Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Escritos de adolescente

 

 

 

Em 1935, então com 13 anos de idade, Henrique Vaz elaborou um pequeno caderno manuscrito em que expressava o seu idealismo juvenil, o seu sentido de justiça e a sede de conhecimentos que foi marcante em toda a sua vida.

Além dos poemas e escritos pessoais - que apresentamos nesta página com a grafia original - Henrique também reproduziu em seu caderno, entre outras coisas, trechos de Génie du Cristianisme de Chateaubriand, sonetos de Camões, poemas de Bocage, poesias de Raimundo Correia, o trecho Inundação do romance O guarany de José de Alencar e discursos proferidos no Senado Federal, entre os quais o de Ruy Barbosa de 13-10-1896, em que o senador combatia os jogos de azar.

Ouro Preto

25/06/1935

Pedaço escolhido d'esta grande patria legendaria cidade de Ouro- Preto, que através da Historia, vistes o desenvolver-se da formação de uma nacionalidade, salve! Do recinto de granito* em que estaes encerrada, qual preciosa reliquia en cofre forte, irromperam estes movimentos, de revolta, primeiro protesto de um povo em formação ancioso de liberdade. E se abafadas em sangue, foram as tuas nobres tentativas de libertação serviram ao menos para lançar no sólo patrio a semente da idéa de liberdade, que produzio seus frutos, 30 anos após a tua ultima e heroica tentativa, a Inconfidencia Mineira, no grito de um principe que reboou de norte a sul: "Independencia ou morte". Os teus velhos edificios, rezam lendas de fidalgos empoados, de escravos torturados, e cada pedra de tuas ruas guarda uma particula de sangue do heroe que se chamou Felipe dos Santos, que em 1720 se sacrificou pela sua patria, dando seu sangue pela liberdade de seu paiz.

* A palavra foi substituída, à lápis, pela palavra quartzito, provavel- mente pelo pai, Engenheiro de Minas.

 A justiça

sem data

Como um rochedo que despencando-se de fraga em fraga abre um sulco profundo nas asperezas de accidentada encosta, tal a justiça nas corrupções da humanidade. Da rustica cabana do selvagem, dos rutilantes paços dos reis é ella a soberana absoluta. Nas decisões de um barbaro chefe, ou no "veredictium" de augusto tribunal, ella impera sempre. Desde as remotas eras do nomadismo do homem, até os prodigios da actualidade, na evolução da raça humana, a justiça dominou, ora em comicios ora em parlamentos e nos palacios imperiais. Ella nasceu da razão, nos trogloditas, germinou na sabia Grecia, floresceu sob os Romanos, autores do Direito, e expandia seus frondosos galhos até os nossos dias. Imperou nas decisões aos "eforis", dictou seu voto vencedor aos "areopagistas", e penetrou triunphante no paço dos Césares. Soberana universal, regeu aos principes, moderou o poder dos tyranos, e metarphoseou-se, através os seculos na palavra "sagrada lei". Palavra que é um açoite nas consciencias dos criminosos e infractores, palavra que é um balsamo para o coração dos oprimidos e victimados das injustiças. A justiça refletiu-se no povo romano, e utilizando-se do (?), promulgou o codigo das doze tabuas. Penetrou no espirito dos lordes ingleses, e por estes impoz a João sem terra a magna carta e a Henrique III os estatutos de Oxford. E quando (titoasibulo ?) e seu companheito tomaram a si o encargo de libertar sua patria dos 30 tyranos foram sem duvidas inspirados pelo sentimento de justiça e de liberdade! Eis o poder da razão, mãi da justiça atraves os seculos!

Livros

13/06/1935

São os livros os grandes amigos do homem e seus melhores mestres. Por elles, e escriptos, principalmente, foi-nos transmitida a historia da humanidade. Transmitem-nos os livros as delicias dos grandes escriptores, desde a eloquencia do Pe. Antonio Vieira, ás paginas épicas do grande Camões. Fazem elles os prazeres dos homens instruidos, e por elles transmitem os sabios suas teorias scientificas, ou os litteratos os primores de seu talento. Lancemos um volver d'olhos sobre o correr da historia, e notemos o papel preponderante que exercem os livros, já o D. Quixote, de Cervantes, construindo uma satyra formidavel contra as regras da cavallaria, já os escritos de Voltaire e Rousseau influindo no desencadear-se da revolução franceza. Os livros são hoje indispensaveis, como sempre foram, aos que desejam instruir-se; e a esses grandes amigos do homem, os bons livros, devemos dedicar um culto especial, pois quem possui uma bôa biblioteca, pode considerar-se feliz. E aqui são repetidas as palavras do Pe. Antonio Vieira: "Os livros são nossos mestres mudos.".

Pôr do Sol

20/03/1935

Descia a tarde lentamente, sem uma aragem a perpassar pela folhagem das arvores. O ar estava parado e calmo, e nenhum ruido interrompia o silencio que reinava. O sol, já desapparecendo no horizonte, lançava á terra seus derradeiros raios, e dourava pesadas nuvens accumuladas em sua volta. As sombras começavam a avançar, já nos morros proximos e breve envolveriam toda a terra com seu pesado manto. O trinado de um passaro, chamando a companheira, quebra bruscamente o pesado silencio da tarde, e á esse vem juntar-se outros e outros, vem como as vozes dos animais que recolhiam-se ás suas pousadas. Uma leve brisa faz farfalhar por um momento a folhagem das arvores. O ultimo raio de sol doura pela derradeira vez a campina, e por fim recolhe o astro-rei, atraz dos morros seu disco abrasado. A superficie terrestre vae escurecendo pouco a pouco, e afinal as sombras envolvem-a completamente.

Premio de traição

20/08/1935

Sobre soberbo trono, de honras cercado

Descança altivo, vil usurpador

Empunha o sceptro e de ouro adornado

(Sobre ?) pela traição e perfidia alcançou

 

Mil lanças, sua pessôa guardam

Mil escravos attentos á sua voz

submissos ministros executam

sua vontade, de tyrano e algoz

 

Geme o povo sob impostos curvado

Jaz o rei em horrível calabouço

Mas um dia, tendo se a sorte modificado

Dá por terra, com o pretenso coloso

 

Entre aplausos da plebe volta o rei

A antiga calma ao paiz retorna

Castigados são o traidor e sua grei

Seu imenso poder em nada se transforma.

 

Ingratidão

(a propósito da tragédia de Shaskepeare)
25/09/1935

Reinava na Bretanha em certa ocasião
Um velho rei, que Lear se chamava
Extenuado pela idade, que o prostrava
Das três filhas fez uma reunião
Pergunta-lhes qual dellas mais o amava
Para entre ellas o reino repartir
Da primeira, ouviu que o adorava
A segunda seu falso amor o fez sentir
"E Vós?" indaga elle á terceira
Responde esta, que só por ser dever, o amava.
Exasperado, Lear, entre as primeiras
O reino, em duas partes separava
Indo ao palacio das filhas que adotara
Dellas só mereceu a repulsão
E recorrendo-se á que desherdara,
Na sua casa, enfim, encontrou consolação.

* Os Textos foram reproduzidos como no original. Algumas palavras, assinaladas em branco ou substituídas por interrogação, possuem grafia de difícil compreensão no texto manuscrito.

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Teodoro Magni - maio de 2002