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Apresentação
Em um tempo de homens contemporâneos de
inimagináveis violências contra a vida. contra a própria terra e contra os próprios homens, somos também
contemporâneos de avanços científicos e tecnológicos que nos mantêm otimistas com o destino da humanidade. Mais ainda, somos contemporâneos de homens que nos orgulham e que transmitem a certeza de que novos tempos permitem a construção de um futuro muito diferente deste presente ainda tão tenebroso e comprometedor dos nossos destinos de pessoas livres. Integras e
felizes.
Por essas razões, a presente sessão solene da Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais em
homenagem aos 80 anos do padre Henrique Cláudio de Lima Vaz e aos 60 anos do Instituto Santo Inácio, da Companhia de Jesus, constitui um reconhecimento do povo mineiro a um contemporâneo e a uma instituição de estudos científicos e filosóficos que nos motiva na luta pela construção de uma sociedade mais digna, humana e
livre.
O povo e o Estado de Minas Gerais, através do seu Legislativo, que verbaliza os sentimentos de seu povo, orgulha-se de ter recebido, na década de 60, o padre Vaz e a Companhia de Jesus, num momento em que este gesto se traduziu como uma prova de sabedoria e de
solidariedade.
O nosso Estado de Minas Gerais soube, através da decisão inteligente e humana, corajosa e definitiva, do nosso bispo, hoje Cardeal, Dom Serafim Fernandes de Araújo, abrigá-los em nossa
terra, dar-lhes um pouso para este empreendimento maravilhoso do pensar livre e comprometido com o homem em sua essência: a liberdade. Um gesto magnânimo, um gesto corajoso, um gesto sábio, com reflexos imediatos na vida intelectual do nosso
Estado e do País, mas sobretudo um gesto de Justiça.
Esta sessão solene, seguramente, se projetará, porque, a um só tempo, estamos testemunhando e fazendo a história do
futuro.
O padre Henrique Cláudio de Lima Vaz e sua obra
consubstanciam uma proposta de síntese do conflito dialético entre a fé e a razão, que encontra sua mais profunda e consistente expressão na tenaz e persistente construção deste
pensador.
A superação dialética deste conflito atual e que angustia a existência contemporânea está na ética, sendo que o espaço destas duas linguagens, a fé e a razão, só pode ser o compromisso consensual de manutenção e preservação da
liberdade.
Luiz Tadeu Leite
Deputado estadual
Líder da Maioria
O Sr. Presidente (Deputado Durval Ângelo) - "Autoridades, prezado filósofo, professor e Padre Henrique - que faz de seus 80 anos de vida um exemplo maior de humanismo
- dirigentes, professores e alunos do Instituto Santo Inácio da Companhia de Jesus - nosso tão respeitado ISI -, caros convidados: esta Presidência, associando-se à iniciativa do nobre Deputado Luiz Tadeu Leite, com irrestrita aprovação do Plenário desta Casa, deseja manifestar a satisfação e a honra do Poder Legislativo de Minas Gerais em receber e homenagear, no dia de hoje, a Companhia de Jesus, por intermédio de um de seus mais ilustres representantes no Brasil e no mundo, o Pe. Jesuíta Henrique Cláudio Lima Vaz, e o Instituto Técnico-Vocacional Santo Inácio, sediado nesta
Capital.
Os 80 anos de plenitude humana e intelectual de Padre Henrique e os 60 anos de relevantes serviços prestados à educação e à cultura pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus convergem, na verdade, no pensamento precursor de Inácio de Loyola, cuja obra, por ser universal, atravessa e permeia os últimos cinco séculos da educação e da cultura do mundo
ocidental.
Queremos evocar, por um momento, nesta justa homenagem ao Padre Henrique e ao ISI, Santo Inácio de Loyola, que nasceu fidalgo nos idos de 1491, cresceu e foi educado como um nobre na corte da Espanha, sofreu os rigores da guerra na mocidade de seus 30 anos, quando decidiu defender sua pátria da invasão estrangeira nas terras de Pamplona, e, em seguida, enquanto se curava das cicatrizes da luta, descobriu missão muito maior a cumprir em sua
vida.
De fato, o caminho espiritual de Inácio de Loyola continua sendo a demonstração mais forte de que o destino da humanidade pode ser transformado. Transformado mediante a descoberta de que a existência humana tem um conteúdo que vai muito além da ambição e do egoísmo que dominam as mentes e os corações escravizados pelas glórias aparentes do mundo material, pela ambição e pelo egoísmo que têm sido motores e agentes de todos os conflitos e guerras do passado e do presente, sob o signo da intolerância e do ódio entre os
homens.
O fundador da Companhia de Jesus decidiu fazer de sua vida um instrumento de amor e harmonia entre os homens e transmitir-lhes a descoberta dessa ponte sublime que enlaça a criatura humana com o pensamento de Deus. Ao percorrer o caminho que o levou da sua cidade natal a Jerusalém, de Paris a Roma, passando pela iluminação de Manresa, na Espanha, onde recebeu a inspiração permanente contida em seus "exercícios espirituais", Inácio de Loyola continua, como nunca, presente no mundo de
hoje.
E essa presença se projeta
no saber e na dignidade do Pe. Vaz, cuja influência na vida intelectual, política e social de nosso país é por todos reconhecida. A contribuição do seu pensamento e da sua obra adquire importância ainda maior neste momento de verdadeira encruzilhada que vive a humanidade no limiar do século
XXI.
Quero repetir as palavras do Secretário-Geral da União Nacional de ex-Alunos dos jesuítas no Brasil, o eminente Pedro Reis Lima Neto, ao participar em Sidney, na
Austrália, do Congresso Mundial de ex-Alunos, em julho de 1997. Naquela ocasião, propôs reflexões de extrema atualidade, nas seguintes palavras:
"A igualdade entre os homens, a construção de uma sociedade mais justa e de uma convivência mais harmônica, de um mundo melhor, constituem nosso desejo e nosso querer. E o que temos feito para isso? O que estamos fazendo? O que podemos fazer para que essa aspiração seja unia
realidade?
