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Foi ele um dos arautos, no Brasil,
nas duas últimas décadas, a perceber a revolução profunda e
silenciosa engendrada pelo enigma da modernidade.
A
ascensão da direita na Europa nos últimos meses, expressa de
maneira emblemática nas eleições francesas - berço do Estado
moderno e da utopia societária fundada na liberdade, igualdade e
fraternidade -, combinada com outros acontecimentos políticos( )
e com a emergência do chamado 'novo espírito do capitalismo',
podem ser interpretados como sinais da derrocada do projeto histórico
da chamada social-democracia e, por conseguinte, do próprio
socialismo? A entrevista de P. Rosanvallon, o artigo de Monique
Canto Sperber, a recensão e a entrevista de Luc Boltanski quando
do lançamento da edição espanhola do importante livro "O
novo espírito do capitalismo", livro, aliás, que foi
apresentado e debatido no 'Abrindo o Livro', em agosto de 2000,
uma iniciativa do CEPTAT e SENGE-PR, debatem e aprofundam esta
discussão. Trata-se de uma discussão da mais alta importância
para a esquerda brasileira num ano eleitoral. A entrevista de
Leandro Konder, por um lado, e a de Aloísio Mercadante, de outro,
sinalizam esta importância. A esquerda brasileira já teve que
responder desafios semelhantes, especialmente no final da década
de 1950 e inícios da década de 1960. Muitos cristãos e cristãs,
oriundos da Ação Católica, da JUC, JEC e JOC responderam a este
desafio fundando a Ação Popular - AP. Como não lembrar Betinho,
importante dirigente da JEC e depois da AP? Tudo isto nos vem à
mente quando fazemos memória de Henrique Cláudio de Lima Vaz,
padre jesuíta, um dos filósofos mais importantes do Brasil( ),
que faleceu no dia 23 de maio p.p. Padre Vaz foi um dos
inspiradores teóricos, o que inspirou o famoso 'ideal histórico'
da esquerda brasileira, de extração cristã, no final da década
de 1950( ). Foi ele um dos arautos, no Brasil, nas duas últimas décadas,
a perceber a revolução profunda e silenciosa engendrada pelo
enigma da modernidade. Para isto confira o fascinante livro, Raízes
da Modernidade, editado pela Loyola quando o autor, Padre Vaz,
agonizava. Deste enigma faz parte o 'novo espírito do
capitalismo' que desafia a todos e todas que hoje buscam um mundo
e um Brasil, onde caibam todos e todas, felizes e seguros/as.
Fazer memória do Padre Vaz para nós que trabalhamos no CEPAT tem
um significado muito especial. Pois quantas e quantas vezes os
seus textos eram comentados, discutidos e serviram de referência
teórica nas nossas discussões. Uma lembrança: quando no ano de
2000, publicou na revista Síntese 88, p. 149-163, o deslumbrante
artigo "Esquecimento e memória do ser", pedimos
autorização para publicá-lo numa separata. Imediatamente, por
intermediação direta do Padre Vaz, foi-nos mandado o artigo
eletronicamente. Um gesto simples, mas de grande significado e de
muita fineza. Sim, o Padre Vaz esteve muito presente, durante vários
anos, nas atividades e iniciativas do CEPAT. Celebrando esta memória,
reproduzimos a íntegra do editorial publicado no jornal Estado de
Minas, 25 de maio de 2002.
*Artigo
publicado no CEPAT INFORMA, publicação do Centro de Pesquisa e
Apoio aos Trabalhadores, Curitiba PR, Ano 8 - no 85 - Junho de
2002. |