 b; 511 b-c; Sofista, 253 d-e; Filebo, 16 c-e), a dialética
platônica é, de direito, uma ontologia.
Ora
— e eis um ponto decisivo para nós —, esta ontologia não se
justifica criticamente, como o Sofista acaba de no-lo mostrar, senão
precisamente porque Platão busca o ser — que deve encontrar no
logos sua expressão inteligível — não unicamente no termo estático
de uma elaboração conceitual, como fizera Parmênides, mas no
movimento mesmo com que a Alma conhece, no ato em que ela se
pronuncia, ou seja, no "dox1zein", no ato de julgar. Em
outras palavras, a unidade do ser em Platão não é uma unidade
de identidade, mas uma unidade de participação. Se há juízo, há
síntese; se há síntese, há diversidade; se há diversidade e síntese,
há participação. Assim o ser se revela como participação
precisamente na estrutura do ato judicativo. Platão viu
claramente que, para uma inteligência em movimento, o ser, mesmo
afirmado como uno na unidade de cada Idéia, desdobra-se
entretanto em relação, e o movimento da inteligência que
conhece é, sob outro aspecto, uma síntese progressiva das
participações do ser. Pela "dLnamij" da alma
cognoscente, que se manifesta no juízo (logismDj), aparece também
a linha dinâmica do ser (Sofista, 247 e-249 b) e torna-se possível
a superação do imobilismo eleático.
Dissemos
que o platonismo representava no itinerário da ontologia o
momento "objetivo". Daqui sua essencial grandeza e também
sua limitação. De fato, se o ser platônico, enquanto objeto da
ciência, se revela no juízo, se exprime na dialética, ele se
exaure entretanto em total objetividade. Podemos dizer que o juízo
revela o ser, e sua estrutura relacional opera a síntese do uno e
do múltiplo. Entretanto, ele não é para Platão a última
justificação crítica do ser, e nisto o Filósofo mostra ainda
um resto impenitente de eleatismo. O ser platônico é Idéia. É
como Idéia que ele é a razão formal que dá à dialética seu
alcance ontológico. O dialético, com efeito, é aquele que faz
recurso continuamente à Idéia do ser (t¬ toN Jntoj 4eE di2
logismƒn proskeWmenoj Td~a, Sofista, 254 a). Ora, a transcendência
da Idéia platônica é tal que ela rouba ao mundo da experiência
e à contingência mesma do ato de conhecimento toda intrínseca
inteligibilidade. Assim, o conhecimento atual, esse mesmo que nos
revela no juízo uma expressão racional do ser, não se justifica
como tal, isto é, como o ser que descobre o ser, senão por uma
"passagem ao limite", uma espécie, diríamos, de
"redução transcendental", em que o movimento da razão
raciocinante é referido à imobilidade de uma contemplação
pura. Sabe-se como, para Platão, a ciência da alma no corpo flui
toda de uma visão anterior das Idéias, mediatizada para nós
pelo processo do "aprender" (manq1nein), que se define
assim como "reminiscência" (4n1mnhsij) (cf. Mênon 84
c-d; Fédon, 72 e; e sobre a contemplação original, Fedro 247
c-d; 250 c). Entretanto, se na contemplação original há uma
"conaturalidade" (xugg~neia, Fédon, 97 d) da alma com o
inteligível, este se extrapõe ainda em total objetividade, de
modo que, sendo o ser uma Idéia, sua justificação crítica no
conhecer — sua ciência — vem a objetivar-se também em Idéia7,
o que é uma renúncia à compreensão da originalidade do ato
mesmo do conhecimento como intrinsecamente inteligível.
Nesta
suprema aporia termina o grande esforço de Platão. O ser nos é
mostrado como "chefe de fila" (4rchgDn, Sofista, 243 d)
no coro das Idéias, como objeto formal, portanto, da dialética.
Mas é ainda, e inteiramente, uma Idéia. Se Platão busca a
revelação do ser no ato judicativo, faz entretanto depender toda
a sua inteligibilidade do aspecto formal da representação. Daqui
que a transcendência do inteligível absorve a originalidade da
inteligência.
Que
a inteligibilidade do ser possa emergir no seio mesmo da inteligência,
de modo que sua transcendência se justifique pela natureza do ato
mesmo da inteligência; que a dialética doser seja uma dialética
da participação do ato antes de ser uma dialética da participação
da idéia ou da inclusão formal: tal a linha para onde deverá
inclinar-se a reflexão ontológica, a fim de encontrar um
estatuto científico adequado.
Passemos
ao livro da Metafísica de Aristóteles8. Este texto justamente célebre
nos orientará para o segundo momento histórico da edificação
da ciência do ser, e que propomos chamar "reflexivo".