Inácio, quando deu início à fundação dos colégios jesuítas, não o fez por acaso. Sabia que sozinho ou com a ajuda apenas de seus companheiros não conseguiria realizar as transformações sociais e humanitárias que desejava. Os colégios seriam centros formadores de homens multiplicadores."
Pe. Vaz e o Instituto Santo Inácio realizam, na ação pedagógica e no trabalho educacional, o sonho e a vida do gênio inspirador de Loyola: formar homens multiplicadores de exemplos luminosos, que buscam sempre ser mais, o mais rico. Não o mais poderoso, mas o mais humano. Não há prioridade mais urgente que essa no mundo de
hoje.
O Pe. Vaz. humanista respeitado pela
análise a respeito da crise da modernidade sob os aspectos filosóficos, éticos, políticos e religiosos, sabe, como poucos, que está chegando o tempo de os homens superarem as barreiras de raças e credos para se encontrarem na unidade da grande família humana, que tem uma só e mesma origem: aquela que Deus criou, com semelhantes atributos e iguais prerrogativas, como o direito inalienável à
vida.
A esperança de um mundo novo constitui o verdadeiro sentido e a razão maior da homenagem que hoje prestamos ao saber de um homem e à vocação humanitária da Companhia de
Jesus, seguindo a centelha inspiradora do iluminado de Manresa.
Muito
obrigado."
O Sr. Presidente (Deputado Durval Ângelo) - Com a palavra, o Deputado Luiz Tadeu Leite. autor do requerimento que deu origem a esta
homenagem.
O Deputado Luiz Tadeu Leite - Exmo. Sr. Deputado Durval Ângelo;
Ilmo. Sr. Prof. Hugo Pereira do Amaral, representando o homenageado; Exmo. Sr. Conselheiro João Bosco Murta Lages; Sr. Prof. Olavo Romano;
Ilmo. Pe. João Mac Dowell; Ilmo. Prof. Vamireh Chacon; Sr. Secretário Adjunto José Francisco da Silva; demais autoridades; Sra. Deputada; Srs. Deputados; minhas senhoras e meus senhores: o povo mineiro, através da Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais, rende homenagens hoje, nesta sessão solene, ao Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz pelos seus 80 anos - neste ato representado pelo Prof. Hugo Pereira do Amaral, dada a impossibilidade da sua presença física por razões de saúde -, e ao Instituto Santo Inácio da Companhia de Jesus, representado pelo Pe. João Mac Dowell, por seus 60 anos de existência.
Em Montes Claros e no Norte de Minas, já recebemos os benefícios, os encômios, o apoio da Companhia de Jesus por meio de algumas casas instaladas na região, mas com base em Montes Claros, que fazem um trabalho sóbrio, correto, digno e, principalmente, sem assombramentos à frente de casas pastorais que já conhecemos lia muitos anos. Lá travamos conhecimento com jesuítas, como o Pe. Inácio Perez, o Pe. Manoel Maria, o Pe. Tarden e tantos outros que dignificam o nome da Companhia de Jesus em nossa região.
"Esta solenidade é o reconhecimento do povo, da história do Pe. Vaz, da sua histórica Ouro Preto, da nossa Montes Claros e de todas as cidades do nosso Estado à trajetória de vida e a sua monumental contribuição ao pensamento filosófico, oriunda da sua permanente tarefa de educador e pastor. A conseqüência dessa sua contribuição é a plêiade dos muitos discípulos, mestres e doutores, homens ilustres e responsáveis hoje pela reflexão filosófica que deixam o lastro do compromisso com o estudo e com o agir ético na profunda defesa da liberdade e da
felicidade.
São décadas de estudo, décadas de trabalho, estudos e trabalhos rigorosamente documentados em uma obra multiplicadora e de referência no campo especializado do conhecimento filosófico.
Em agosto, o Instituto Santo Inácio promoveu sua semana filosófica, intitulada "Saber Filosófico, História e Transcendência".
Nas conferências e nos painéis ali realizados, com a participação de intelectuais brasileiros, foram discutidos temas e questões destacadas ao longo da obra do Pe.
Vaz.
Aquele foi o momento do encontro do Pe. Vaz com seus companheiros do trabalho filosófico.
Hoje, aqui, na Casa do povo de Minas Gerais, na Casa dos representantes do povo mineiro, é o seu encontro com o nosso Estado, com o seu
povo.
Minas Gerais reconhece, através da sua Assembléia Legislativa, e com orgulho, esse homem contemporâneo da vida e da liberdade, comprometido com a sua fé e com o
pensar.
Daquele seu encontro com os seus alunos e companheiros, extraio essa sua afirmação de fé, que compartilho como compromisso do homem com a vida, a história:
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"Se o homem conhece a Deus, é Deus que, no homem, conhece a si
mesmo".
"E o terreno concreto desta automanifestação de Deus... é a história".
Uma constante em sua obra, em seu diálogo com os grandes pensadores, é o tema da
liberdade.
Segundo Pe. Vaz: "Pensar a liberdade ou unir dialeticamente liberdade e razão, eis a única tarefa da
filosofia."
Na década de 60, refletindo sobre a nossa nação e os seus caminhos, importante foi a sua intervenção sobre os conceitos que iriam, de forma trágica, marcar-nos como cidadãos nas décadas seguintes. A doutrina da segurança nacional que dividia nosso povo e transformava adversários em suspeitos, em inimigos e até mesmo em criminosos, trouxe-nos a ponderação, profundamente atual, da segurança social, da necessidade da Nação de dar garantias elementares à vida e à dignidade de seus
filhos.
