Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Ciência e santidade*
Editorial Estado de Minas

 

 

A capacidade de aliar a vida do pensamento com a ação sobre a sociedade fez do filósofo um exemplo de homem comprometido

Filósofos podem ser homens sábios. Podem também ser eruditos. Outros, ainda, possuir a capacidade de transmitir seu conhecimento e pensar as questões de seu tempo. A muito poucos foi dada a graça de percorrer estas três colunas: a sabedoria, a erudição e a solidariedade com os homens. O ouro-pretano e padre jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz, que morreu anteontem, foi um homem que dignificou Minas, o Brasil e seu tempo. Considerado um dos maiores filósofos brasileiros, viveu com a simplicidade dos que sabem que somos todos iguais, filhos de Deus. Seu limite e inspiração estavam sempre no infinito.

Uma vida de reflexão que atravessou o século XX, sempre ligada às questões mais candentes do nosso País, como a ausência de liberdade que ameaçou paralisar o pensamento na época da ditadura militar, Padre Vaz foi um mestre de gerações, que alimentou sua Igreja e o entendimento de todos os homens. Para o professor e ex-prefeito de Belo Horizonte, Patrus Ananias, "ele foi seguramente o maior filósofo do Brasil e um dos maiores da tradição cristã de todo o mundo". A capacidade de aliar a vida do pensamento com a ação sobre a sociedade fez do filósofo um exemplo de homem comprometido. Dele disse, ontem, dom Luciano Mendes de Almeida: "Ao mesmo tempo, conjugava a exímia sabedoria e virtude com a simplicidade e desprentensão. No Brasil, será difícil encontrar tão cedo um mestre de tão consumada ciência e santidade".

Padre Vaz percorreu, com sua missão intelectual e pastoral - algo que nele tinha a mesma inspiração -, todas as dimensões da filosofia. Partiu da metafísica para chegar à ética, e, desta, para a pesquisa profunda do sentido do homem no mundo, tratado em sua obra maior, Antropologia Filosófica. Seu último livro foi uma guinada madura para a mística. O nosso maior filósofo soube pensar, fazer política com idéias e, próximo ao seu momento decisivo de se encontrar com Deus face a face, buscar de novo a aliança com o mistério.

Ciência e santidade: os dois pólos da existência que este humilde mestre de Ouro Preto nos ajudou a entender melhor por sua obra e exemplo de vida.

*Editorial do jornal ESTADO DE MINAS de 25/05/2000

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Teodoro Magni - maio de 2002