Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Padre Vaz
João Batista Libanio 

 

 

Pe. Vaz não foi desses homens, que se enrolam em doutorados e pós-doutorados, que freqüentam as grandes universidades do mundo à cata de títulos. Teve uma formação relativamente tradicional sem nenhum brilho externo.

O esplendor de uma inteligência privilegiada unida a uma simplicidade de vida, alicerçada em fé inquebrantável, vestia a pessoa do Padre Vaz de beleza única. Homem de fé, marcado pela genuína piedade mineira, entregou-se de corpo inteiro à vida intelectual. Era verdadeira vocação. O chamado veio desde cedo no contato com um avô que lhe fazia brilhar o olhar, ao mostrar-lhe as grandes obras da cultura ocidental.

Nasceu cercado pelas montanhas de Ouro Preto. Permaneceu-lhe até o fim da vida o gosto pelas cidades serranas. E a vida o colocou longos e longos anos vivendo em Nova Friburgo e em Belo Horizonte, onde se sentia bem, em casa. Seu pensamento tinha atração das alturas. Sempre privilegiou os clássicos do helenismo – Platão e Aristóteles – e da cultura cristã – Santo Agostinho e Santo Tomás. Sobre este último escreveu, já nos últimos anos de sua vida, artigos maravilhosos, mostrando a atualidade e vigor capazes de iluminar o milênio que se inicia.

Pe. Vaz não foi desses homens, que se enrolam em doutorados e pós-doutorados, que freqüentam as grandes universidades do mundo à cata de títulos. Teve uma formação relativamente tradicional sem nenhum brilho externo.

Terminou seus estudos filosóficos na modesta Faculdade dos Jesuítas de Nova Friburgo. Fez teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde se doutorou em Filosofia. Naqueles idos, a Gregoriana não era nenhum fanal filosófico nem teológico. Pelo contrário, albergava grupos mais conservadores, enquanto a teologia e a filosofia se desenvolviam no mundo francês de alemão. E depois voltou para o Brasil e aqui ficou até a morte.

A maravilha está precisamente nessa vida recolhida, sem ostentação. Na solidão de seu quarto passou as horas de maior fecundidade intelectual. Contactou o mundo inteiro pela leitura sempre atualizada. Certa vez, o curioso e irrequieto Michel de Certeau, vindo de Paris, conversa com o Padre Vaz. Espantado com o conhecimento bem atual, perguntou-lhe se tinha estado recentemente em Paris. Sim, lá pela década de 40. O Padre Vaz, certa feita, quando de uma visita ao ISI de B.L Puntel, professore de Munique, conversava com ele sobre os filósofos alemães, como se fossem colegas da UFMG.

Tamanha capacidade de conjugar o pensamento clássico, pensamento-fonte, com a mais recente publicação de valor, fazia dele uma pessoa intelectual única. Como não sabia que coisa fosse vaidade acadêmica, era pura transparência da verdade. Nunca maculada por interesses menores da exibição humana. Admirável também era o seu respeito pelas pessoas, pelas posições diferentes. Se as criticava com a clareza de sua lógica, vestia essas críticas com o toque da delicadeza, do respeito de quem não fere ninguém.

A irradiação de seu pensamento vinha das idéias e da personalidade. Não se separam nele essas duas fontes. As idéias sofriam o duplo processo da contínua aprendizagem – leituras intermináveis, constantes, atuais – e da reformulação numa síntese pessoa, crítica e criativa. Os anos árduos da filosofia e teologia escolástica deram-lhe a capacidade, dificilmente encontrável hoje, de um rigor lógico e preciso, capaz de entrar em campos sempre novos, sem deixar-se seduzir pelo brilho superficial do “último grito” filosófico. A exatidão marca-lhe todas as obras. Escreve com linguagem castigada que reflete um pensamento igualmente lapidado.

Resumiria a pessoa do Padre Vaz com a frase latina que serviu na pena de um escrito sanônimo para descrever a Santo Inácio de Loyola, de quem ele era filho devoto. Non coerceri a Maximo, contineri tammen a mínimo, divinum est.

De fato, ele espargiu muita luz. E agora, para dor de todos nós, esta luz se apagou. Ele já não irradia como pessoa viva na história. Continuará, no entanto, a iluminar-nos por tudo o que nos deixou de ensinamentos em letras e vida. No mistério da fé, acreditamos em outra luz que ele emana. A Igreja no pudor de seus ensinamentos sobre a vida para além da morte inseriu no final do Credo o resumo de nossa esperança. “Creio na ressurreição dos mortos e na vida eterna”. É dessa eternidade de vida que sua luz brilhará sem término.

*Artigo publicado no Informativo do Centro Loyola de Fé e Cultura, Puc- Rio, número 09, agosto de 2002

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Teodoro Magni - maio de 2002