A odisséia vivida pelos brasileiros nas décadas de 60, 70 e 80 constitui um épico da conquista da cidadania e, nessa odisséia, há um registro histórico, complexo e sublime, que é o conflito entre a autoridade e a simples presença do
pensador.
Essa é uma história coe se confunde com a história do homem com a do pensador e com a da instituição. É a história do Instituto Santo Inácio, uma história da resistência, da indignação, da reflexão e da formação.
Como é difícil o pensamento que só pode prosperar na liberdade, conviver com o regime de exceção!
Todas as agruras que o pensador viveu foram também agruras que seus alunos e discípulos viveram ao lado da sua instituição, como também ao lado das demais instituições que foram o cerne do Estado Democrático de Direito.
Essas histórias maravilhosas, porque da resistência e da dignidade,
confundem-se.
Se o País e se as instituições viveram e sofreram as restrições da liberdade, sofreram o pensador e a sua escola, comprometidos que são com a causa da liberdade.
Uma clara constatação é que a filosofia do século XX procurou, sim, honrar a
liberdade.
E, ainda, segundo o ProF. Carlos Cirne Lima, da Unisinos:
"A apaixonarIa apologia da liberdade, em Sartre, e no existencialismo francês marcaram claramente o período após a Segunda Guerra Mundial. Os grandes éticos da segunda metade do século fizeram cerrada apologia a favor da liberdade e da sua contrapartida, a responsabilidade
moral".
A preocupação em Lima Vaz não é só com o pensar da liberdade, mas com o agir da liberdade, o saber da liberdade, a consciência da liberdade e sua manifestação no
direito.
A missão do Pe. Vaz, por sua condição de pensador, deu maior dimensão ao seu profícuo trabalho de evangelizador e de professor, um magistério de raízes no conhecimento e na
verdade.
"O magistério do pensador Vaz se confunde com o "pastorado" do Padre
Vaz.
Origina-se no homem, em suas angústias, nas suas indagações. Só ele é capaz de indagar sobre o ser livre, sobre o ser ético.
E esse é um magistério que se destina ao homem, às suas realizações e aos seus
sonhos.
Assim, convivemos e somos contemporâneos de uma obra para todos os séculos, uma obra em diálogo com o homem, do homem, em sua incompletude, sempre ansiando a plenitude do agir em
liberdade.
O Presidente Tancredo Neves, ao assumir o Governo do Estado de Minas Gerais, no histórico ano de 1983, em seu discurso da sacada do Palácio da Liberdade, tomou da linguagem poética para filosofar.
Disse Tancredo
Neves:
O primeiro
compromisso de Minas é com a liberdade. Liberdade é o outro nome de Minas e porque a liberdade é o outro nome de Mimas, Minas nunca mais será solo para quimeras totalitárias.
Minas, através do seu Legislativo, que verbaliza os sentimentos de seu povo, homenageia o Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz, a Companhia de Jesus e o Instituto Santo
Inácio pelas mesmas razões com que, de braços abertos e generosamente, recebeu-os em Belo Horizonte, onde, na década de 60, instalaram a Faculdade de Filosofia, oriundos de Nova Friburgo, no Estado do Rio, saídos do longo inverno do exílio na própria pátria.
A resposta a esta homenagem, se é necessária a outros, não é necessária ao homenageado, Pe. Vaz, pois sendo natural de Ouro Preto, ele, melhor do que qualquer um de nós, sabe e conhece as razões desta
homenagem.
Em sessão solene, e seguramente, se projetará, porque. Aqui, estamos, a um só tempo, testemunhando e fazendo a história do
futuro.
Esse homem e sua obra consubstanciam uma proposta de síntese do conflito dialético entre a fé e a razão.
É a superação dialética desse conflito atual e que angustia a existência contemporânea. E a superação desse conflito está na ética, sendo que o espaço destas duas linguagens, a fé e a razão, só podem ser o compromisso consensual de manutenção e preservação da
liberdade.
Existe alternativa à lição do Padre Vaz? Não! A única alternativa possível seria a violência, a barbárie e a destruição da
vida.
Nos dias hodiernos - e hodierno atualmente não é o que aconteceu no ano ou no século passado, mas o que se constata instantaneamente através dos telejornais de ontem ou de hoje - temos exemplos tristes dessa alternativa. A violência da intolerância, a barbárie dos atentados terroristas e a destruição de vidas civis inocentes como se voltássemos ao tempo da Lei de Talião, do "olho por olho, dente por dente". Assistimos a uma lamentável banalização dos assassínios, como se viu na Capital Federal naquele holocausto em que transformaram o índio Galdino em uma tocha de fogo humana. E, mais dantesca e patética a explicação dos jovens riquinhos: "não era gente. era índio...
"Nem a razão pode aspirar a destruição da fé (matar Deus para se afirmar); nem a fé pode impor o silêncio da razão, subordiná-la ou eliminá-la. Esta é uma última lição Que extraímos dos ensinamentos do Padre Vaz: o compromisso ético de manutenção da liberdade e do direito é a única possibilidade de sobrevivência do
homem.
O Estado de Minas Gerais se orgulha deste seu filho o padre Henrique Cláudio de Lima Vaz. E esta Casa, quando lhe presta esta homenagem, ao fim e ao cabo, homenageia a si própria, pois, do mesmo modo que agressão a um ser humano ofende a toda a humanidade, a exaltação justa e merecida de um concidadão, lustra e faz brilhar a imagem de cada um dos que neste Parlamento, representam o povo das Minas
Gerais.
Muito
obrigado.
O Sr. Presidente (Deputado Durval Ângelo) - Com a palavra. o Prolf. Vamireh Chacon, Diretor da Universidade de Ciências Políticas de Brasília, que falará em nome do Instituto Santo Inácio.
