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"Dom Luciano Mendes de Almeida, nas exéquias do Pe. Vaz, resumia nestas palavras o seu testemunho:
'Conjugava a exímia sabedoria e virtude com a simplicidade e despretensão. No Brasil, será difícil encontrar tão cedo um mestre de tão consumada ciência e
santidade'."
O falecimento do Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz, ocorrido em 23 de maio do ano passado, despertou novo interesse por sua obra, em particular, através de uma série de homenagens que lhe foram prestadas postumamente por instituições acadêmicas de todo o país. Dentre elas destaca-se a mesa redonda promovida pela ANPOF (Associação nacional de Pós-graduação em Filosofia) em seu encontro anual em São Paulo.
O filósofo jesuíta, nascido em Ouro Preto em 1921, exerceu de 1953 até sua morte o magistério filosófico, seja na Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus, sediada em Nova Friburgo e posteriormente transferida para o Rio de Janeiro e para Belo Horizonte, como parte do Instituto Santo Inácio - Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus (ISI-CES), seja de 1964 a 1986, no Departamento de Filosofia da FAFICH-UFMG, que lhe conferiu em 2001, por ocasião de seu 80º aniversário, o título de Professor Emérito. Nestes quase 50 anos de atividade acadêmica, num ritmo de vida extremamente disciplinado e austero, dedicou-se incansavelmente à investigação e produção científica no campo da filosofia, e, mais ainda, aos seus cursos e à orientação de seus alunos e alunas na busca da verdade e do sentido da vida. Suas exposições preparadas com esmero e desenvolvidas com clareza e brilho inigualáveis arrebatavam a atenção e interesse dos assistentes, cativados também por sua disponibilidade a toda prova e pela simplicidade de seu trato. Através destes cursos e de suas conferências e escritos, formou uma legião de discípulos, tanto entre os jesuítas como entre os estudantes da UFMG e de outras Universidades, profundamente ligados ao mestre pelo pensamento e pelo afeto, muitos dos quais ocupam hoje um lugar de destaque no meio acadêmico brasileiro.
Sua irradiação na vida intelectual e mesmo política e social do país ultrapassou, porém, de muito o âmbito da escola. Foi o mentor da Juventude Universitária Católica (JUC) nos anos agitados que antecederam o golpe militar de 1964, iluminando o horizonte teórico de um autêntico compromisso cristão com a justiça e a transformação da sociedade. Radicado na tradição
filosófico-teológico-espiritual cristã, foi um profundo conhecedor de S. Agostinho e de S. Tomás de Aquino, bem como da filosofia grega de Platão e Aristóteles. Demonstrou, ao mesmo tempo, grande abertura para o pensamento moderno, em diálogo permanente com seus mais ilustres representantes. Além de trabalhos importantes sobre Karl Marx e sobre o paleantropólogo e pensador jesuíta Teilhard de Chardin, dedicou-se especialmente ao estudo da obra filosófica de Hegel, do qual se tornou um dos maiores especialistas. Suas publicações compreendem uma dezena de livros e várias centenas de artigos e recensões de caráter predominantemente filosófico. Destacam-se os dois volumes da Antropologia Filosófica e os sete volumes dos Escritos de Filosofia, que incluem a sua Ética Filosófica.
Dotado de prodigiosa erudição, seus vastos interesses culturais estenderam-se muito além do campo da filosofia, abrangendo a teologia, história e literatura ocidentais, as ciências humanas e naturais, numa visão ampla de toda a problemática contemporânea. Apesar do caráter metodologicamente rigoroso de seus escritos, que não cedem às seduções e modismos de uma atualidade superficial, nem no conteúdo nem na linguagem, orientou sua reflexão para a análise da realidade sociocultural contemporânea, com profundas considerações sobre a crise da modernidade sob os aspectos filosóficos, éticos, políticos e religiosos. Deste modo, com notável objetividade e sem prejuízo de sua típica modéstia e cordialidade, tomou posição clara no debate atual a respeito do sentido transcendente da existência humana e dos rumos de nossa civilização. Sua valorização das potencialidades da razão e das conquistas da modernidade, não o impediu de apontar com lucidez crescente os impasses resultantes do abandono pela metafísica moderna da subjetividade do paradigma teocêntrico, próprio do humanismo cristão. A esta inversão antropocêntrica do dinamismo do espírito atribuía o niilismo do pensar pós-metafísico e da cultura pós-moderna.
