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A Providência se fez sentir
mais uma vez na minha vida quando um colega falou-me do Pe. Vaz e
convidou-me a ter uma entrevista com ele.
A
23 de maio último faleceu em Belo Horizonte, após delicada
cirurgia, o Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz. Naquele dia o
Brasil e a Igreja Católica perderam um dos seus maiores filósofos.
Como discretamente viveu, discretamente partiu para o encontro com
o Cristo que tanto amou. Escrever sobre um filósofo para uma
coluna de jornal e mostrar aos leitores o que foi sua obra filosófica,
é impossível. Por isto, limitar-me-ei a uma faceta muita pequena
do seu pensamento e o que foi o privilegiado relacionamento que
mantive com ele nos meus anos belorizontinos, e, depois, na
correspondência que trocamos, iniciada em 1974 e que se estendeu
por vinte e sete anos. Guardo, com carinho as cartas que me
escreveu e nas quais trocamos opiniões sobre o estado da Igreja
no Brasil, sobre alguns teólogos da Europa, ao mesmo tempo que a
sua suave sabedoria instruía minha vida na condução dos
problemas existenciais.
Na
década de 60 residia em Belo Horizonte. Na UFMG, onde cursava
Filosofia, fui pescado para o movimento da Ação Católica pelo
dominicano Frei Mateus Rocha. Da Ação Católica, como outros,
dei um pulo para o Comunismo e me afastei da Igreja. Os comunistas
que conheci trabalhavam, provavelmente, como os primeiros cristãos
na conversão dos burgueses ao Marxismo. Guardo deles, sobretudo
daqueles que nunca mais vi, uma imagem favorável. Eram racionais
e nada passionais como estes primários da esquerda atual que
nunca leram Marx e nem sabem quem foi Hegel. Com a denúncia dos
crimes do "sábio, cientista, filósofo e paizinho" Joséf
Stálin, por Kruschev, a debandada no partidão foi geral.
Resistia em voltar para a Igreja porque a Ação Católica se
dispersara e casando-me tornei-me para os radicais daquele
movimento "um burguês". A Providência se fez sentir
mais uma vez na minha vida quando um colega falou-me do Pe. Vaz e
convidou-me a ter uma entrevista com ele. Pelas suas mãos voltei
para a Igreja e fiz o meu primeiro Exercício Espiritual, de sete
dias, ainda em Belo Horizonte sob a direção do então Pe.
Luciano Mendes de Almeida. Só com a passagem dos anos conheci
alguns dos escritos do Pe.Vaz onde mostrava uma cultura notável.
Na Faculdade dos Jesuítas, em Nova Friburgo, lecionou durante 10
anos e suas aulas eram dadas em Latim, como exigiam as normas da
Companhia e preparadas sob a forma de teses, demonstrações e
refutações.
Doutorou-se
pela Gregoriana de Roma (...).Convidado
pelo Prof. Arthur Versiani Velloso veio para Minas e passou a
lecionar na UFMG no seu Departamento de Filosofia de 1964 a 1986.
Dominava línguas como o Grego, o Latim, o Alemão, o Inglês e o
Francês o que lhe permitia estudar os textos originais de Platão,
Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Hegel, Marx e outros. Além
de publicar dezenas de artigos escreveu os seguintes livros onde
apresenta sua Filosofia: Escritos de Filosofia: I Problemas de
fronteira: II Ética e Cultura; III Filosofia e Cultura; IV
Introdução à Ética Filosófica 1 (parte histórica); V Introdução
à Ética Filosófica 2 (parte sistemática); VI Antropologia
Filosófica 1 (parte histórica) e II (parte sistemática).
Tendo
escrito alguns artigos sobre Hegel e o quanto Marx devia ao filósofo
alemão, foi, no período de "caça aos comunistas",
visto como um padre marxista e chamado ao DOPS para prestar
esclarecimentos. Quem o leu não entendeu que eram escritos onde
ele demonstrava justamente a impossibilidade de existir um
Cristianismo Marxista.
Numa
das últimas cartas que me escreveu, após passar hospitalizado
por algum tempo, pois sua saúde estava um pouco abalada,
informou-me o seguinte: "Terminei um texto "A ação
histórica em Hegel" e continuo digitando meu livro sobre Raízes
da Modernidade." No final da carta dizia que "rezava
pela minha saúde e que pedia as bênçãos de Deus para toda essa
querida família." Seu último livro, que espero ser editado
ainda este ano, iluminará, certamente, as trevas em que estamos
vivendo no pensamento e na ação da própria Igreja e será, para
os homens de boa vontade, uma luz no caminho. Adaptando uma
passagem do próprio Pe. Vaz eu termino esta modesta lembrança
dizendo que:
"Os
anos que com ele convivi foram os melhores, os sempre lembrados,
que ficam como essa ilha de que fala Nietzsche, a ilha silenciosa
onde dormem os mortos bem-amados e para onde navega o nosso coração,
nas horas de tranqüila saudade, para levar a coroa sempre verde
de uma recordação que não morre." (Vaz, pág. 301, Rumos
da Filosofia Atual no Brasil, Ed. Loyola)
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Artigo publicado em Central de filosofia e cultura http://critica.no.sapo.pt |