Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Um humanista mineiro*

Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz

 

 

Na foto, Henrique Vaz ao lado do avô, Cláudio Alaor Bernhaus de Lima.

Meu avô materno, Cláudio de Lima, faleceu em 1936, aos 81 anos, vítima de acidente de trânsito em Belo Horizonte. Nascera em Ouro Preto, na freguesia de Antônio Dias, a 14 de janeiro de 1855, e repousa entre os mortos do Carmo. Por ocasião do acidente que o vitimou, tinha como livro de cabeceira a obra Le Moines d'Occident, de Montalembert, numa edição de sete volumes, que lhe fora emprestada por seu amigo, Dr. João Velloso. Esse clássico das origens do monaquismo ocidental absorvia as horas de leitura do meu avô, nos últimos meses de sua vida, e a eloqüência de Montalembert o encantava. Foram as últimas lições que, no entusiasmo dos meus quinze anos, ouvia dos seus lábios: a obra civilizadora dos monges, nas origens da Europa moderna.

Meu avó era médico. Formara-se em 1880, na Imperial Escola de Medicina do Rio de Janeiro. Por meio século atendeu na Clínica da Santa Casa de Misericórdia e lecionou na Escola de Farmácia. Acompanhava com atenção os progressos da Medicina e foi dos primeiros, em Minas, a interessar-se pelo nascimento e desenvolvimento da Radiologia Clínica. Tinha curiosidades botânicas e identificou a espécie Umburana Claudii. Sua predileção era a Química geral, que ensinou por longos anos.

O avó materno,
Cláudio Alaor Bernhaus de Lima.

Mas não é a face do médico e do cientista que quero evocar na personalidade do meu avô. Nem mesmo a face que nele brilhava com mais irradiante nitidez, a do homem de fé. Quero lembrar o humanista. Foi dos mais altos e nobres e talvez (ai de nós!) um dos últimos cultores desse humanismo mineiro, que ornou, por longo tempo, o brasão de nobreza da gente das montanhas na política, na literatura, nas artes, na ciência. Entendo aqui humanismo, não apenas como o exercício permanente dessa sabedoria prática, que Aristóteles denominou "phoronesis" e os latinos chamaram "prudentia", mas também como o cultivo desses estudos que mereceram justamente o nome de studia humanitatis ou "escola de humanidade".

Meu avô residia no grande casarão colonial da Rua das Cabeças, número 4. Nele nasci e vivi minha infância e nele passei, adolescente, as férias de verão. Na vasta sala central do andar térreo ficava a Biblioteca do meu avó. Ali eu o contemplava, quando não atendia na Santa Casa ou estava na Escola de Farmácia, mergulhado em infindáveis leituras. Na grave penumbra daquelas estantes, minha curiosidade intelectual de criança e adolescente abriu-se para o mundo, folheando a grande Encyclopédie Larousse Illustrée ou decifrando o dorso solene daqueles volumes em cuja imobilidade tentava adivinhar a vida secreta e fremente que corria nas suas páginas. Foi ali que meu avô começou a ensinar-me latim aos 11 anos, na Gramática de Clintock e no De Virus illustribus de Lhomond. Foi ali que ele me fez traduzir, copiando-as naqueles cadernos de 200 réis, de capa azul, páginas de Bossuet, de Chateaubriand, de Guizot. Meu avô nada ou pouco escreveu. Que eu saiba, apenas sua tese de Medicina e uma memória histórica no livro do II Centenário de Ouro Preto, em 1911. Como uma fonte inesgotável, as águas de sua imensa erudição correram abundantes e tranqüilas, no remanso daquela Biblioteca, em conversas com discípulos e amigos, entre os quais o mais assíduo era o Padre João (Mons. Castilho Barbosa).

A espécie Umburana Claudii, identificada pelo avô

Com infinita saudade, revejo intacta na memória aquela moradia amável do saber. As altas janelas que se abriam para a sonolenta Rua das Cabeças e por onde entrava alegre o sol da manhã. No centro, a grande escrivaninha sempre abarrotada de livros e papéis e, atrás, outra mesa onde pousa solene, encadernada em vermelho, uma enorme edição ilustrada da Gerusalemme liberata. Do lado direito, as quatro estantes dos livros de Medicina e ciências. No fundo, a larga e alta estante da literatura clássica. Lá se enfileirava em encadernação verde, a coleção de clássicos latinos de Nisar, entie outras edições de autores gregos e latinos. Havia também preciosidades bibliográficas como uma edição elseviriana  Quinto Cúrcio Rufo, de de 1658, e o grande Tácito de Justo Lípsio, na edição plantiniana de l648. Lá estavam os clássicos das literaturas ocidentais. Muitos dos autores italianos haviam feito parte da biblioteca do irmão de minha bisavó, a Viscondessa de Camargos, que residira e falecera em Florença. Cervantes, Shakespeare, Milton e, é claro, em lugar de honra, a literatura francesa, coroada por uma bela edição de Chateaubriand, em seis volumes, da Imprimérie Nationale. Uma magnífica edição ilustrada de Goethe fora presente de Arduíno Bolivar e trazia a dedicatória de um humanista a outro: Parvo in munere cernitur magnus amor. Para meu avô, a literatura luso-brasileira ia pouco além de Antônio Feliciano Castilho. Herculano e Garret eram as únicas presenças românticas naquele reino do classicismo. Ainda no fundo, para o lado esquerdo, as estantes de Religião, de História, de Filosofia e, no alto, a coleção da Revue des Deux Mondes. Num velho volume, um título misterioso atraía-me como um pressentimento: Apophtegmata veterum philosophorum. Mas tinha que contentar-me em tomá-lo das mãos apenas para pincelá-lo de querosene, na guerra sem quartel que meu avô travava contra as traças.

Neste tempo em que duras tecnoburocracias nos oprimem, em que um vertiginoso fluxo de imagens nos arrasta, em que somos inundados por estes best sellers que hoje o mundo lê apressadamente e dos quais amanhã ninguém se lembra, que destino estará reservado á velha tradição humanista? Que sorte espera esses clássicos que atravessaram os séculos e foram, para tantos mineiros ilustres, a "escola de humanidade" studia humanitatis? Ao evocar a figura ideal do humanista mineiro de outrora na memória veneranda do meu avô, essas interrogações crescem em mim, como uma questão colocada sobre a própria identidade da cultura mineira. Há uma constelação tutelar de nomes de grandes humanistas que paira no céu da alma mineira. Lembro meu avô e alguns dos que pertenceram ao círculo dos seus amigos, Tomás Brandão, seu cunhado,  Cláudio Brandão, seu sobrinho, Diogo de Vasconcelos, Augusto de Lima e tantos outros. Para ela levantamos o olhar na hora que se trata de saber o que verdadeiramente somos e decidir sobre o que seremos.

* Este artigo foi publicado no Jornal de Ouro Preto em 02/10/1993

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Teodoro Magni - maio de 2002