Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Mestre do diálogo*
João Paulo e Moacyr Laterza

 

 

Considerado um dos maiores pensadores brasileiros do século XX, morreu anteontem, em Belo Horizonte, o professor e padre Henrique de Lima Vaz

 Morreu anteontem em Belo Horizonte, aos 81 anos, o filósofo Henrique Cláudio de Lima Vaz. Nascido em Ouro Preto, Padre Vaz foi autor de importante obra filosófica, na qual se destacam seus Escritos de Filosofia, em seis volumes. Doutor em filosofia pela Universidade Gregoriana, de Roma, Henrique Vaz foi professor em várias universidades brasileiras, tendo se aposentado pela UFMG. Nos últimos anos, lecionava no Instituto Santo Inácio, no bairro Planalto, em Belo Horizonte. Padre Vaz teve ainda importante atuação na coordenação da revista Síntese, para a qual contribuiu com dezenas de artigos filosóficos de altíssimo nível. Professor de várias gerações, Padre Vaz se notabilizou pela capacidade de aliar altíssimo grau de erudição com uma comunicabilidade exemplar, sobretudo nas lições em sala de aula. Seu magistério foi sempre exigente, mas marcou época entre filósofos de várias filiações. Nos anos 60, Padre Vaz criou uma abertura, dentro do pensamento católico, para o estudo do marxismo e do hegelianismo. A trajetória filosófica do pensador foi do estudo detido dos clássicos, sobretudo Platão, à filosofia contemporânea, sendo ainda destacado leitor de Santo Tomás de Aquino e, sobretudo, de Hegel.

Padre Vaz fez do magistério a realização de sua vocação de homem público. Discretíssimo, fazia das aulas em todos os níveis, da graduação ao doutorado, um momento único de reflexão sobre os problemas e a história da filosofia. Boa parte deste empenho em ordenar o conhecimento ocidental está traduzida em seus livros, ricos no espírito ordenador de uma tradição tão ampla como complexa. Suas obras sobre ética e, sobretudo, sobre antropologia filosófica, são manuais, no melhor sentido da palavra, que não encontram par na bibliografia filosófica internacional. Seu último trabalho, sobre a mística no pensamento ocidental, é uma confirmação da trajetória de um pensador ancorado ao mesmo tempo na tradição e nos desafios de seu tempo.

Universal

De poucos pensadores se pode dizer com certeza que realizaram de forma tão intensa a vocação filosófica. Padre Vaz fez de seu labor uma busca de realização do conceito filosófico, no sentido mais profundo do termo. A realização filosófica estava presente na capacidade de partir de problemas conjunturais, como o deserto ético e místico dos tempos atuais, para irrigar com uma reflexão que caminhava pacientemente pelas sendas do conceito, para realizar a vocação universalizante da filosofia. O arcebispo de Belo Horizonte, Dom Serafim de Araújo, que celebrou a missa de corpo presente do filósofo, na tarde de ontem, disse que Padre Vaz foi um autor brilhante e um sacerdote exemplar. "Estamos recebendo hoje sua última lição, seu silêncio permanece como uma lição de fé. E o momento de agradecer a Deus pelo que ele representou para o Brasil e para o mundo", afirmou.

Um homem de Deus
Moacyr Laterza, Professor de filosofia da UFMG

Seria diminuir a importância de Henrique C. Lima Vaz dizer apenas que morreu o maior filósofo brasileiro. A própria noção de vida presente foi explorada por ele de um modo muito sagaz. Em sua reflexão sobre o tempo e a temporalidade, o mundo e a mundaneidade, ele avançou da metafísica, da antropologia filosófica e da ética para chegar ao absoluto. Seu tempo era um tempo de Deus, um hoje eterno, que preliba reflexos do relativo dentro do absoluto.

Para ele, a filosofia era uma linha autônoma do humano, um espelho da participação na verdade divina. Num momento particularmente difícil da história brasileira, na década de 60, ele teve uma participação exemplar de filósofo. Soube refletir sobre a história sem se perder no materialismo lendo Marx com olhos hegelianos, o que não deixa de ser irônico. Foi uma abertura que causou espanto aos marxistas da época. Padre Vaz sabia que a liberdade do pensamento não tinha prisões no tempo. 

Ele era um homem de uma docilidade imensa, de uma paciência intelectual que fez dele um professor único, sua maior vocação. Seu ensinamento oral foi mais acessível que os escritos. Mas sua paciência não cedia na profundidade. Ele sempre foi um homem do diálogo, um ser dialogal. Sua postura doutoral, que vem da origem da palavra, docere, não se confundia com a empáfia. Era altaneiro, altivo, mas sem soberba. Ele teve a grande liberdade de viver como um autêntico filho de Deus. 

*Artigo publicado no caderno Cultura do Jornal Estado de Minas de 25/05/2002

voltar

Teodoro Magni - maio de 2002