O Sr. Vamireh Chacon - "Exmo. Sr. Deputado Durval Ângelo, representando o Presidente da Assembléia Legislativa, Deputado Antônio Júlio; Exmo. Sr. Deputado Luiz Tadeu Leite; Prof. Hugo Pereira do Amaral; Conselheiro Murta Lage; Sr. Olavo Romano; Padre João Mac Dowell: sabemos da fundamentalidade dos jesuítas, entre outras, no despertar da formação do Brasil, fundamentalidade reconhecida desde o início do estudo da questão, inclusive por historiadores não-católicos do nível de Capistrano de Abreu. Dentro dela, a posição literalmente central de Minas Gerais. Como se dizia, e vale a pena recuperar, Minas Gerais é Minas nordestina às margens do rio São Francisco, o mais brasileiro dos grandes rios do Brasil, porque em todo seu curso em território nacional, Minas do Centro-Sul do Brasil, Minas do Oeste do Planalto Central.
Não estamos a exagerar superlativos. Autodesestima não é, de nenhum modo, autocrítica. Autocrítica implica reconhecimento do positivo, não só do negativo, mas principalmente quando o positivo é aceito por quase a unanimidade, além das
fronteiras.
Numa nova época de pluralização também religiosa do Brasil, não há porque excluir a autocrítica do negativo e do positivo dessa outra face do Brasil. Que os credos se emulem pacificamente e ecumenicamente confraternizem, cada qual com sua reivindicação e contribuição à formação e ao crescimento do
Brasil.
A intelectualidade católica vem de antes, mas floresce desde os centros de formação humanística, além de seminários, no Caraça e em Mariana. Deles e de outros provieram até Presidentes da República, em exemplar reconciliação entre Estado e Igreja. O mais recente deles, o grande Juscelino Kubitschek de Oliveira. O tempo já começa a permitir que o olhemos assim, por todas suas inovações tão fiéis ao que há de maior e melhor no Brasil por cima das paixões da época, hoje cada vez mais
amainadas.
A Companhia de Jesus tinha de estar presente nas Minas Gerais, o Colégio Loyola em Belo Horizonte, desde 1942, na rede de colégios jesuítas de Teresina a Fortaleza, Recife, Salvador, Juiz de Fora, Nova Friburgo, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, dois em São Paulo, alguns se projetando em
universidades.
A Faculdade de Filosofia Jesuíta, hoje em Belo Horizonte, vinha de 1941, com o Padre Eduardo de Magalhães Lustosa S.J., seu primeiro diretor em Nova Friburgo. Em 1966, transferia-se para São Paulo; em 1975, para o Rio de janeiro; em 1982, para Belo Horizonte. Algo como preparação para o seu desabrochar atual."
É bom que tudo isso conste nos anais da Assembléia como um registro histórico, mais do que
evento.
Em 1982, era transferida para Belo Horizonte a revista Síntese, criada, em 1959, pelo Padre Fernando Bastos de Ávila, no Rio de janeiro. Desde 1973, desenvolve-se intenso e extenso trabalho de cooperação entre as Edições Loyola e a Faculdade de Filosofia e o Instituto Santo Inácio, também com o curso de Teologia, em Belo Horizonte. A coleção "Filosofia", das Edições Loyola, é um marco na própria história do pensamento
brasileiro.
O mineiro de Ouro Preto, Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz, ora comemorando seu octagésimo natalício, vem sendo, desde 1953, a mais representativa expressão filosófica dessa faculdade de filosofia, em Belo Horizonte, agora comemorando o sexagésimo aniversário. A Companhia de Jesus prossegue sua tradição intelectual no Brasil, com cursos de bacharelado e mestrado em Filosofia e Teologia, nos seus colégios de Salvador, da Bahia e de Olinda, desde o século XVI, e do Rio de janeiro, a partir do século XVII. O Pe. Serafim Leite e, depois. Fernando Arruda Campos. realizaram importantes
pesquisas a respeito.
Em 1583, o provincial da Companhia de Jesus no Brasil, Pe. Marçal Beliarte, reivindicava, em Roma e Lisboa, o reconhecimento do Colégio da Bahia como Universidade, pedido recusado por parecer de Coimbra, "pelo prejuízo que resultava a esta Universidade". As seguintes tentativas continuaram inúteis.
A fórmula de conciliação terminou sendo a concessão de todas as prerrogativas ao Colégio da Bahia, "com o direito régio de conferir graus acadêmicos, só não logrando receber de universidade o título". Na realidade, continuava o respeito ao colégio medieval, ainda hoje constituindo a subdivisão básica das universidades anglófonas, como se vê em Oxford ou Cambridge, na Inglaterra, nos Estados Unidos, o cerne de Harvard e Columbia prossegue seus "colleges". Em
Paris, o Colégio da França, Collége de France, significa até uma supra-universidade. A perda dessa tradição medieval em outras culturas, embora ainda intacta nas universidades anglófonas, resulta em dificuldade em entendê-la.
O principal colégio jesuíta em Portugal, no sentido de "college" medieval, foi o Colégio das Artes, integrado à anterior Universidade de Coimbra; universidade propriamente jesuítica na Península Ibérica, foi, esta sim, a Universidade de Évora, fechada, após 200 anos de funcionamento, pelo Marquês de Pombal, quando da proibição da Companhia de Jesus, no século XVIII. A Universidade de Évora foi reinstituída 100 anos depois, em fins do século XX, como universidade laica, pública,
estatal.
As Minas Gerais do Caraça e de Mariana são as raízes das faculdades e universidades mineiras, para elas convergindo a Faculdade de Filosofia Jesuíta, cujos 60 anos de fundação ora comemoramos. Faculdade aqui descendente do Colégio Loyola, por sua vez remontando aos colégios portugueses coloniais, também no Brasil, prolongamentos do renascimento ibérico, em Salvador, em Olinda e no Rio de
Janeiro.