Aqui também não vamos descer a análises de detalhe e muito
menos enveredar pelo problema espinhoso da unidade do pensamento
aristotélico. Queremos mostrar somente como neste texto estamos
diante de um passo decisivo da reflexão metafísica em busca de
sua expressão científica.
O
livro , como se sabe, responde a algumas das "aporias"
acumuladas n
no
livro B. Ele começa por afirmar que existe uma ciência do
"ser" (tF Kn Kn), que recebe justamente desta
formalidade de seu objeto a nota específica que a distingue de
todas as outras ciências particulares. Ora, continua Aristóteles,
o ser se diz de muitas maneiras (tF d’Kn l~getai me`n pollacƒj,
1003 a 33), não a modo de sinonímia, é verdade, mas também não
é como radical diversidade, pois implica a referência a uma
unidade primeira (prFj %n kaT mWan tin2 ,Lsin, ibid.). Esta
unidade primeira, Aristóteles o mostra na célebre comparação
com a "saúde", é a substância (oXsWa, ibid. 1003 b
5-10; cf. Z 1028 a 10-b 7). Em outras palavras, o ser é análogo
e seu "analogado principal", como dirá a escolástica,
é a substância. Se pois toda ciência requer a unidade em seu
objeto, a substância dá ao ser como ser a unidade que o faz
objeto de uma ciência única. A referência à "oXsWa"
funda portanto a unidade dos diversos aspectos do ser; e Aristóteles
mostra como a "adição (prDsqesij) da "unidade"
(e|j 6nqrwpoj) e da "existência" (ƒn 6nqrwpoj) não
altera a "significação" da "essência (6nqrwpoj),
de modo que a posição do ser é identicamente a posição do uno
(ibid. 1003 b 25-34)9.
Ora,
tal afirmação vai colocar Aristóteles diante dos mesmos adversários
com os quais Platão travara a luta decisiva do Sofista. Com
efeito, se o ser é uno, ele encerra também grupos de determinações
opostas (4ntikeWmena): todos os antigos concordavam em que o ser
era composto de contrários (1004 b 29-34), e, antes de tudo, a
multiplicidade mesma é uma oposição à unidade (ibid. 1004 a
9-10; b 35). Se, pois, o ser, de uma parte, é uno e, de outra, se
diz "pollacƒj", é necessário mostrar como a ciência
do ser abraça esta oposição fundamental do uno e do múltiplo,
na qual todas as outras se resolvem (ibid. 1005 a 5), sem incidir
no mobilismo de Heráclito ou no relativismo lógico de Protágoras,
nem se ver obrigado a recuar para o monismo eleático. Aqui Aristóteles
invoca a segunda "aporia" que propusera no livro B (995
b 5-10, e 99 b 27-997 a 15). Toda ciência, ele o mostrara nos
Segundos Analíticos (A 72 a 7), parte de "princípios"
(4rcaR). O "princípio" é suposto, é uma "hipótese"
(no sentido original da palavra, cf. Platão, Mênon, 86 e-87 a)
e, como tal, indemonstrável com os princípios da ciência mesma
(seria um círculo vicioso); ele é, com efeito, causa da ciência
e dá a razão de seu objeto. Os "princípios" da ciência
do ser deverão dar portanto a razão de seu objeto, isto é, dar
a razão do ser como uno e múltiplo ou justificar o ser como uno
e múltiplo. É verdade que, se os "princípios" não
podem ser propriamente demonstrados, podem entretanto ser
justificados pelos princípios de uma ciência superior. Mas sendo
a ciência do ser ciência suprema, é necessário que seus princípios
tenham a um tempo o caráter de absoluta inteligibilidade
(gnwrimwt1th) e absoluta necessidade (4nupDuetoj) (cf. 1005 b 13).
Eles deverão ser estabelecidos por isso por meio de uma demonstração
"#legktikƒj", isto é, que reduza o adversário ao
absurdo. É o que Aristóteles vai fazer, estabelecendo por esta
via o primeiro princípio da ciência do ser, que opera a síntese
racional do uno e do múltiplo10.
Este
princípio absolutamente primeiro é o chamado princípio de
contradição, já referido no livro B (995 b 9-10; 996 b 29-30),
e que aqui, no livro , é enunciado da seguinte maneira: "É
impossível que o mesmo atributo seja e não seja o mesmo sujeito
ao mesmo tempo e sobre o mesmo aspecto" (1005 b 19-20).
Apresentando-se como lei do ser, o princípio impõe-se
imediatamente como lei do pensar (ibid. 1005 b 23-34); a
impossibilidade no ser implica, com efeito, aos olhos de Aristóteles,
a impossibilidade no pensar objetivo.
Ora,
o que é de extremo interesse para nós é mostrar como Aristóteles
estabelece este alcance ontológico da lei de contradição. Os
sete argumentos que ele enumera em sua redução ao absurdo do
relativismo têm uma articulação lógica comum, na qual aparece
justamente a incidência "reflexiva" que marca o ponto
de partida da ciência aristotélica do ser.
