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Um
mestre é aquele que aponta direções, abre perspectivas. Padre
Vaz nos lançou nos grandes horizontes da consciência histórica
de nossos tempos.
Na
celebração dos setenta anos do Padre Vaz comecei assim meu
texto, retomado em outro do ano passado, por ocasião de seus
oitenta anos: “o que levou, no começo dos anos 60, uma geração
de estudantes católicos, sedentos de ação e de compromisso,
presentes na política universitária e logo depois na educação
popular e no cenário nacional, a procurar um filósofo difícil,
denso e de altos vôos teóricos? ... o que levou aquele filósofo
a gastar seu tempo cuidadosamente administrado e a munir-se de
infinita paciência para ouvir e tratar de responder àqueles
jovens?
...Que
solidariedades misteriosas e profundas se foram constituindo
vitalmente, tecendo uma rede de fidelidades e de cumplicidades,
criando laços não apenas intelectuais, mas também afetivos, que
perduram até hoje, desafiando a contenção jesuítica e o pudor
mineiro?”
Um
mestre é aquele que aponta direções, abre perspectivas. Padre
Vaz nos lançou nos grandes horizontes da consciência histórica
de nossos tempos.
Graças
a ele e a Emmanuel Mounier e Teilhard de Chardin, autores de nossa
comum predileção, aprendemos a ter audácia e a afastar os
“medos miúdos”.
Pouco
depois, quando chegou o soturno golpe militar, lá estava ele
junto a seus amigos, solidário e valente. Nos anos seguintes
afundou na reflexão de largo alcance e lançou a mais importante
obra filosófica deste país, com sua erudição prodigiosa e
capacidade analítica inigualável. Ficou talvez com o
injustificado pesar de não ter conseguido colaborar para que
muitos de minha geração permanecessem nos espaços eclesiais
onde tinham iniciado sua militância.
Mas
o decisivo é que para todos nós, perseverantes ou não na
Igreja, ele deu a chave para crer no compromisso e na prática
criadora, assim como as ferramentas irrenunciáveis da ética e da
alteridade. Ele nos descortinou o que deveria ser a comunicação
das consciências na construção de um mundo justo e fraterno.
Anos
depois dos tempos fortes de nossa convivência, seguia indicando
as pistas de uma utopia concreta: “reavivar nas mentes e nas
consciências o grande élan para a liberdade que há dois séculos
levantou os homens do Ocidente ... como tarefa nunca acabada do
consenso razoável, da comunhão na justiça, da participação
responsável, da partilha de um bem viver simplesmente humano”
(“ O destino da revolução”, Síntese nº 45, janeiro-abril
1989).
Sempre
tive a impressão de que nosso grupo ocupava um lugar muito
especial em seu afeto. Assim como para nós, Padre Vaz - que nos
últimos anos víamos relativamente pouco e que não compartia
algumas de nossas opções - era alguém que tínhamos como referência,
presença forte em nosso bem-querer.
Como
nas relações entre pai e filho, quando aquele parte, fica às
vezes a sensação que nem tudo foi suficientemente verbalizado.
Mas nos olhares trocados e nos pequenos gestos de alguns
encontros, muita coisa se transmitiu. Quando vários de nós fomos
voltando ao país, a partir de 1977, nos acolheu com um carinho
pouco habitual em alguém normalmente reservado e discreto. Da
mesma maneira como me recebeu de braços abertos no IBRADES,
lembro o momento tocante de seu reencontro caloroso com Betinho, a
quem abriu os espaços jesuítas da rua Bambina para o lançamento
do IBASE.
E
agora, ao saber que acaba de partir, fica a dor funda da saudade,
a sensação de um vazio em nossa retaguarda, a falta de um mestre
e de um irmão mais velho muito querido, insuperável em
sabedoria, discernimento e instigação crítica.
*Artigo
publicado no site do CERIS - Centro de estatística social e
investigação www.ceris.org.br |