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O jesuíta Henrique de Lima Vaz deixa o cenário histórico e entra
na História do pensamento filosófico. Sua morte, ocorrida em
Belo Horizonte no último dia 23 de maio, aos 81 anos de idade,
fez discípulos, amigos e colegas lembrarem a exuberância de sua
vida e de sua produção científica. JESUÍTAS se une às muitas
manifestações de reconhecimento trazendo os depoimentos do Pe.
Marcelo Aquino e do Prof. Luis Oswaldo Leite, publicados no
boletim On-Line do Instituto Humanítas Unisinos
Arauto
da modernidade
Padre Marcelo, Vice-reitor e
coordenador da PPG de filosofia da Unisinos, viveu na mesma
comunidade jesuíta do Pe. Vaz de 1982 a 1997, em Belo Horizonte.
IHU On-Line - Como o sr. conheceu o Pe.
Vaz?
Marcelo Aquino - Foi em
1974, numa reunião da Comissão de Formação. Mas conhecia os
textos do Pe. Vaz desde 1968, quando li o texto A dialética das
idéias no sofista de Platão.
IHU On-Line - O que lhe impressionava na
sua pessoa?
Marcelo Aquino - Impressionava-me a amplidão dos
seus interesses intelectuais física atômica, poesia, história,
literatura, filosofia, teologia...), a erudição constantemente
referida às fontes, a sua encarnação do Evangelho. Ele defendia
com ardor as suas convicções. Sempre estava um passo à frente
do comum dos mortais. Foi o primeiro a desenhar o diagnóstico da
crise da modernidade. Nos inícios da década de 80, ele já
falava em crise do marxismo, o que lhe causou todo tipo de rejeições.
Outra faceta era sua impaciência e ironia que chegavam a causar
estranhamentos.
IHU
On-Line - Como filósofo Pe. Vaz deixou imensa obra. O que mais
lhe chamava atenção?
Marcelo
Aquino - Até
o início dos anos oitenta, ele foi um arauto da modernidade.
Progressivamente tornou-se quase uma espécie de Plotino, o último
grande filósofo de uma geração. Como jesuíta é um dos últimos
de grande valor intelectual. Foi um excelente conselheiro. No
campo político, ele era um democrata e introduzindo valores
democráticos na concepção católica de política. No plano
cultural ele se perguntava: será que a cultura humana vai se
metamorfosear na cultura do niilismo? Seremos uma civilização do
niilismo? No plano de uma antropologia filosófica, ele tentava
compreender o ser humano como expressão, como animal simbólico.
Simpatizava com Charles Taylor. Na ética, ele procurava enlaçar
a questão da liberdade no coração da necessidade do dever ser.
IHU
On-Line - E no último livro Raízes da Modernidade?
Marcelo
Aquino -
Neste livro Pe. Vaz faz uma exposição genética da modernidade.
A gênese (da modernidade estaria no século XIII. O que considero
exemplar, é que o livro foi finalizado em 2002, ano de sua morte,
e a bibliografia até 2001 está mapeada.
IHU
On-Line - Como o pensamento do filósofo tem sido recebido?
Marcelo
Aquino -
Ele é o único pensador brasileiro cujo pensamento já foi tema
de tese no exterior (Itália). Não tenho dúvida que se seu
pensamento tivesse sido produzido na França, seria um dos grandes
pensadores estudados hoje. No Brasil ele era uma referência e
alguém presente na filosofia brasileira. Lembro de uma ocasião
em 1986, quando na Associação Nacional de Pós-graduação em
Filosofia (ANFOP), tratava-se de homenagear o filósofo e obra do
ano. Pe. Vaz era o único nome de consenso.
IHU
On-Line - Os grandes autores que o Pe. Vaz estudava eram Platão,
Aristóteles, Tomás de Aquino e Hegel. Algum motivo especial por
essa opção?
Marcelo
Aquino -
Eles são clássicos. Pe. Vaz gostava de dizer que
eles eram os clássicos inaugurais. Nesse sentido, algo que
impressiona, quando ele tinha já 80 anos, encontrei-o lendo Siger
Brabant, para entender a crise da modernidade. Ele ia às origens.
IHU
On-Line - Poderíamos dizer que a grande preocupação do Pe. Vaz
foi um projeto de metafísica?
Marcelo
Aquino - Diria que
seu projeto era formado por um tripé: metafísica, filosofia
antropológica e ética. Procurou explicitar o pensamento do
absoluto, como o fundamento do nosso mundo. Pensar o problema da
história, como pensar a historicidade do absoluto.
Um estudioso do
pensamento brasileiro
Luiz
Osvaldo Leite, 69, professor da UFRGS há 30 anos e
pesquisador do pensamento filosófico do RS, foi o fundador do
Instituto de Psicologia dessa Universidade e seu primeiro diretor.
É conselheiro da Faurgs e Coordenador do Comitê Central de Ética
da UFRGS. Os subtítulos São nossos. Leite relata:
No
momento em que as homenagens ao Padre Henrique de Lima Vaz, S.J.
registram variados aspectos dos seus interesses e preocupações
intelectuais, quero destacar um que ainda não vi referido: a
pesquisa pelo pensamento brasileiro, que marcou meu relacionamento
com ele e sinalizou definitivamente minhas mudanças filosóficas.
Pe.
Vaz publicara, em 1961, na revista Portuguesa de Filosofia, O
Pensamento Filosófico do Brasil de hoje, texto que foi incluído,
1964, como suplemento nas Noções de História da filosofia
do pe. Leonel Franca, S.J. (RJ: Agir, 1964, 17º edição,
343-75). Em artigo intitulado "O problema da filosofia no
Brasil" (Síntese 30 (1986) 11-25), voltou a tratar do
mesmo tema.