Para
se processar a demonstração, "#legktikƒj", do princípio
de contradição, diz Aristóteles, é necessário somente que seu
negador queira dizer algo (ti l~gý) que tenha uma significação
(1006 a 12). Ora, o sofista cético (o relativista universal) quer
disputar. Se quer disputar, quer exprimir um "ser de
significação" para si e para aqueles com quem disputa (shmaWnein
g~ ti kaE %autÆ kaE 6ll, 1006 a 21). Do contrário, há de
fechar-se num mutismo que é negar-se a si mesmo como ser
pensante, e tornar-se, segundo o dito célebre, "Amoioj ,utÅ"
(1006 a 14). Mas onde há significação, há determinação e
unidade, e há, portanto, implicação de uma afirmação do ser
ao menos em sua forma mais geral: "Alguma coisa de
determinado, é" (³dh g1r ti $stai ßrism~non, 1006 a
24-25). O relativismo universal é, pois, obrigado à petição de
princípio, já que aquela mínima franja de determinação, que
é essencialmente ligada à primeira afirmação da inteligência,
impõe com rigor absoluto a lei de contradição. Assim, o
primeiro princípio11 surge no ato judicativo com a absoluta
necessidade do movimento mesmo da inteligência. O juízo revela o
ser, operando logicamente — e com irrecusável alcance ontológico
— a síntese do uno e do múltiplo: como efeito, se há
determinação, há unidade, se há movimento da inteligência, há
pluralidade de determinações. É aqui que aparece a
originalidade de Aristóteles e o passo novo que ele dá. Platão
descobriu também a síntese do uno e do múltiplo no juízo, mas
o ser assim revelado ele o projetou na objetividade total da Idéia.
Aristóteles renuncia à Idéia separada, mas não renuncia ao
ser. Se o ser se revela no juízo e, doutra parte, não se extrapõe
todo na Idéia separada, ele deve exprimir-se numa dialética da
participação do ato antes de ser assumido numa dialética da
inclusão formal: pois se a determinação em seu objeto é uma
necessidade absoluta para o ser mesmo do ato judicativo, o ato
participa do ser e o ser torna-se inteligível no dinamismo intrínseco
do ato: "oXd!g2r #gd~cetai noeÇn m÷ nooNta $n" (1006r
b 10; cf. Santo Tomás, In IV Metaphys., lec. 7, ed. Cathala, n.
615). A posição aristotélica guarda, pois, a determinação
objetiva sem hipostasiá-la na Idéia separada, mas situando-a na
linha da originalidade mesma do ato da inteligência.
Entretanto,
devemos reconhecer que uma dialética do ser, em que o ato fosse
primeiro, não foi levada a termo por Aristóteles. Ainda uma vez
a forma absorveu o ato, de tal maneira que a inteligibilidade do
ser aristotélico não penetra os seres em sua existência e deixa
escapar assim o mistério de sua originalidade. O ser platônico
é existencial, mas de uma existência ideal12. O ser aristotélico
não consegue superar os limites das determinações da essência.
Não vamos estudar detidamente as aporias da metafísica aristotélica.
Elas se reduzem à aporia fundamental da substância13. Se a substância
é, como vimos, o termo de referência que dá unidade ao ser, ela
não é inteligível para Aristóteles senão enquanto universal.
Ora, a inteligibilidade do universal permanece incuravelmente lógica
se não se prende a um inteligível transcendente que seja
plenitude de existência e ao mesmo tempo subsistente intelecção.
Recusando o inteligível platônico, Aristóteles vai entretanto
buscar no quadro estático das Categorias a última instância de
inteligibilidade do real. Se porém não há, de uma parte,
transcendência do inteligível, não há participação no
sentido platônico; e se a transcendência não é buscada
decididamente numa dialética da participação do ato mesmo da
inteligência, temos, definitivamente, uma ambigüidade na
inteligibilidade do ser, que oscila entre a pura forma lógica e a
irredutibilidade da existência singular a ser exaurida na
universalidade do conceito. Essa é, de fato, a oscilação, que
atravessa a Metafísica de Aristóteles, entre a unidade abstrata
do "tF Kn Ó Kn" como seu objeto próprio e a separação
das "oXsiaE cwristaE kaE 4kin³tai" (Metafísica, E,
1026 a 15-32), que não sendo suscetíveis de uma participação
no sentido platônico, pois não são idéias separadas, não o são
também para Aristóteles na linha da causalidade eficiente, e
esgotam assim sua inteligibilidade no plano do conceito, sem poder
fundar uma analogia dinâmica que seja síntese de essência e
existência.