Não estamos aqui por acaso, temos de ser dignos de quem preparou nossa vinda. Não só à cultura católica e sim a toda a cultura brasileira, cada vez mais pacificamente pluralista, ecumênica, universal, sem perder no principal a intrínseca brasilidade das raízes, que nos evita as odes ideológicas e teológicas que ainda hoje continuam vitimando o mundo. Basta ler os jornais e ver televisão para sabermos disso. Foi Alceu Amoroso Lima, que também se assinava Tristão de Athayde, quem muito bem tentou explicar, em conferências em Minas Gerais, o espírito mineiro, tendo estas sido publicadas em 1945 no seu livro "Voz de Minas", início de um projeto seu de várias vozes do Brasil, o qual não chegou a
concluir.
Não se trata de mitos, nesse caso menos ou mais folclóricos, sequer a chamada identidade regional, parte da nacional, que são histórias e não essências e valem mais pelo que escondem do que pelo que revelam, como a propósito do México escreveu Octavio Paz, em "O Labirinto da Solidão". Minas retomou e desenvolveu o tema: "Minas e basicamente a "Montanha". As montanhas do mundo inteiro tendem a gerar sem determinismo culturas pacientes pelo aprendizado do isolamento, enquanto as culturas às margens dos rios e, sobretudo dos mares, encontram, embora nem sempre utilizem, maior acesso ao mundo. Nunca é pouco dar um certo desconto às generalizações.
Mesmo assim o isolamento montanhês propicia muito mais a introspecção, sem as interrupções inevitáveis, nas praias de rios e mares, por transeuntes muito mais freqüentes. Daí o Que Alceu denomina o essencialismo da cultura montanhesa mineira, seu gosto pela reflexão, seu sorriso mais que riso. "A terra se levanta em grandes serranias que separam toda a região do resto do País. Sobe-se a Minas. O mineiro desce ao litoral e aos outros
Estados".
Já Elisée Reclus, geógrafo mestre de geógrafos de inúmeros países, descrevia Minas em 1893 como o "verdadeiro centro do Brasil". Antes desse francês, o viajante inglês Richard F. Burton, em 1869, falava do altiplano do Brasil, com seu epicentro mineiro e sua civilização característica, própria, inconfundível.
Por tudo isso, e muito mais, em nenhum outro lugar, hoje, melhor situáveis a Faculdade de Filosofia e o Curso de Teologia da Companhia de Jesus no Brasil, que em Belo Horizonte. Herdeiros do legado intelectual e moral ibérico e brasileiro dos conimbricenses, de Pedro da Fonseca, Francisco Suarez, Juan de Mariana, Luís Molina, Antônio Vieira, começando por ensinar Filosofia no Colégio de Olinda, continuados por Leonel França, Fernando Bastos de Ávila e Henrique Cláudio de Lima Vaz, entre outros, que trouxeram para Belo Horizonte um tesouro o qual não cessam de enriquecer, ao longo do seu caminho de 60 anos por Nova Friburgo, São Paulo e Rio de Janeiro. Já têm muita história a contar. Que sejam lidos e relidos os artigos-ensaios da revista "Síntese" para mapeamento do seu itinerário, importantes capítulos da História das Idéias no
Brasil.
Exatamente nessa cidade, nessa faculdade, ora comemoramos o 80º natalício do Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz.
Na Faculdade de Filosofia jesuíta, de Nova Friburgo a São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, desenvolvem-se a vida e atuação do Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz, de 1953 aos nossos
dias.
Não vamos falar aqui da sua obra, e sim da sua pessoa. Sua vasta e profunda obra continuará a ser lida e debatida, pois faz parte de um dos momentos mais altos da cultura filosófica brasileira, ao lado de outros do seu e nosso tempo, mas sua pessoa sóbria, discreta, com as qualidades do essencialismo mineiro, tão destacadas pelo estudo pioneiro de Alceu Amoroso Lima, é que está aqui para ser comemorada, apesar de toda sua modéstia, no seu 80º aniversário. A personalidade do sacerdote, do mestre e amigo de mais de uma geração, a personalidade do mineiro e brasileiro não por acaso nasceu entre as montanhas de Ouro Preto, tão mineiramente
brasileiras.
A vocação religiosa ele teve muito cedo. Em 1945, já se bacharelava e, no ano seguinte, concluía o licenciado equivalente a mestrado, na Faculdade de Filosofia, onde em breve viria a ensinar, cujos 60 anos de fundação ora comemoramos. Daí o caminho era Roma, a Universidade Gregoriana, o bacharelado e a licenciatura-mestrado em Teologia, defesa de tese de filosofia intitulada "Da Contemplação e Dialética nos Diálogos de Platão", em 1953, ano do seu retorno ao Brasil e à Faculdade de Filosofia, onde até hoje prossegue. Início de longo e fecundo magistério.
Na formação do Pe. Vaz, destaca-se, desde o começo, a preocupação pela diversificação de perspectivas, sem perder de vista o eixo central humanista e cristão. É o que se vê entre os seus cursos de aperfeiçoamento, paralelos aos regulares, na Universidade Gregoriana, sobre Plotino, Kant e o neopositivismo. O mesmo acontecerá, como projeção, nos cursos do jovem professor acerca da Filosofia da Natureza, Antropologia Filosófica, Filosofia da Cultura e História da Filosofia na Faculdade de Filosofia Jesuíta e na da UFMG, entremeados por outros tantos em 1962, na PUC do Rio de
Janeiro.
Destaquemos o impacto de suas idéias em muitos de nós. desde aquele, hoje distante, ano de 1967, vésperas de intensificação de uma das mais árduas e difíceis fases da história política do Brasil. Podemos e devemos ora abordá-la, ao ensejo do aniversário de um dos seus personagens, e, no local adequado, a Assembléia Legislativa Estadual, Casa das liberdades mineiras, herdeira dos Inconfidentes.
