Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Padre Henrique de Lima Vaz,
mestre e companheiro
de nossa geração*
Luiz Alberto Gómez de Souza

Sociólogo, diretor executivo do CERIS

 

 

Um mestre é aquele que aponta direções, abre perspectivas. Padre Vaz nos lançou nos grandes horizontes da consciência histórica de nossos tempos. 

Na celebração dos setenta anos do Padre Vaz comecei assim meu texto, retomado em outro do ano passado, por ocasião de seus oitenta anos: “o que levou, no começo dos anos 60, uma geração de estudantes católicos, sedentos de ação e de compromisso, presentes na política universitária e logo depois na educação popular e no cenário nacional, a procurar um filósofo difícil, denso e de altos vôos teóricos? ... o que levou aquele filósofo a gastar seu tempo cuidadosamente administrado e a munir-se de infinita paciência para ouvir e tratar de responder àqueles jovens?

...Que solidariedades misteriosas e profundas se foram constituindo vitalmente, tecendo uma rede de fidelidades e de cumplicidades, criando laços não apenas intelectuais, mas também afetivos, que perduram até hoje, desafiando a contenção jesuítica e o pudor mineiro?”

Um mestre é aquele que aponta direções, abre perspectivas. Padre Vaz nos lançou nos grandes horizontes da consciência histórica de nossos tempos. 

Graças a ele e a Emmanuel Mounier e Teilhard de Chardin, autores de nossa comum predileção, aprendemos a ter audácia e a afastar os “medos miúdos”.

Pouco depois, quando chegou o soturno golpe militar, lá estava ele junto a seus amigos, solidário e valente. Nos anos seguintes afundou na reflexão de largo alcance e lançou a mais importante obra filosófica deste país, com sua erudição prodigiosa e capacidade analítica inigualável. Ficou talvez com o injustificado pesar de não ter conseguido colaborar para que muitos de minha geração permanecessem nos espaços eclesiais onde tinham iniciado sua militância.

Mas o decisivo é que para todos nós, perseverantes ou não na Igreja, ele deu a chave para crer no compromisso e na prática criadora, assim como as ferramentas irrenunciáveis da ética e da alteridade. Ele nos descortinou o que deveria ser a comunicação das consciências na construção de um mundo justo e fraterno.

Anos depois dos tempos fortes de nossa convivência, seguia indicando as pistas de uma utopia concreta: “reavivar nas mentes e nas consciências o grande élan para a liberdade que há dois séculos levantou os homens do Ocidente ... como tarefa nunca acabada do consenso razoável, da comunhão na justiça, da participação responsável, da partilha de um bem viver simplesmente humano” (“ O destino da revolução”, Síntese nº 45, janeiro-abril 1989).

Sempre tive a impressão de que nosso grupo ocupava um lugar muito especial em seu afeto. Assim como para nós, Padre Vaz - que nos últimos anos víamos relativamente pouco e que não compartia algumas de nossas opções - era alguém que tínhamos como referência, presença forte em nosso bem-querer.

Como nas relações entre pai e filho, quando aquele parte, fica às vezes a sensação que nem tudo foi suficientemente verbalizado. Mas nos olhares trocados e nos pequenos gestos de alguns encontros, muita coisa se transmitiu. Quando vários de nós fomos voltando ao país, a partir de 1977, nos acolheu com um carinho pouco habitual em alguém normalmente reservado e discreto. Da mesma maneira como me recebeu de braços abertos no IBRADES, lembro o momento tocante de seu reencontro caloroso com Betinho, a quem abriu os espaços jesuítas da rua Bambina para o lançamento do IBASE.

E agora, ao saber que acaba de partir, fica a dor funda da saudade, a sensação de um vazio em nossa retaguarda, a falta de um mestre e de um irmão mais velho muito querido, insuperável em sabedoria, discernimento e instigação crítica.

*Artigo publicado no site do CERIS - Centro de estatística social e investigação www.ceris.org.br

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Teodoro Magni - maio de 2002