Assim,
se Platão e Aristóteles abrem o caminho da ciência do ser, eles
não chegam entretanto a uma sua formulação adequada. O realismo
do inteligível em Platão e a justificação reflexiva da afirmação
do ser em Aristóteles ficavam como linhas que se procuram em
solicitação de síntese. Longo foi o caminho histórico em que
esta veio lentamente amadurecendo. Assinalemos somente, de uma
parte, a identificação do mundo inteligível com a inteligência
suprema, já operada no platonismo médio14 e que conduz à
doutrina plotiniana do Intelecto subsistente que a si mesmo se
entende15, e, de outra, a irrupção dos temas cristãos que
modificaram tão profundamente o curso do pensamento antigo. Sem
nos enredar no problema de uma filosofia cristã, diremos somente
que aquela "metafísica do Êxodo", de que fala E.
Gilson16, em que Deus se mostra na absoluta transcendência de seu
ser, influiu decisivamente na evolução de que tratamos.
III
E
passemos a Santo Tomás De Aquino. O grande Medieval vai dar-nos
finalmente a síntese de Platão e Aristóteles e, com isto, uma
formulação adequada do objeto da ontologia clássica.
Como
para os dois filósofos gregos, vamos interrogar também a
doutrina tomista do juízo. Da herança platônico-aristotélica,
Santo Tomás recebe uma noção do movimento da inteligência em
que o juízo aparece em seu caráter sintético como a superação
in limine do imobilismo eleático (cf. In I Metaphys., lec. 9;
Cathala, 138-139). Por outro lado, a crítica aristotélica do
relativismo sofístico impõe-se-lhe como a extrema instância
onde emerge a necessidade absoluta para a inteligência de afirmar
uma determinação em seu objeto e de introduzi-lo assim na ordem
do ser e da unidade. O ser se mostra a determinação primeira do
objeto da inteligência, e este obedece no ato mesmo de sua posição
ao primeiro princípio fundado sobre a oposição do ser e do não-ser
(Ia IIae q. 9 a. 2 c.) Ao defrontar seu objeto, a inteligência
instala-se imediatamente no reino do ser. É a conhecida doutrina
tomista do "ens primum cognitum" (cf. De ente et
essentia, Proem.; De veritate, q. I a. 1; I q. 1 a. 2 c., etc.
...) Mas esta afirmação espontânea do ser, que constitui o ato
intelectual perfeito, ou seja, o juízo, é inserida numa teoria
extremamente elaborada.
Santo
Tomás aceita a crítica aristotélica da Idéia separada. Se o juízo
é uma síntese de determinações objetivas, estas não implicam
a hipostao de seus caracteres formais. O eidos é, como para Aristóteles,
imanente à hyle, e é nela, mediante um processo
sensitivo-racional, que a inteligência vai desocultá-lo. Assim há
para Santo Tomás, no início do processo intelectual, uma análise,
ou seja, uma dissociação em que o aspecto formal e qualitativo
da coisa é isolado da singularidade material e introduzido na
ordem da necessidade inteligível ou do universal. Este primeiro
momento da intelecção é, podemos dizer, uma valorização do
inteligível, uma superação da limitação do "dado"
concreto e a conquista de um plano de perfeição formal
(correspondente ao "aXtF kaq’ aXtD" platônico), que
se mostra, na clara ordenação de suas articulações necessárias,
inteiramente permeável à inteligência (cf. In I Metaphys., lec.
11; Cathala, 183).
Entretanto,
Santo Tomás sabe bem que o juízo, sendo afirmação do ser, é
uma conquista da unidade do objeto. Se a inteligência começa por
analisar — por abstrair — a fim de colocar o objeto no plano
da inteligibilidade, sua marcha posterior há de ser a conquista
de uma unidade em que o ser do objeto se restitua como tal, sem
fugir, porém, aos vínculos fortes da necessidade inteligível em
que a inteligência o quer afirmar.
Ora,
é neste itinerário da unidade que Santo Tomás passa além de
Aristóteles. Itinerário da unidade, itinerário do ser, e assim
o Doutor Medieval define finalmente em todas as suas dimensões o
objeto da ciência primeira, tal como o pensamento clássico o
entrevia.