Em 1967, às vésperas do fatídico 1968, surgia o livro "Ontologia e História", há pouco com reedição, de autoria do Pe. Vaz e que marcou mais de uma geração na direção do cristianismo mais participativo e mais corajoso, hoje assumido por movimentos cada vez mais numerosos em toda a América Latina e, naquele tempo, por pioneiros generosos e ousados. O tempo veio a dar razão a várias das suas posições.
"Cultura e Universidade", outro livro seu daquele ano-marco, insere a preocupação no devido lugar, a universidade, seu berço e centro, embora com propósito mais amplo. Mesmo sem querer incursionar na vasta obra do Pe. Vaz, fique registrada sua seqüência intitulada
"Antropologia Filosófica", degraus diligentemente construídos da sua cosmovisão humanística, por mais rigorosa e metodológica que seja a elaboração. Paralelamente vêm sendo reunidos seus ensaios nos "Escritos Filosóficos".
Já nos alongamos muito nesse discurso, embora não demasiado no estudo da vida e do pensamento do padre e jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz, porque ainda muito falta para
dizer.
Detemo-nos, também, em respeito à sua modéstia, relembrando o duplo aniversário, mais que simbólico: os 80 anos do Pe. Vaz e os 60 da Faculdade de Filosofia de Belo Horizonte. Há décadas, um e outra irradiam idéias e testemunhos. Estamos todos, portanto, de parabéns. Muito
obrigado."
O Sr. Presidente (Deputado Durval Ângelo) - Com a palavra. o Pe. João Mac Dowell, Reitor do Instituto Santo Inácio da Companhia de
Jesus.
O Pe. João Mac Dowell
- Exmo. Sr. Deputado Durval Ângelo, representando o Presidente da Assembléia Legislativa, Deputado Antônio Júlio; prezado Prof. Hugo Pereira do Amaral, representando o nosso mestre homenageado, Pe. Henrique Cláudio Lima Vaz; Exmo. Sr. Conselheiro Murta Lages, representante do Tribunal de Contas do Estado; Exmo. Sr. Olavo Romano, representando o Secretário da Cultura, Ângelo Oswaldo; prezado Prof. Vamireh Chacon, cujo entusiasmo pela Companhia de Jesus, demonstrado há pouco, ultrapassa de certa maneira as expressões dos sentimentos dos próprios jesuítas; Exmo. Sr. Deputado Luiz Tadeu Leite, autor do requerimento que deu origem a esta homenagem; senhoras e
senhores:
"Designado pelos meus pares para agradecer a homenagem especial que a Assembléia Legislativa do Estado de Mimas Gerais presta à Faculdade de Filosofia do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, conhecida também como Instituto Santo Inácio, juntamente com o seu mais eminente professor, julgo que a maneira mais justa de desincumbir-se desta honrosa tarefa consiste em endereçar este voto de reconhecimento e louvor a seu verdadeiro alvo. O gesto magnânimo do nobre Deputado Luiz Tadeu Leite, em requerimento atendido em nome dos representantes do povo mineiro pelo digno Presidente desta Casa, Deputado Antônio Júlio, só pode visar aos benefícios que a seu juízo, a Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus presta à sociedade do Brasil e deste
Estado.
Porém, será que uma faculdade de filosofia tem algo a oferecer a este mundo, que vive às voltas com os imensos problemas do desenvolvimento econômico, da distribuição eqüitativa das oportunidades e dos recursos gerados pelo trabalho e da segurança dos cidadãos ameaçada pela crescente violência? Na verdade, não é costume recorrer ao filósofo quando se trata de aumentar a produção, de proteger o meio ambiente, de tornar mais eficientes os serviços públicos ou de promover a paz social. Para tanto, apela-se, de preferência, para especialistas nos diversos campos da ciência e da técnica, desde a engenharia e a medicina até as ciências sociais, o direito e a comunicação.
No entanto, esta Casa distingue, com seu preito de apreço e consideração, a Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus. Essa escolha funda-se, sem dúvida, na convicção de que a sociedade não será capaz de realizar o objetivo de tutelar os direitos dos cidadãos e oferecer-lhes condições de viver dignamente senão à base de valores morais que correspondam a uma visão autêntica da realidade humana. Todos somos conscientes da profunda crise por que atravessa o mundo atual, contaminando de alto a baixo, os diversos estratos da
sociedade.
Não é o caso de apontar aqui as raíz
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es desse descalabro, já' postas a descoberto pelos mais lúcidos analistas
da modernidade ocidental, nem tampouco de identificar os sintonias
terrificantes de um mal que está à vista de todos. Mais ainda: que penetra em nossas vidas e nos contagia. O certo é, porém, que não cabe aos responsáveis pelo bem comum - aos senhores, certamente, como legisladores, mas também a todos nós, membros da família humana e da comunidade nacional - missão mais elevada nem tarefa mais premente do que a promoção de uma ordem social fundada na justiça, na honestidade e na
solidariedade.
Ora, é justamente o pensar filosófico que permite discernir, a luz da reflexão sobre o sentido da existência humana, os verdadeiros valores dos falsos ou apenas aparentes. aqueles que têm consistência dos superficiais e provisórios, os que constroem a vida pessoal e comunitária dos que são fermento de destruição e morte. É verdade que a filosofia não gera propriamente os valores. Surgem da experiência universal da natureza humana, modelada, porém, segundo as diversas tradições culturais. Consubstanciam-se em mundivisões, explícitas ou implícitas, muitas vezes de origem religiosa.
