Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

O adeus do filósofo
Júlio Assis
Redator

 

 

Padre Henrique Vaz, morto anteontem, deixa um precioso legado de professor e de um dos maiores comentadores de Hegel no Brasil 

Um dos maiores filósofos brasileiros, o padre jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz, ou padre Vaz, como ficou mais conhecido, faleceu anteontem no hospital Madre Tereza, em Belo Horizonte, em decorrência de complicações de um câncer de próstata. Ele tinha 80 anos e foi sepultado no cemitério Bonfim, depois de ser velado no Instituto Santo Inácio, por onde passaram ontem dezenas de seus ex-alunos, hoje professores universitários, filósofos, sacerdotes ou teólogos.

Natural de Ouro Preto, onde nasceu em 1921, estudou no colégio Arnaldo, em Belo Horizonte, e em 1938 entrou para a Companhia de Jesus. Após completar seus estudos de humanidades clássicas e filosofia no seminário jesuíta de Nova Friburgo (RJ), seguiu para a Universidade Gregoriana, em Roma, onde fez o curso de teologia e doutorou-se em filosofia. De volta ao Brasil, depois de lecionar em Nova Friburgo e no Rio de Janeiro, sempre na congregação Companhia de Jesus, retornou a Belo Horizonte para ensinar no Instituto Santo Inácio e também na UFMG, onde se aposentou no Departamento de Filosofia e recebeu ano passado o título de professor emérito, por ocasião de seus 80 anos, completados em agosto.

Nessa época, também, recebeu diversas homenagens. "Fizemos no Instituto Santo Inácio uma Semana Filosófica para homenageá-lo e vieram eminentes professores universitários de vários Estados, do Ceará ao Rio Grande do Sul, numa prova de reconhecimento à contribuição dele para o mundo filosófico brasileiro. Essas e outras manifestações de apreço ocorridas ano passado, pelos 80 anos, não foram fáceis para o padre Vaz, pois lhe causavam constrangimento, face à sua simplicidade e discrição", recorda o padre João Mac Dowell, atual reitor do instituto. Uma dessas homenagens ocorreu em cerimônia na Assembléia Legislativa de Minas Gerais.

Numa de suas últimas entrevistas, se não a última, concedida em novembro do ano passado a O TEMPO, padre Vaz situava: Minha atividade sempre foi a de professor de filosofia. Paralelamente me dediquei a escrever, publiquei oito livros e uma quantidade razoável de artigos, notas bibliográficas e recensões." Sua contribuição acadêmica está especialmente registrada no volume "Escritos de Filosofia".

Para o reitor e sacerdote João Mac Dowell, a magnitude do padre Vaz está na riqueza de sua reflexão no campo da filosofia, mas sempre à luz da verdade cristã. "Ele marcou, com sua dedicação ao pensamento moderno contemporâneo, um lugar na cultura brasileira, comungando essa distinção com seu constante testemunho de fé."

Uma das especialidades do padre Vaz era a obra do filósofo alemão Wilhem F. Hegel (1770-1831). Marcou sua trajetória também pela atuação como assessor da Juventude Universidade Católica, nos anos 60, época de intensos debates sobre uma maior participação política do cidadão em busca de uma sociedade mais justa.

Mac Dowell conta que foram cerca de 50 anos dedicados ao Instituto Santo Inácio, incluindo aí as atividades em Nova Friburgo e no Rio de Janeiro, formando gerações de alunos de filosofia e teologia. "Este ano iniciou um curso de ética, mas os problemas de saúde o obrigaram a interromper", conta o reitor.

Na mesma entrevista de novembro passado, padre Vaz emitiu seu conceito sobre a função da filosofia. "Desde a antiguidade, a filosofia serviu tanto como instrumento de consolação como de desvendamento do mundo, pois a reflexão filosófica se apresenta também como ciência, como um saber especial na enciclopédia dos saberes humanos. Mas desde o princípio ela também se apresentou como uma regra de vida, no sentido em que define a ética, uma das disciplinas filosóficas."

Trazendo essa conceituação para os dias de hoje, padre Vaz afirmou: "O desafio mais dramático do mundo globalizado é o encontro de civilizações. Temos que encontrar uma forma de convivência entre os povos, que só será possível com a aceitação dos valores éticos de cada um. Essa constitui a maior preocupação dos filósofos contemporâneos".

Repercução

"Foi exemplo de dedicação, disciplina e busca constante do conhecimento. A obra dele se caracteriza por grande erudição, clareza de raciocínio e originalidade marcante. Tinha a capacidade de tornar acessíveis, problemas difíceis da filosofia. Ao assistir a uma aula dele, a gente saía iluminado." Paulo Roberto Margurti, Filósofo, professor da UFMG

"Um mestre para a grande maioria de seus alunos, deixa uma irradiação poderosa no mundo filosófico brasileiro. Temos uma dívida imensa pelo que fez como promotor do Instituto Santo Inácio. Gomo pessoa, fica a imagem de afabilidade com que tratava a todos." Padre João Mac Dowell, Reitor do Instituto Santo Inácio

"A obra do padre Vaz ó única no cenário filosófico brasileiro, pela amplitude, agudeza, crítica, profundidade reflexiva e por todas essas qualidades não se esgotará com o tempo, vai dar muitos frutos através de interrogações, hipóteses e novos horizontes de pesquisa." Carlos Drawin, Prof. do Departamento de Filosofia da UFMG e psicanalista

"Foi um figura singular nos meios acadêmicos brasileiros, não apenas um repetidor da filosofia, mas um pensador original em sua reflexão na problematização das grandes questões óticas, políticas e religiosas. Luís Aureliano de Andrade, Cientista político

"Foi o maior filósofo cristão dos últimos tempos, mas sua importância vai além, uma vez que trabalhou a fundo filósofos fundamentais como Platão, os do idealismo alemão como Kant e de modo particular, Hegel, sem deixar de considerar o pensamento cristão medieval em são Tomas de Aquino." Rodrigo Duarte, Filósofo

"Considero o padre Vaz o principal filósofo brasileiro das últimas décadas Ele teve uma influencia decisiva na formação de uma geração de profissionais liberais que nos anos 60 militavam na Ação Católica e na Ação Popular." Paulo Haddad, Economista

Artigo publicado no caderno Magazine do jornal O Tempo de 25/05/2002

voltar

Teodoro Magni - maio de 2002