A obra de Henrique de Lima Vaz destaca-se no cenário filosófico nacional pela originalidade, rigor especulativo e abrangência. Não seria exagerado afirmar que dificilmente outros pensadores brasileiros manifestam um domínio tão vasto e profundo da história da filosofia, unido, aliás, a uma impressionante cultura geral nos campos teológico, histórico, científico e literário. Não se trata de erudição superficial, mas de um conhecimento preciso das posições dos maiores pensadores do Ocidente, fundado na familiaridade com seus textos e no acompanhamento sistemático da bibliografia correspondente. A riqueza das notas que pontilham seus escritos, sempre oportunas, freqüentemente acompanhadas de breve apreciação dos autores e obras citados, constitui um indício seguro, não só da amplitude, mas também e sobretudo da qualidade de sua leitura.
Se ficasse apenas nisso, o jesuíta mineiro poderia ser contado entre os estudiosos mais competentes e os divulgadores mais talentosos em nosso país da problemática histórico-filosófica. Ele foi sem dúvida entre nós um dos maiores especialistas, senão o maior, em pensadores como Platão e Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino e Hegel. Não se contentou, porém, em comentar seus textos, expor suas idéias, debater as diversas interpretações correntes, procurando quando muito revelar algum aspecto novo numa releitura do pensamento destes autores preferidos, exercício que caracteriza a maior parte da publicação filosófica nacional. Escreveu, sem dúvida, artigos monográficos ou de síntese sobre estes e outros pensadores, que conhecia a fundo, e comentou em cursos brilhantes, recordados até hoje por seus alunos na UFMG, as principais obras de Hegel.
Entretanto, mediante este diálogo com os mestres do pensamento ocidental, elaborou suas próprias posições sobre as questões fundamentais que desafiam a mente humana, articuladas num discurso de sólida base histórica e elevado teor especulativo. É nesta construção teórica de extraordinária penetração e inegável originalidade que reside o legado mais precioso que nos deixou.
Ora, não obstante os estudos de valor que têm abordado diferentes aspectos de sua obra, teses inéditas ou já publicadas, o pensamento de Padre Vaz no seu conjunto e no seu significado para a compreensão de nossa realidade ainda está por ser explorado. Embora celebrado como pensador insigne, sua produção não teve ainda a repercussão que merece em termos de assimilação e confronto por parte da inteligência nacional. A modéstia e discrição características de seu modo de ser e de escrever, absolutamente alheio a qualquer alarde exibicionista, impediram felizmente que suas propostas virassem moda ainda em vida. Esta circunstância oferece, em contrapartida, a oportunidade de uma recepção póstuma, verdadeiramente séria e autêntica, de suas idéias, como, ao que tudo indica, está começando a ocorrer, e que promete ser de rara fecundidade para nosso pensamento filosófico e nossa própria cultura.
As obras publicadas de Padre Vaz formam à primeira vista dois blocos bem distintos. De um lado, temos suas produções sistemáticas, a "Antropologia Filosófica" e a "Introdução à Ética filosófica", ambas em dois volumes, e, ainda, de certo modo, o escrito sobre as "Raízes da Modernidade", que veio à luz às vésperas de sua morte. De outro lado, deparamo-nos com inúmeros artigos, editoriais, notas e recensões, publicados na revista SINTESE e em outros periódicos e obras coletivas, e em parte reunidos hoje em quatro dos volumes de seus "Escritos de Filosofia". Na verdade, porém, reina uma perfeita complementaridade entre estas duas dimensões de sua obra. Os textos sistemáticos fundamentam amplamente as posições que Padre Vaz assume na discussão das questões centrais de nosso tempo, ao passo que a problemática abordada nos escritos avulsos motiva os desenvolvimentos sistemáticos, cujas conclusões iluminam, por sua vez, a análise dos problemas emergentes. É a estrutura teórica de seu pensar, rigorosamente elaborada, que proporciona a amplitude de horizontes, a profundidade de visão e a admirável coerência de seu pensamento maduro na abordagem dos temas mais candentes da atualidade.
Por estas duas vias convergentes exprime-se a preocupação dominante que unifica todo o seu filosofar. Podemos formulá-la em termos hegelianos como "a captação de seu tempo no conceito". Trata-se de considerar a Filosofia - explica ele - "seja como resultado intrínseco da evolução da cultura, seja como teoria da cultura". A sua "teoria da cultura", i.e. a sua reflexão sobre a atualidade numa perspectiva sistemática, constitui-se formalmente a partir da rememoração da história do pensamento ocidental.
O diálogo do filósofo jesuíta com o pensamento moderno terá, porém, como pressuposto a fundamentação da transcendência do espírito humano, indispensável, em particular, para fazer jus à experiência do agir ético na sua plenitude. Com efeito, a justificação racional dos valores morais face ao niilismo contemporâneo tornou-se cada vez mais a preocupação dominante de seu pensamento. Entretanto, a afirmação da transcendência não é estabelecida mediante a recuperação arbitrária da perspectiva antropológico-metafísica da filosofia platônico-aristotélica ou medieval, nem muito menos por uma intrusão de dados da fé no discurso racional. Ele é alcançado a partir de um processo estritamente filosófico de explicitação das razões imanentes ao ethos nas suas realizações históricas. A racionalidade do ethos, como de toda a realidade humano-mundana, esta sim constitui uma das convicções mais arraigadas na mente de Padre Vaz e um dos pilares de todo o seu discurso especulativo.
Na verdade, a Ética vaziana reassume basicamente as posições da Ética clássica de impostação platônico-aristotélica, na reformulação proposta por um Agostinho e um Tomás de Aquino à luz da visão cristã de um Deus pessoal, criador e absolutamente transcendente. Entretanto, esta retomada das teses tradicionais é propriamente uma suprassunção dialética do pensamento antigo e medieval no nível da subjetividade, a partir da dinâmica da afirmação primordial "Eu penso". Trata-se do desdobramento das condições de possibilidade do agir racional e livre na sua teleologia intrínseca como busca da auto-realização do ser humano no bem.
Desta maneira o discurso vaziano, como rememoração do trajeto histórico do pensamento filosófico até nossos dias, situa-se à altura da racionalidade moderna e torna-se capaz de enfrentar em pé de igualdade e com perfeito conhecimento de causa os desafios levantados, em particular, contra o absoluto do valor moral pelo reducionismo positivista, nas suas múltiplas formas, ou contra a sua objetividade pelo subjetivismo kantiano da razão autônoma. A superação do imanentismo antropocêntrico moderno é alcançada, portanto, mediante um discurso dialético rigoroso, que explicita a inteligibilidade última do agir ético na sua intencionalidade radical.
Tal é a significação maior da obra filosófica de Henrique Cláudio de Lima Vaz. Sua crítica da modernidade, embora caminhe na contramão das correntes hoje dominantes, oferece um modelo alternativo de interpretação da realidade, original, na sua articulação especulativa, e perfeitamente à altura das exigências conceptuais do pensamento contemporâneo. Nessa lucidez aberta e independente consiste a sua contribuição maior para a superação dos impasses de nossa cultura. Oxalá a oferta de diálogo, implícita em sua obra, desperte a atenção e interesse de quantos se preocupam, no Brasil e para além de nossas fronteiras, por responder à problemática crucial de nosso tempo: como reencontrar um universo de valores comuns, que dêem sentido à existência humana e permitam a constituição de uma comunidade ética de âmbito universal.