O
eidos começa sim por ser isolado da matéria que obscurece sua
inteligibilidade, mas ele não será uma determinação objetiva,
um conceito predicável nos juízos de realidade senão
reintegrado de alguma maneira na unidade concreta em que
objetivamente se realiza. O primeiro plano da unificação é
portanto uma volta ao individual concreto. Ela se opera através
do que Santo Tomás chama "conversio ad phantasma", em
que a inteligência modela a qüididade sobre o esquema
imaginativo de que foi abstraída (cf. Qu. un. de Anima, q. 20 ad
1m, contra; I, q.87 a.7 c.). O resultado deste processo psicológico
é a formação do conceito universal direto, predicável
distributivamente dos indivíduos concretos que participam de seu
princípio formal (cf. De ente et essentia, c. 3; In VII Metaphys.,
lec. 5; Cathala 1378-1380). É este conceito universal que é
termo do ato judicativo e que é portanto introduzido na ordem do
ser. O primeiro passo na reconstrução da unidade supera assim a
tentação platônica da Idéia separada. Ele reintroduz o eidos
na limitação da matéria por meio da estrutura lógica, que
Santo Tomás chama, com Aristóteles, materia communis (In VII
Metaphys., lec. 10; Cathala 1492-1497. I q. 85 a. 1 ad 2 m).
Entretanto — também Aristóteles o vira — esta concretização
do eidos na matéria communis não basta para que, afirmado no juízo,
ele possa trazer em si toda a razão da unidade do objeto. Com
efeito, a estrutura mesma do juízo mostra uma pluralidade de
determinações formais no objeto. É sobre ela precisamente que o
juízo exerce sua função de síntese. A "koinwnWa tƒn eTdƒn"
platônica encontra aqui também sua transposição. Mas se o ser
platônico tinha sua unidade assegurada na Idéia, para Aristóteles
e Santo Tomás ele deve encontrá-la na primeira e mais profunda
imanência de um eidos que faça surgir no seio da matéria um núcleo
ontológico capaz de suportar — e de unificar — todas as
atribuições do ser operadas pelo juízo. Sabemos que este núcleo
é a substância — a oXsWa —, e sua determinação formal é o
ato primeiro que, no conceito universal, será a primeira e
fundamental determinação da essência lógica da coisa ou de sua
definição — o gênero supremo. Todo o juízo de realidade
exprimirá portanto uma determinação ulterior da substância,
seja na própria ordem substancial, seja na ordem acidental, e
daqui as diversas funções lógicas que ela pode exercitar em
tais juízos (I q. 29 a. I c.).
Assim,
o juízo atinge um segundo plano de unificação capaz de fundar
uma síntese do uno e do múltiplo numa analogia estática do ser,
tal como a vimos formulada por Aristóteles no livro da Metafísica.
Há aqui lugar para uma passagem de substância material a uma
substância separada que realiza a identidade da forma e do
sujeito (cf. In VII Metaphys., lec. 5; Cathala, 1378-1380). A
substância é, pois, a unidade fundamental a que se refere, na
ordem das determinações formais, a atividade sintética da
inteligência. Santo Tomás o repete constantemente, pondo em evidência
a intelecção da unidade que está na base do juízo: "...
intellectus quando considerat propositionem considerat multa ut
unum, et ideo inquantum sunt unum simul intelliguntur dum
intelligitur propositio quae ex eis constat" (De veritate, q.
VIII a. 14 c.; cf. ibid. q. II a. 7 c. et ad 3m; In VI Metaphys.,
lec. 4, Cathala, 1227-1229; I q. 58 a. 2 c.; q. 85 a. 4 c. et ad
4m), e que é uma expressão da unidade substancial da coisa (De
ente et essentia, c. 5). Ele estudou os diversos aspectos desta
reconstrução da unidade substancial operada pelo juízo num
texto deveras capital e que nada deixa a desejar quanto à precisão
técnica (I q. 85 a. 5 ad 3m)17.
Entretanto,
vimos como Aristóteles se deteve aqui em seu caminho para a
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compreensão do ser. O ser se revela no juízo como síntese do
uno e do múltiplo na ordem das determinações formais em que o
objeto se exprime. O ato judicativo participa do ser só enquanto
a determinação objetiva é exigida pelo movimento mesmo da
inteligência. A dialética da participação fecha-se no plano
predicamental estrito ou categorial, e a impossibilidade do
"metab1llein eTj 6llo g~noj" impõe-se como intransponível
obstáculo.
Santo
Tomás, porém, aprofundando a estrutura do juízo, eleva-se ainda
a um último e supremo plano de unificação. Na verdade, a
unificação pela substância realiza-se na linha da limitação
formal ou da essência; ela revela a identidade de dois aspectos
inteligíveis, expressos pelo sujeito e predicado de um juízo de
realidade, numa unidade primeira ontológica, justamente
denominada substantia prima ou supósito: "praedicatum et
subjectum sunt idem supposito sed diversa ratione" (I q. 13
a. 12 c.). Ora, fora a tradição platônico-aristotélica mesma
que transmitira a Santo Tomás uma concepção dinâmica do juízo
como afirmação do ser, em que a alma assume com relação ao
"dado" uma atitude ativa: "anima inquantum judicat...