Na sua visão, é do congraçamento do movimento ascensional da razão filosófica (anábasis), tipificado pelo pensamento grego, com o movimento descendente da Palavra de Deus (katábasis), refletido na tradição bíblico-cristã, que surge a verdade do homem. Assim como lamentava a deriva agnóstica ou simplesmente atéia do pensamento acadêmico, bem como a dissolução dos valores morais veiculada pela cultura contemporânea, rejeitava as soluções fáceis do fideísmo dogmático, da praxis voluntarística, da evasão mística ou simplesmente do sentimento religioso puramente subjetivo. Saudou por isso com entusiasmo a Carta Apostólica "Fides et ratio" de João Paulo II, lendo nela a confirmação de seu programa de reconciliar fé e razão, para além dos mal-entendidos dos últimos séculos, através de uma reprodução original da síntese filosófico-teológica realizada por Tomás de Aquino no século XIII. Sua última obra, saída nas vésperas de sua morte com o título "Raízes da modernidade", trata justamente do assunto que o vinha preocupando cada vez mais, i.e. a necessidade de redescobrir os fundamentos metafísicos da existência humana, pessoal e social, à luz da tradição cristã. Só assim será possível, pensava Pe. Vaz, desenvolver uma Ética universal, à altura da dignidade da pessoa humana e adequada às exigências da civilização planetária que se anuncia no século XXI.
Por todos estes títulos, ele foi certamente na sua geração o representante mais destacado e o interlocutor mais respeitado do pensamento de inspiração cristã nos meios intelectuais e universitários do Brasil. Seu nome é presença obrigatória e sua obra objeto de análise elogiosa nas publicações nacionais e internacionais dedicadas à filosofia do Brasil. De fato, Pe. Vaz é considerado um dos principais filósofos brasileiros da atualidade. No livro recente Conversa com filósofos brasileiros, Ed. 34, São Paulo, 2000, não só é um dos 16 entrevistados, como também é apontado por vários deles como uma das três ou quatro figuras mais notáveis no cenário filosófico nacional.
Entretanto, mais do que um puro intelectual, o Pe. Vaz foi um homem de fé, um sacerdote, animado pelo amor a Cristo e a seus irmãos, empenhado no diálogo com a cultura contemporânea, para revelar aos homens e mulheres de nosso tempo, através do discurso racional, o sentido autêntico da existência humana, à luz da verdade eterna, que é Cristo. Por isso mesmo, ao lado de sua atividade filosófica, nunca deixou de dedicar-se ao serviço pastoral do povo de Deus, especialmente junto aos mais simples. Entre outros ministérios, celebrou regularmente nos últimos 20 anos de sua vida a Eucaristia dominical na Paróquia de Cristo Operário, no Bairro Planalto, periferia de Belo Horizonte. Seus companheiros jesuítas sempre vislumbraram nele o exemplo de alguém, que cumpre, com admirável fidelidade e perseverança, inteligência e criatividade, a missão de serviço, assumida na fé, através das mediações institucionais da Igreja Católica. Dom Luciano Mendes de Almeida, nas exéquias do Pe. Vaz, resumia nestas palavras o seu testemunho: "Conjugava a exímia sabedoria e virtude com a simplicidade e despretensão. No Brasil, será difícil encontrar tão cedo um mestre de tão consumada ciência e
santidade".
*Artigo
publicado em maio de 2003, por ocasião do primeiro ano da morte
de Padre Henrique Vaz |