Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Lições da História
João Paulo*

 

 

Escritos de Filosofia IV
Introdução à Ética Filosófica I:

Henrique Lima Vaz publica primeiro volume de seu tratado sobre a ética filosófica

Não se pode ser suficientemente caloroso como livro que Padre Vaz acaba de dar a lume, Escritos de Filosofia IV Introdução à Ética Filosófica 1 (Coleção Filosofia, Edições Loyola). Como todo trabalho escrito pelo filósofo, ele conjuga um altíssimo grau de erudição com duas características nem sempre presentes na bibliografia Filosófica deste nível: o rigor do projeto, traduzido em uma forma especial de didatismo (que não escamoteia as dificuldades e a necessidade de domínio técnico dos conceitos filosóficos); e a aposta no método filosófico como forma privilegiada de enfrentamento das questões postas pelo nosso tempo. Em outras palavras: saber, pedagogia e ousadia.

Seguindo a inspiração que ditou o trabalho anterior, Antropologia Filosófica, em dois volumes, Padre Vaz divide seu trabalho sobre a ética em duas partes, "Histórica" e "Sistemática". A história, tanto das concepções de homem (na Antropologia Filosófica) quanto dos modelos éticos, fundamenta uma seção propositiva, de categorias, que se alimenta das reflexões do passado para suportar um conjunto de conceituações capazes de orientar filosoficamente o enfrentamento com os problemas colocados pelo presente. Os desafios éticos do nosso tempo serão avaliados e respondidos, desta forma, a partir de uma longa e cuidadosa análise dos paradigmas que cimentaram o solo da razão, em seus constantes e renovados embates com as emanações da História.

Num certo sentido pode-se pensar que o livro traz, ainda que de forma mais técnica, uma história da ética em diferentes momentos da trajetória da filosofia ocidental. Pela seqüência dos capítulos, da ética antiga à ética pós-kantiana, passando pelos períodos cristão-medieval e moderno, uma história é traçada, mas com uma atitude filosófica que a distingue mesmo das melhores histórias da filosofia. Esta atitude ou empenho, que pode ser traduzido na noção hegeliana de rememoração (Erinnerung), consiste em recuperar na história da ética uma organicidade que permita ver, se desenhando no esforço da humanidade, uma lógica que dá dimensão verdadeiramente filosófica à interpretação racional do ethos.

A atual febre de ética é sintoma de uma doença maior, o niilismo

Só o esforço e a paciência do conceito permitem ir além das concepções éticas como resposta datada a problemas conjunturais. Por isso, a ética de que trata o livro é, necessariamente, ética filosófica. A reivindicação feita é, nesta chave, de uma ciência que permita fundamentos aceitos universalmente. Em outras palavras, filosofia. A introdução e a primeira parte da obra tratam exatamente deste acercamento do projeto, constituindo para isso uma clarificação dos conceitos e até mesmo dos nomes, para em seguida trabalhar a natureza do campo ético, definível como uma forma específica de saber, que se diferencia da ciência e germina na reflexão filosófica.

A partir da limpeza do terreno conceitual e terminológico e da fundamentação da ética como uma forma própria de saber, o autor entra no longo romance filosófico da ética, através da rememoração dos momentos privilegiados da história do pensamento. Trata-se, com certeza, de uma das melhores sínteses intelectuais do problema, ancorada em bibliografia atualizada nas mais importantes línguas ocidentais. A largueza do panorama em nenhum momento - e esta é uma das marcas dos textos do autor - permite ilações que busquem o efeito fácil. Um estilo professoral (às vezes assumidamente doutrinal), com tudo de rígido e exato que a expressão carrega, guia o autor em todos os momentos. São análises lingüísticas, conceituais, argumentativas, sempre com uma tendência de classificação e retomada dos momentos anteriores.

As lições, que se compõem passo a passo, como numa imensa tapeçaria conceitual, são marcadas com pontos coloridos de um outro desenho, que avalia o contexto histórico-social e intelectual de cada período analisado. Desta forma, o diálogo entre pensamento e história se estabelece a cada momento, e não apenas no final, como mera aplicação das lições operadas pela história. O estudo dos autores é sempre precedido de uma biografia sucinta e exata, e muitas vezes reveladora.

