Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Pe. Henrique Vaz S.J.
(1921-2002): In Memoriam*
Antonio Ribeiro de Almeida

 

 

A Providência se fez sentir mais uma vez na minha vida quando um colega falou-me do Pe. Vaz e convidou-me a ter uma entrevista com ele.

A 23 de maio último faleceu em Belo Horizonte, após delicada cirurgia, o Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz. Naquele dia o Brasil e a Igreja Católica perderam um dos seus maiores filósofos. Como discretamente viveu, discretamente partiu para o encontro com o Cristo que tanto amou. Escrever sobre um filósofo para uma coluna de jornal e mostrar aos leitores o que foi sua obra filosófica, é impossível. Por isto, limitar-me-ei a uma faceta muita pequena do seu pensamento e o que foi o privilegiado relacionamento que mantive com ele nos meus anos belorizontinos, e, depois, na correspondência que trocamos, iniciada em 1974 e que se estendeu por vinte e sete anos. Guardo, com carinho as cartas que me escreveu e nas quais trocamos opiniões sobre o estado da Igreja no Brasil, sobre alguns teólogos da Europa, ao mesmo tempo que a sua suave sabedoria instruía minha vida na condução dos problemas existenciais.

Na década de 60 residia em Belo Horizonte. Na UFMG, onde cursava Filosofia, fui pescado para o movimento da Ação Católica pelo dominicano Frei Mateus Rocha. Da Ação Católica, como outros, dei um pulo para o Comunismo e me afastei da Igreja. Os comunistas que conheci trabalhavam, provavelmente, como os primeiros cristãos na conversão dos burgueses ao Marxismo. Guardo deles, sobretudo daqueles que nunca mais vi, uma imagem favorável. Eram racionais e nada passionais como estes primários da esquerda atual que nunca leram Marx e nem sabem quem foi Hegel. Com a denúncia dos crimes do "sábio, cientista, filósofo e paizinho" Joséf Stálin, por Kruschev, a debandada no partidão foi geral. Resistia em voltar para a Igreja porque a Ação Católica se dispersara e casando-me tornei-me para os radicais daquele movimento "um burguês". A Providência se fez sentir mais uma vez na minha vida quando um colega falou-me do Pe. Vaz e convidou-me a ter uma entrevista com ele. Pelas suas mãos voltei para a Igreja e fiz o meu primeiro Exercício Espiritual, de sete dias, ainda em Belo Horizonte sob a direção do então Pe. Luciano Mendes de Almeida. Só com a passagem dos anos conheci alguns dos escritos do Pe.Vaz onde mostrava uma cultura notável. Na Faculdade dos Jesuítas, em Nova Friburgo, lecionou durante 10 anos e suas aulas eram dadas em Latim, como exigiam as normas da Companhia e preparadas sob a forma de teses, demonstrações e refutações.

Doutorou-se pela Gregoriana de Roma (...).Convidado pelo Prof. Arthur Versiani Velloso veio para Minas e passou a lecionar na UFMG no seu Departamento de Filosofia de 1964 a 1986. Dominava línguas como o Grego, o Latim, o Alemão, o Inglês e o Francês o que lhe permitia estudar os textos originais de Platão, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Hegel, Marx e outros. Além de publicar dezenas de artigos escreveu os seguintes livros onde apresenta sua Filosofia: Escritos de Filosofia: I Problemas de fronteira: II Ética e Cultura; III Filosofia e Cultura; IV Introdução à Ética Filosófica 1 (parte histórica); V Introdução à Ética Filosófica 2 (parte sistemática); VI Antropologia Filosófica 1 (parte histórica) e II (parte sistemática).

Tendo escrito alguns artigos sobre Hegel e o quanto Marx devia ao filósofo alemão, foi, no período de "caça aos comunistas", visto como um padre marxista e chamado ao DOPS para prestar esclarecimentos. Quem o leu não entendeu que eram escritos onde ele demonstrava justamente a impossibilidade de existir um Cristianismo Marxista.

Numa das últimas cartas que me escreveu, após passar hospitalizado por algum tempo, pois sua saúde estava um pouco abalada, informou-me o seguinte: "Terminei um texto "A ação histórica em Hegel" e continuo digitando meu livro sobre Raízes da Modernidade." No final da carta dizia que "rezava pela minha saúde e que pedia as bênçãos de Deus para toda essa querida família." Seu último livro, que espero ser editado ainda este ano, iluminará, certamente, as trevas em que estamos vivendo no pensamento e na ação da própria Igreja e será, para os homens de boa vontade, uma luz no caminho. Adaptando uma passagem do próprio Pe. Vaz eu termino esta modesta lembrança dizendo que:

"Os anos que com ele convivi foram os melhores, os sempre lembrados, que ficam como essa ilha de que fala Nietzsche, a ilha silenciosa onde dormem os mortos bem-amados e para onde navega o nosso coração, nas horas de tranqüila saudade, para levar a coroa sempre verde de uma recordação que não morre." (Vaz, pág. 301, Rumos da Filosofia Atual no Brasil, Ed. Loyola)

* Artigo publicado em Central de filosofia e cultura http://critica.no.sapo.pt

voltar

Teodoro Magni - maio de 2002