Na
advertência preliminar de Ontologia e História (SP:Duas
cidades, 1986, 9-10), escreve "o presente volume reúne
artigos publicados em diversas Revistas. Ao aceitarmos reuni-los
em livros cedemos à argumentação de dois amigos caros, Luis
Washington e Raul Ferreira Landin Filho, argumentação que
mostrava a necessidade, dentro da penúria da literatura filosófica
brasileira, de se obedecer fielmente à injunção evangélica:colligite
grammenta, ne pereant (Jo 6, 12). São fragmentos esses que aqui
apresentamos. Seu interesse é, sobretudo, documentário, no que
se refere a uma fase da história da Filosofia no Brasil, essa
importante década de 50, inaugurada com o Primeiro Congresso
Brasileiro de Filosofia (SP, março 1950).
Com
efeito, as dificuldades com que lutam os historiadores do
Pensamento Filosófico Brasileiro para reunir uma documentação
rara e dispersa, são bem conhecidas. Nelas pode dar testemunho
esse estudioso incansável que é Luis Washington. Nossa intenção
primeira foi, portanto, facilitar O acesso a textos desvaliosos em
si mesmos, mas que foram parte, de qualquer maneira, do material
que o historiador um dia deverá examinar. Foi também no intuito
de facilitar a visão do historiador que os artigos foram
dispostos em ordem cronológica".
A
mesma razão presidiu a publicação dos Escritos de Filosofia
I, II e III, em 1986, 1988 e 1997 (SP: Loyola). Sua acuidade e
correção na análise de pensadores brasileiros ressalta em dois
textos: em Leonel Franca e o Mundo Moderno: uma filosofia cristã
da cultura, apresentação "A crise do Mundo
Moderno" (Edipucrs: 1999, 5º edição, v. 3, da coleção
Pensadores Gaúchos) examina a posição do fundador da PUC-RJ no
contexto da filosofia brasileira.
Já
em O Itinerário do Absoluto no pensamento de E. Fiori, Vaz
examina a evolução do pensamento fioriano, registrando: "a
conferência na qual o prof. Ernani Maria Fiori expôs aos alunos
da Faculdade de Filosofia de N. Sra. Conceição, de Viamão, RS,
a 31 de outubro de 1980, o seu itinerário filosófico é, não
obstante a espontaneidade da linguagem falada (e tendo talvez
nessa espontaneidade um dos méritos maiores), um texto exemplar e
que tem, desde já, seu lugar assegurado nos textos clássicos do
pensamento filosófico brasileiro. Trata-se de um texto
extraordinariamente denso e rico, cuja exegese integral só poderá
ser feita através de um paciente confronto com todo acervo
escrito por Fiori. Ordenado cronológica e tematicamente, de modo
a servir comentário contínuo ao que ele, na conferência,
denomina fio condutor de seu pensamento. Trabalho necessário,
historiograficamente fundamental, em que Fiori aparecerá como o
intérprete de si mesmo segundo o ideal hermenêutico, sempre
perseguido pelos historiadores da filosofia, mas que raramente se
apresenta em condições tão excepcionais de ser alcançado
quanto naquelas que Fiori criou com sua luminosa autobiografia
filosófica. Mas este é um trabalho de longo fôlego que fica
reservado aos discípulos de Fiori e aos mestrandos e doutorandos
de Filosofia em busca de temas verdadeiramente importantes e
fundamentais na história do pensamento brasileiro contemporâneo"
(Textos escolhidos, V. 1, Metafísica e História, Porto
Alegre: LPM, 1987, 19-20).
É
possível uma filosofia brasileira?
Em
2000, no livro Conversas com filósofos brasileiros,
questionado sobre se "seria possível falar de uma filosofia
brasileira" Vaz respondeu: "A filosofia não nasce por
geração espontânea no seio de um mundo cultural. Uma cultura
nacional não produz filosofia por decreto. Nos países periféricos
como o Brasil, a filosofia não podia de inicio articular-se
organicamente com a cultura que não comportava ainda esse tipo de
expressão da sua vida, ainda em estágio pouco desenvolvida.
Nessa espécie da pré-história da filosofia entre nós, era
apenas um ornamento literário ou objeto de curiosidade de alguns
intelectuais. Creio que essa situação começa a mudar juntamente
com as mudanças da própria sociedade brasileira, a partir da década
de 20. Hoje, a prática da filosofia parece integrada no exercício
normal da nossa cultura superior isso porque sociedade e cultura
atingiram um nível de desenvolvimento e complexidade que oferece
à reflexão filosófica um amplo campo temático. Podemos
concluir que a filosofia no Brasil de hoje não é um hobby
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electuais. É uma forma importante e mesmo necessária de
participação social e política (Marcos Nobre e José Márcio
Rego. SP: Editora 34, 2000, 35)".
O
grande estudioso do pensamento grego e medieval, com sua tese,
ainda inédita e redigida em latim Sobre a contemplação e a
dialética nos escritos de Platão, e com seus cursos didáticos
inspirados na Filosofia Aristotélica-Tomista; o entusiasta
inquiridor do pensamento hegeliano e marxista se interessava pelo
pensamento brasileiro.
A
ele, Pe. Henrique Vaz, dedico, agradecido, o que já produzi e o
que preparo sobre o pensamento filosófico no Rio Grande do Sul.
*Artigo
publicado na Revista Jesuítas, nº 234 - Abril/Maio/Junho 2002 |