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Ele
tinha muitas críticas, sérias e profundas à Teologia da Libertação,
de cujo grupo fazia e faço parte. Ele me respeitava muito, mas a
sua honestidade intelectual interpelava, e sempre com justeza, os
fundamentos do meu pensar.
Fale
de sua amizade com o padre Henrique de Lima Vaz, que faleceu
recentemente:
Como
você havia feito essa pergunta especial sobre o padre Vaz não o
mencionei na pergunta anterior. O padre Vaz é o pensador que mais
cito em meus escritos. Falar dele seria interminável. Na década
de 50, foi o mestre jovem. Inteligente, extremamente atualizado,
me seduziu imediatamente. Dentro das estruturas rígidas de então,
ele logo tomou-se, pela abertura de suas idéias, suspeito diante
de inteligências extremamente conservadoras que ocupavam cargos
de formação na Igreja e Companhia. Mas, ao mesmo tempo,
causava-nos uma atração irresistível. Tenho até hoje uma
cadernetinha de 1953, na qual anotei os livros que ele me
aconselhava a ler. Entramos os dois na biblioteca dos professores,
onde estavam os melhores livros, mas a que não tínhamos acesso.
Ele percorreu comigo as estantes e ia, como mestre, apontando para
seu discípulo os livros importantes com rápido comentário e eu
com a avidez jovem os anotava sagradamente. Já tinha um roteiro
para a vida de estudo. Depois de minha volta da Europa, em 1969,
morei sempre na mesma comunidade dele, exceto alguns poucos anos
no Rio de Janeiro. A amizade que nos uniu toda a vida não tirou
momentos de tensão no campo da discussão das idéias. Ele tinha
muitas críticas, sérias e profundas à Teologia da Libertação,
de cujo grupo fazia e faço parte. Ele me respeitava muito, mas a
sua honestidade intelectual interpelava, e sempre com justeza, os
fundamentos do meu pensar. Esse convívio foi extremamente
importante para meu desenvolvimento intelectual. O mundo das idéias
enchia nossas conversas. Longas e múltiplas. Sempre o considerei
meu mestre maior no campo da inteligência e amigo-irmão
extremamente querido. Nunca lhe escondi minha enorme admiração.
Ele ficava bravo comigo porque lhe dizia, na sinceridade e
espontaneidade, elogios que ninguém tinha coragem de dirigir-lhe.
Na sua modéstia me achava exagerado. Mas era a pura verdade.
Nunca em minha vida, em país nenhum, encontrei uma inteligência
mais completa que a dele, desde a profundidade até a singeleza e
clareza na exposição.
Por
que a opção pela Teologia da Libertação?
Opção
pela Teologia da Libertação foi um desabrochar de toda uma vida.
Sempre tive uma atitude crítica. Não o era mais por ignorância.
Nos primeiros contatos com o padre Vaz aprendi a ter abertura crítica
diante da realidade social e eclesial. Estava na Europa quando do
golpe militar. A distância formei-me logo uma postura critica
fundamental diante da situação sócio-política. Nunca tive a
ilusão de que "Deus salvara o Brasil do comunismo" nem
que o maior perigo da América Latina era a infiltração
comunista. Chegando ao Brasil, pertenci a um grupo de reflexão
teológica que meu primo, frei Betto, e os outros dominicanos
tinham arquitetado na prisão e implementaram depois de sua saída.
Nele estavam, além dos dominicanos recém-saídos da prisão,
frei Leonardo, frei Mesters, Pedro R. de Oliveira, Luiz Alberto,
Jether Pereira, J. O. Beozzo e tantos outros. Juntos construímos
um pensar teológico na linha da libertação. Evidentemente também
nos nutrimos dos teólogos que já estavam na arena com suas teses
da libertação: Gutiérrez, Assmann, Comblin e outros. Enfim, é
uma opção que se foi construindo, aprofundando e ampliando
horizontes.
*Trecho de
entrevista concedida ao Jornal de Opinião de 01 a 07/07/2002 |