É precisamente numa dessas tradições religiosas, certamente a mais significativa para a nação brasileira, na fé cristã e católica, que se fundamenta a Companhia de Jesus, responsável pela instituição acadêmica que represento nesta solenidade. Na sua história de quase cinco séculos como ordem religiosa da Igreja Católica, apresenta uma folha corrida de importantes serviços na divulgação e na defesa dos valores evangélicos, expressão suprema do que o ser humano é chamado a ser. A própria história do Brasil, desde as suas origens, está intimamente entrelaçada com a ação missionária dos jesuítas. Primeiros evangelizadores dos indígenas, catequistas dos colonos portugueses e, mais tarde, dos escravos africanos, lançaram na alma do povo brasileiro as sementes da tolerância, da justiça, da fraternidade, da fé, enfim, e do espírito cristão, donde resultaram os traços mais nobres e atraentes do caráter nacional. Com efeito, a despeito dos conflitos, opressões, discriminações, próprios do sistema de dominação e exploração colonial, que infelizmente ainda se reproduz em nossos tempos sob a égide do individualismo materialista e da globalização neoliberal, a nossa nacionalidade se edificou sobre a base de um conjunto de valores de inspiração cristã, que constituem o núcleo de nossa cultura, o amálgama de uma sociedade, por tantos títulos extremamente plural e diversificada, e a esperança de um futuro
melhor.
Futuro que se acha ameaçado pela crise de valores a que aludimos. È por isso que a Companhia de Jesus se coloca hoje na primeira linha, ao lado de todos os que lutam sinceramente pela reconstrução do "ethos" nacional. Trata-se da tarefa ingente de imbuir a vida pública e privada, em todos os seus âmbitos, de uma constelação de valores expressiva da dignidade da pessoa e de seu sentido transcendente.
É com a riqueza da tradição espiritual cristã, condizente com as mais lídimas aspirações do coração humano, que os discípulos de Inácio de Loyola pretendem contribuir para a elaboração dessa nova cultura. Entretanto, num mundo marcado pelo pluralismo de interesses e de visões da realidade, a convergência em torno de um projeto de sociedade supõe o convencimento das inteligências, através da argumentação racional. A adesão consensual a tal proposta não será alcançada apenas com a afirmação testemunhal de sua verdade. Seria, por outro lado, totalmente lesivo à dignidade do ser humano impor-lhe uma plataforma comum de idéias e comportamentos através da força bruta, como já foi tentado, ou mesmo pela manipulação mediática das consciências, processo, como podemos constatar, já em curso em nossa
sociedade.
Para contrastá-lo, resgatando o privilégio da criatura humana de pensar por si mesma e decidir-se livremente, não se oferece meio mais eficaz do que a promoção da atitude filosófica. Trata-se de desenvolver um pensamento verdadeiramente pessoal, saudavelmente crítico, sobre a existência e os valores, que lhe dão sentido, pensamento capaz de orientar as decisões e atitudes de cada um e plasmar o projeto histórico dos grupos sociais. A tecnociência dotou-nos de poderes inimagináveis sobre a natureza, a vida e a própria dinâmica social. Ela fornece hoje instrumentos fabulosos para a transformação de toda essa realidade, segundo nossos desejos ou caprichos. Não nos habilita, contudo, a discernir que usos de tais poderes contribuem efetivamente para o bem da humanidade, para a felicidade dos habitantes deste mundo. É próprio da filosofia refletir sobre aquilo que constitui a felicidade do ser humano, em que consiste a sua verdadeira realização. As religiões, como sabemos, também respondem a essas perguntas. Fazem-no, todavia, em nome de uma revelação divina, aceita pela fé. Compete, por isso, à razão filosófica procurar estabelecer, através da reflexão e do diálogo, o consenso dos adeptos das diversas tradições culturais e religiosas a respeito dos direitos e deveres inerentes à própria condição humana. Só assim será possível fundar a convivência social sobre a base sólida de um "ethos" aberto para os valores que realizam o ser humano em
plenitude.
Tal é também a missão da Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus. Em diálogo com o pensamento contemporâneo, ela pretende justificar racionalmente o autêntico teor humanístico dos valores evangélicos e inseri-los no âmago da cultura em gestação. Para tanto, conta com o respaldo da multissecular tradição católica e, especificamente, jesuítica de harmonização entre razão e fé, natureza e graça, ação divina e colaboração humana. Trata- se, com efeito, de valorizar e desenvolver todas as qualidades naturais e humanas, para que, transfiguradas pela fé e pelo amor, sejam postas a serviço da justiça e da paz. Tal tem sido e é ainda hoje o cerne do projeto pedagógico das escolas da Companhia de Jesus. Disseminadas pelo mundo inteiro, presentes no Brasil em todas as regiões e em todos os níveis de ensino, orientadas para diferentes classes sociais com projetos específicos de atendimento às populações carentes e marginalizadas, elas visam à educação integral da personalidade em sintonia com os valores superiores, através do desenvolvimento intelectual, científico e cultural, do cultivo dos dotes artísticos e das habilidades técnicas, mas também da promoção dos sentimentos autenticamente humanos, da formação do caráter, do despertar do compromisso social e da consciência cidadã, da sensibilidade para o mistério da existência na abertura para a transcendência divina.
À luz desse projeto pedagógico, a Faculdade de Filosofia do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte, neste Estado acolhedor de Minas Gerais, procura dar a sua contribuição específica no plano da elaboração das idéias e da formação das mentalidades à criação e ao desenvolvimento de uma nova cultura de comunhão e solidariedade. De dimensões modestas, contando com apenas cerca de 100 estudantes regulares no seu único curso, aliado, é verdade, ao curso de Teologia do mesmo Centro de Estudos Superiores, a faculdade aposta na qualidade do corpo docente, no acompanhamento personalizado dos estudantes, no clima comunitário, no ambiente tranqüilo e agradável do seu "campus", nos instrumentos de trabalho oferecidos a professores e alunos, em particular a biblioteca, uma das mais completas do País, em obras e revistas especializadas no campo da
filosofia.
Não se confinando ao terreno da teoria, a proposta educativa da instituição inclui a transmissão dos valores descobertos e o exercício das atitudes propostas através do voluntariado social, que se espraia em atividades de extensão universitária e serviço promocional junto a adolescentes e jovens, bem como aos setores mais carentes da sociedade: a mulher marginalizada, os sem-teto, os encarcerados e os aidéticos. Mas a faculdade é antes de tudo um laboratório de idéias, um centro de reflexão sobre a realidade social e cultural, que irradia o produto de sua investigação muito além das salas de aula, através de conferências e congressos filosóficos, da publicação de obras científicas e da prestigiosa revista Síntese.