magis quodammodo agit" (De veritate, q. I a. 10 c.) —
inserindo-o no plano da existência. Daqui fazer-se o juízo o
termo da relação de verdade lógica (I q.16 a.2 c.; De veritate,
q. Ia. 3 c.). É nele que a inteligência exprime formalmente sua
conformidade com o objeto, constituindo-o em seu "ser de
objeto" e libertando-o das condições subjetivas da assimilação
(I Contra Gent., C. 59). Assim, segundo a clássica doutrina
tomista, o juízo tem por termo próprio não já a natureza ou
essência — plano da limitação formal —, mas a existência,
esse rei (De veritate, q. I a. 1 c.; In Boeth. De Trin., q. V a.3
c.). Ora, a existência é para Santo Tomás o ato primeiro e a
perfeição das perfeições, "perfectio omnium perfectionum"
(De Pot., q. VII a. 2 ad 9m ; cf. I q. 3 a. 4 c.; qu. un. De Anima
a.6 ad 2m). Longe de ser portanto opaca à luz inteligível, como
o é para uma ontologia que permanece na linha das determinações
formais da essência, ela deve mostrar-se num supremo grau de
inteligibilidade. É esta inteligibilidade própria do ato de
existência como perfeição que Santo Tomás descobre no juízo.
É
no juízo que, para o Doutor Angélico, a dialética da participação
do ser supera o plano predicamental e penetra de fato numa esfera
transcendental (no sentido escolástico da palavra), onde se opera
a última e definitiva conquista da unidade a que a inteligência
visava desde seus primeiros passos e unificam-se os dois aspectos,
"objetivo" e "reflexivo", que víramos em Platão
e Aristóteles.
Com
efeito, a adequação formal da inteligência e do objeto tal como
se realiza no juízo só é possível, segundo o ensinamento
tomista, por meio de uma reflexão completa da inteligência sobre
si mesma, ou melhor, sobre seu ato, e que implica, de uma parte, o
conhecimento da estrutura deste ato como orientada para
conformar-se intencionalmente com o real e, de outra, o
conhecimento de si mesma como princípio ativo desta conformação.
Tal a doutrina do texto clássico De veritate, q. I a. 9c. (cf. I.
q. 87 a.1 e 3; In VI Metaphys., lec. 4, Cathala, 1326). Esta
reflexão não se confunde com a consciência psicológica. Ela é,
para Santo Tomás, uma condição metafísica da afirmação do
ser pela inteligência e da disjunção que esta opera entre o
sujeito e o objeto. Ora, se pela reflexão sobre si mesma a
inteligência afirma o ser do objeto, ela mostra ao mesmo tempo
sua dependência participada à Inteligência infinita na qual a
"reditio supra essentiam" é a própria subsistência (I
q. 14 a.2 ad 1m; I Contra Gent., c. 47). A reflexão intelectual
é o modo analógico de participação da intelecção infinita,
que está assim presente no seio da inteligência criada "tamquam
totius cognitionis intellectualis principium" (III Contra
Gent., c.47; cf. I q.87 a.1 c.), não com uma presença objetiva,
mas como subjetividade infinita participada pela subjetividade
finita enquanto se constitui como tal, isto é, enquanto afirma o
ser. A dialética da afirmação do ser é assim, para Santo Tomás,
antes de tudo uma dialética da participação do ato18.
Mas
ela implica também, na linha "objetiva" — na linha
platônica —, uma referência à existência infinita na ordem
do objeto. Sendo a existência a perfeição última, sua atribuição
a um objeto finito não se justifica somente por uma limitação
formal intrínseca, como no caso da perfeição da ordem da essência.
Santo Tomás mostra como a atribuição da existência pela
inteligência afirmante traz em si uma referência dinâmica ao
Absoluto do ser, ao Infinito na linha mesma do objeto, que
possibilita assim a unificação do ser do objeto em todos os seus
planos, mostrando a participação de sua existência à Causa
primeira e evidenciando nesta dependência causal a
inteligibilidade própria do ato de existir19.
Desta
maneira Santo Tomás faz convergir a dialética do ato e a dialética
da Idéia ou do objeto para o Ser em que intelecção e inteligível
são um, e leva assim a seu termo último de perfeição a
identificação operada pelo platonismo médio entre o "NoNj"
primeiro e o "tDpoj nohtDj".
Nesta
inteligibilidade do ser que se mostra no juízo como participação
do ato e da Idéia, Santo Tomás vê formalmente constituído o
objeto da ontologia como ciência, a noção adequada de ser. A
epistemologia tomista da ciência é aparentemente enquadrada pelo
esquema aristotélico dos três graus de abstração. Na verdade,
poucos comentadores caem na conta de como Santo Tomás modifica
profundamente a classificação aristotélica quando se trata de
definir a posição da ciência primeira, em plena coerência, de
resto, com sua teoria geral do juízo. A terminologia mesma sofre
em Santo Tomás, como veremos, uma transformação característica.