Um elemento que chama atenção nas análises do autor é a simpatia ou grau de penetração que consegue com as mais diversas tradições filosóficas. E não se trata, como se poderia pensar, apenas de uma compreensão superior. A descrição do pensamento grego (e sua incorporação, num segundo momento, à teologia católica) é feita com uma intensidade quase intocada pela história posterior, como se as revelações do período se dessem hoje ao entendimento. Mesmo o aparato filológico e a carga de informações, que dão extrema densidade ao texto, não escondem o olhar admirado do filósofo.

O livro, que se encerra com o anuncio de um próximo segundo volume com a parte "Sistemática" da obra, nasceu de um paradoxo percebido de forma angustiante pelo autor. Nunca se escreveu tanto sobre ética. O que pode ser sinal de excesso, na verdade é signo da falta. O avanço da ciência e a força de sua realização em forma de tecnologia e saberes aplicáveis são hoje um fato positivo da modernidade. No entanto, a mesma razão que possibilitou este cenário perde, em função mesmo de seus resultados orgulhosos, a crença nos valores fundantes. A febre de ética é sinal de uma doença maior, o niilismo, a perda dos valores humanos e espirituais. A rememoração corajosa e exigente de "Ética Filosófica" aponta no sentido e na urgência deste resgate.

A obra do padre jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz, grande parte dela composta por artigos publicados em revistas especializadas, vem sendo reeditada na série de "Escritos de Filosofia", do qual o livro em tela é o quarto volume (todos publicados pela Loyola). Em todos eles as questões principais se ligam à ética e à cultura contemporânea, em suas diversas frentes, tanto científicas quanto religiosas, além de textos mais técnicos e históricos sobre filosofia e Cristianismo. De acordo com Antônio Joaquim Severino, em seu livro "A Filosofia Contemporânea no Brasil", o projeto desenvolvido por Lima Vaz nos últimos anos vem tratando da relação teoria/práxis, ao longo de um arco que vai de Platão a Hegel, e da retomada especulativa do caráter dialético desta relação.

Padre Vaz realiza a síntese perfeita de seu labor de mestre de gerações

Discordando de Fernando Arruda Campos, que coloca o pensamento de Lima Vaz como uma forma de tomismo adaptada às questões contemporâneas, Severino, sem negar a importância da inspiração da metafísica neotomista até mesmo pela formação de Lima Vaz), defende uma maior criatividade do filósofo mineiro. "Os pressupostos ontológicos, epistemológicos e axiológicos presentes no pensamento de Lima Vaz acabam atuando como referências bem amplas, que transcendem os limites estritos de uma escolástica tomista, sendo ainda compatíveis com as posições fundamentais das antropologias humanistas contemporâneas (...) É por isso que Lima Vaz é sensível às contribuições das expressões modernas e contemporâneas da filosofia: à própria ciência, que deixa de ser puramente naturalista, vislumbrando coordenadas antropocêntricas, às filosofias da história e da práxis, às filosofias da existência e da pessoa".

Discreto, avesso à exposição pessoal de sentimentos, cumprindo o duplo destino de mineiro e jesuíta - com tudo que ele carrega de humildade verdadeira e discrição - Padre Vaz vem ampliando com suas obras sobre Antropologia Filosófica e Ética (deixando a expectativa para um trabalho semelhante sobre a Metafísica) o campo de seus alunos possíveis (pensadores, juristas, psicólogos, cientistas, filósofos, que seguiram suas aulas com a dedicação de discípulos por décadas). O professor ideal de tantos realiza, na altura de seus quase 80 anos, a síntese perfeita de seu labor de mestre de gerações.

* O presente artigo foi escrito pelo jornalista João Paulo e publicado no caderno Pensar do Jornal Estado de Minas de 26 de fevereiro de 2000.

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Teodoro Magni - maio de 2002