Eis como pretende cumprir a missão Que lhe incumbe como instituição universitária da Companhia de Jesus. Eis como procura fazer jus à homenagem que lhe é tributada generosamente pelos representantes do povo mineiro. Estas palavras de agradecimento implicam também o compromisso de corresponder às expectativas em nós depositadas. Oxalá a faculdade se torne cada vez mais uma escola de pensar, seus professores e alunos possam enriquecer a sociedade e a cultura nacionais com a penetração de suas analises e a lucidez de suas propostas e contribua, assim, para que o futuro do Brasil se construa sobre a base de valores genuinamente humanos e cristãos."
O Sr. Presidente (Deputado Durval Ângelo)
- Com a palavra. o Prof. Hugo Pereira do Amara), que representa o Pe. Henrique Cláudio Lima Vaz, impossibilitado de comparecer por motivo de saúde.
O Sr Hugo Pereira do Amaral - Exmo. Sr. Deputado Durval Ângelo, Conselheiro Murta Lages, Sr. Olavo Romano, Pe. João
Mac Dowell, Prof. Valmirer Chacon, Prof. Aluísio Pimenta, Prof. José Henrique Santos, Deputado Luiz Tadeu Leite:
"Desejo inicialmente, congratular-me com o Deputado Luiz Tadeu Leite, que tomou a iniciativa desta merecida homenagem que a nobre Assembléia Legislativa de Minas Gerais presta ao admirável pensador e educador Henrique Cláudio de Lima Vaz. O Pe. Vaz, infelizmente, por motivo de saúde, não pôde comparecer a esta sessão solene. Tenho, pois, a honra de representar um dos mais eminentes filósofos de nosso tempo e de ler suas palavras de agradecimento a todos que aqui compareceram.
"Sr.
Presidente, Srs. Deputados: ao agradecer muito sinceramente a menção do meu nome na homenagem que esta egrégia Assembléia presta à Faculdade de Filosofia do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, permito-me interpretá-la como reconhecimento e louvor à longa sucessão de mestres que ilustraram nossa faculdade nas seis décadas da sua existência.
O nome do professor mais antigo e que foi igualmente um dos primeiros alunos da faculdade é, nesta oportunidade, apenas um símbolo a evocar tantos outros nomes que enriquecem nossos anais. No entanto, para lembrar alguns desses nomes, é necessário observar que os 60 anos que estamos comemorando referem-se apenas à história da nossa instituição na sua existência de faculdade reconhecida, primeiramente, pela Congregação de Estudos e Seminários da Santa Sé, em 1941, e, em seguida, pelo Ministério da Educação, em 1955 e em
1996.
Na verdade, porém, herdamos quase 80 anos de labor docente, de investigação e publicações, desde que o Curso de Filosofia, semente da nossa Faculdade, instalou-se no Colégio Anchieta de Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro, em 1923. Desde então, é com orgulho que enumeramos, entre os nossos grandes mestres, o fundador, Pe. José Manuel de Madureira, metafísico brilhante e historiador; o Pe. Leonel Franca, pensador e escritor dos mais notáveis da sua época; o Pe. Eduardo Magalhães Lustosa, de origem mineira, primeiro diretor da faculdade oficializada, jurista eminente, fundador da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pioneiro entre nós dos estudos sobre a noção de justiça social; o Pe. Francisco Xavier Roser, físico nuclear, representante do Brasil na conferência sobre energia atômica de Viena (1946), e tantos outros que já nos deixaram, mas cujos nomes permanecem na memória viva da nossa
Faculdade.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: aqui me encontro apenas como pequeno elo numa brilhante cadeia de mestres. Orgulho-me de representar uma tradição que, neste momento, é lembrada e homenageada. Em meu nome e em nome daqueles que represento, reitero a expressão do mais sincero agradecimento a todos os que tiveram a generosa iniciativa desta
homenagem".
O Sr. Presidente (Deputado Durval Ângelo)
- A Presidência convida os presentes a ouvirem o cravista Antônio Carlos de Magalhães, servidor desta Casa, que apresentará três músicas: "La Superbe or La Forqueray", de François Couperin; Prelúdio nº1 e Jesus Alegria dos Homens, de Johann Sebastian
Bach.
O Sr. Presidente (Deputado Durval Ângelo) - A Presidência tem a honra de entregar ao Prof. Hugo Pereira do Amaral, representante do Padre Vaz, placa alusiva a esta homenagem, com os seguintes dizeres: "Ao Padre Jesuíta Henrique Cláudio Lima Vaz, exemplo de dignidade, trabalho e sabedoria, a homenagem do Poder Legislativo Estadual por uma vida inteiramente dedicada à educação. Belo Horizonte, 8 de novembro de 2001. Deputado Antônio Júlio, Presidente. Assembléia Legislativa do Estado de Minas
Gerais."
A Presidência tem a honra de entregar ao Padre João Mac Dowell, Reitor do Instituto Santo Inácio placa alusiva a esta homenagem, com os seguintes dizeres: "Ao Instituto Santo lnácio, da Companhia de Jesus, que, há 60 anos, vem transmitindo aos seus alunos a tradição dos Jesuítas nos campos do pensamento, da ciência e da educação, a homenagem do Poder Legislativo Estadual. Belo Horizonte, 8 de novembro de 2001. Deputado Antônio Júlio. Presidente. Assembléia Legislativa do Estado de Minas
Gerais."
A Presidência agradece a honrosa presença das autoridades e dos demais convidados.
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Publicação do Gabinete do deputado Luiz Tadeu Leite,
novembro de 2001.
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