Sabe-se
como a doutrina aristotélica dos três níveis de ciência teórica
parte da oposição entre matéria e inteligibilidade (cf. Metafísica,
E, 1025 b 2-1026 a 32), onde matéria se entende sempre
potencialidade de mudança. Santo Tomás explica (I. q.85 a.1 ad
2m) que esta matéria, chamada por Aristóteles "sensível"
(aTsqhtæ c. Metafísica, Z 1037 a 4-5), é de fato a característica
do ser físico na ordem fenomenal; neste plano, o ser não se
liberta das qualidades sensíveis enquanto suscetíveis de
"aparecer" aos sentidos, e que são irredutíveis à
necessidade inteligível da essência porque justamente
singularizadas pela matéria. A matéria "inteligível"
da matemática supera já o fluxo sensível; ela pode ser sujeito
de uma inteligibilidade própria, mas, como tal, sem alcance ontológico:
os seres matemáticos, com efeito, não existem na realidade.
O
terceiro plano em que o conhecimento científico deixa de vez o
plano da matéria — do "fenômeno" — é justamente
onde se constrói a ciência do ser. A dualidade, que acima
assinalamos, na concepção aristotélica desta ciência provém,
como vimos, da redução do âmbito do ser às determinações
formais da essência. Para Santo Tomás a inteligibilidade do ser
coroa-se na inteligibilidade da existência. Por isso, ao definir
o objeto da ciência suprema, ele se liberta de fato dos esquemas
— e da ambigüidade — de Aristóteles. O texto fundamental é
constituído pelas questões V e VI do comentário ao De Trinitate
de Boécio. Quando na q. V a.3 Santo Tomás se põe a explicar os
três graus do saber, hesita na terminologia e finalmente se
decide a falar, a propósito do terceiro grau, não de
"abstração", mas de "separação" (separatio)20.
Por quê? Justamente porque funda este terceiro grau — o plano
da ontologia — não numa operação da inteligência que se
limita à consideração dos aspectos formais da essência
prescindindo de outros (abstractio), mas no ato judicativo cuja
função própria é justamente afirmar o ser como existente e pôr
assim em relevo a inteligibilidade própria da existência. Ora,
esta inteligibilidade se revela, como vimos, imediatamente
transcategorial, enquanto a afirmação do ser implica a participação,
tanto do ato como do objeto, à Existência infinita, inteligível
perfeito e intelecção criadora. O objeto formal da ontologia
pode então ser determinado com um juízo negativo (separatio)21,
que liberta a inteligibilidade do ser de seus modos contingentes
de realização, e sobretudo do fluxo dos fenômenos, e opera a
passagem ao "cwristDn" propriamente metafísico, não já
a substância no sentido aristotélico, mas o ato mesmo de existir
em sua amplitude transcendental e na necessidade absoluta dos
princípios que o exprimem e que irão constituir a estrutura lógica
da ontologia.
A
separatio metafísica tomista é, sob outro aspecto, a penetração
exaustiva e total do objeto, e é assim um movimento inverso à
abstração. Ela integra, com efeito, o objeto em sua
inteligibilidade última e mais profunda. O ato de existir como
perfeição suprema sendo, para Santo Tomás, a intimidade mesma
do ser finito, é ainda "interior íntimo" enquanto se
abre imediatamente para a transcendência absoluta do Ser
imparticipado.
Longe
de ser, portanto, a mais abstrata das ciências, a ontologia é,
para Santo Tomás, a mais totalizante, a única que supera todos
os aspectos parciais e instala-se na plenitude do existir. A
elaboração do conceito de ser, objeto da metafísica tomista,
tem de levar em conta esse caráter absolutamente único de um
conceito animado intrinsecamente pelo dinamismo da afirmação22.
IV
Assim,
para Santo Tomás, a ontologia é a ciência suprema como ciência
do ser. Mas se é superior às ciências particulares, não lhes
é estranha. Ela é, para usar ainda o velho termo dos antigos,
"reguladora" de todas as outras enquanto justifica em última
instância seus princípios particulares, dando razão da
possibilidade mesma do saber.
E,
mais ainda, buscando no ser seu objeto e descobrindo-o no próprio
ato em que nosso espírito o afirma, ela é em nós, como dizíamos
a princípio, uma revelação do ser a si mesmo, uma vivente dialética
da nossa participação ao Absoluto, uma resposta, portanto, não
só às exigências de nosso ser teorizante, mas ao apelo profundo
de nosso ser itinerante, de tal sorte que, em seu constitutivo
mesmo de ciência, é enfim, e supremamente, uma Sabedoria23.
Notas
1.
Cf. A. Lalande, Vocabulaire technique et critique de la
Philosophie, Paris, Presses Universitaires de France, 51947, p.
106 [trad. br.: Vocabulário técnico e crítico de filosofia, São
Paulo, Martins Fontes, 1993].
2.
Seja-nos permitido remeter ao capítulo 1: A Dialética das Idéias
no Sofista.
3.
Cf. B. Liebrucks, Platons Entwicklung zur Dialektik. Studien zum
Problem des Eleatismus, Frankfurt a. M., Klustermann, 1949.
4.
No sentido de "juízo". Cf. Sofista 263 e, e a nota de
Cornford, Plato’s Theory of Knowledge, London, Routledge and
Kegan, 1935, p. 318.
5.
Cf. R. G. BURY, The Philebus of Plato, Cambridge University Press,
1897, pp. 201-211.
6.
É a figura da "esfera" de Parmênides. Cf. Diels-Kranz,
Fragmente der Vorsokratiker, Berlin, Weidmann, 61951, 28, B, 8
43-49.
7.
É o paradoxo platônico de um "eidos" da ciência. Cf.
Crátilo 440 a-b, e A. J. Festugière, Contemplation et vie
contemplative selon Platon, Paris, Vrin, 21950, pp. 81 e 96-98.
8.
Sem entrar no problema da composição da metafísica, supomos com
W. D. Ross (Aristotle’s Metaphysics, Oxford, Clarendon Press,
1942, I, XV-XXIV) a unidade, ao menos sistemática do grupo ABEZHOMNI.
9.
Sobre esta importante passagem, cf. o comentário de Santo Tomás,
In IV Met., lec. 2, Cathala 550-552, e o de Ross (op. cit., pp.
257-258). E. Gilson comentou-a também em L’être et l’essence,
Paris, Vrin, 1948, pp. 58-59.
10.
Não estudamos aqui o aspecto positivo do que Aristóteles chama
"indução" dos primeiros princípios (cf. Post. An. B
99 b 15 ss.). É este um dos pontos mais freqüentemente mal
entendidos da lógica aristotélica. Para uma interpretação
exata cf. D. Ross, Prior and Posterior Analytics, Oxford,
Clarendon Press, 1949, p. 84-86, e S. Mansion, Le jugement d’existence
chez Aristote, Louvain, Institut Supérieur de Philosophie, 1946,
pp. 140-144.
11.
Sobre o sentido original em que a lei de contradição pode ser
dita "princípio" na edificação da ciência do ser,
cf. Mansion, op. cit., 147-149.
12.
Cf. R. Loriaux, L’Etre et l’Idée chez Platon, Revue
Philosophique de Louvain 50 (1952) 6-55.
13.
Cf. A. Bremond, Le dilemme aristotélicien, Archives de
Philosophie X, 2 (1931) 32-42.
14.
Cf. Albinos, Didaskalikós, IX (Hermann, App. Platônica, Opera V,
p. 163).
15.
Cf. Enéadas. V, 3, 5 e o comentário de Bréhier, vol. V, pp.
40-42.
16.
L’esprit de la Philosophie Médiévale, Paris, Vrin, 21944, p.
50, n. 1. Cf. Maimonide et la Philosophie de l’Exode, Medieval
Studies XIII (1951) 223-225.
17.
Ver o esquema de A. Forest, La structure métaphysique du concret
selon Saint Thomas d’Aquin, Paris, Vrin, 1931, p. 95.
18.
Insere-se aqui a transposição tomista da "iluminação"
agostiniana; cf. o texto importante de I q. 84 a. 5 c.; De Spirit.,
Anat. a. 10.
19.
Este aspecto da doutrina tomista foi desenvolvido por J. Maréchal,
Le point de départ de la Métaphysique, c. V, Bruxelles,
Universelle, 21949.
20.
É o que mostra o estudo lexicográfico do autógrafo. Cf. L. B.
Geiger, La participation dans la philosophie de Saint Thomas d’Aquin,
Paris, Vrin, 1942, p. 318 n. 1; Id., Abstraction et séparation
d’après Saint Thomas, Revue des Sciences Philosophiques et Théologiques
31 (1947) 3-40.
21.
Cf. Geiger, La participation dans la philosophie de Saint Thomas
d’Aquin, Paris, Vrin, 1942, pp. 318-321.
22.
Cf. a este propósito, J. Maritain, Court traité de l’existence
et de l’existant, Paris, Hartmann, 1947, p. 49 n.1, e C. Fabro,
La nozione metafisica di partecipazione secondo Santo Tommaso
d’Aquino, Torino, S. E. I., 21950, pp. 129-144.
23.
Em que sentido a metafísica de Santo Tomás pode ser dita uma
sabedoria cristã? Cf. uma excelente resposta a esta pergunta em
André Hayen, Saint Thomas d’Aquin et la vie de l’Église,
Louvain, Universitaires, 1952, sobretudo a conclusão, p. 69 ss.