|
|
A
modéstia e a contenção, praticadas como missão pelo padre Vaz,
talvez expliquem o relativo desconhecimento de seu nome fora do âmbito
da filosofia
Entre
os grandes nomes da filosofia no
Brasil destaca-se, pela amplitude temática de sua obra e por sua
contribuição para o desenvolvimento de uma proposta filosófica
ligada às peculiaridades do país, o padre Henrique Cláudio de
Lima Vaz. Nascido em 24 de agosto de 1921, em Ouro Preto (MG), ele
é apontado atualmente como o mais universal dos pensadores
brasileiros, capaz de explorar os grandes temas filosóficos tanto
para avançar respostas para as questões universais quanto para
recriá-las à luz dos problemas e das condições nacionais. Sua
obra, exposta em seis livros e inúmeros artigos em várias
publicações, parte de um grande apego à cidade natal, lembrando
a frase do escritor russo León Tolstói: "Só é possível a
universalidade quando se entende a própria aldeia."
Apoiando-se em três grandes influências - Platão, São Tomás
de Aquino e Hegel -, Vaz usa a fé e a razão como os instrumentos
da busca por uma vida ética, pela realização da humanidade na
liberdade, na verdade, na beleza e na justiça. Atualmente o padre
Vaz leciona no Centro de Estudos Superiores do Instituto Santo Inácio,
em Belo Horizonte, instituição de formação em teologia e
filosofia dos jesuítas na América Latina, e continua a pensar
criticamente sobre a história do homem, as crises da modernidade
e o futuro da cultura e do pensamento humanos. Além das
atividades docentes, dirige a biblioteca do Centro, considerada a
mais importante da América Latina na área de filosofia - suas
coleções sobre a filosofia grega clássica e o idealismo alemão
estão entre as melhores do mundo. O trabalho e a vida do filósofo,
que não quis conceder uma entrevista por não gostar de falar de
si mesmo, são revelados aqui através de pesquisas em outras
fontes.
A
expressão 'fenomenologia da vocação' define bem o trajeto das
idéias de Henrique Vaz. A partir de seus estudos sobre o
pensamento clássico e de sua adesão à conciliação entre
filosofia e teologia, entre fé e razão, o pensador brasileiro
embrenhou-se na moderna discussão a respeito das transformações
da Igreja, da sociedade e da cultura no século 20 para depois
alcançar um reencontro com a tradição clássica. Em todo esse
itinerário, o padre Vaz tratou sempre as grandes questões da
filosofia de modo sistemático, amplo, erudito, rigoroso e
sobretudo criativo.
Fenomenologia
do espírito, primeiro grande livro do
filósofo alemão Georg Hegel (1770-1831), é visto por alguns
estudiosos como uma forma especial de 'romance de formação'. No
livro, de 1807, Hegel descreve a trajetória da consciência, do
espírito, desde que é apenas 'idéia-em-si', passando por sua
alienação, quando se põe 'fora-de-si', até o momento de síntese,
em que, após viver todas as circunstâncias do existir,
reconcilia-se com ela mesma e torna-se 'idéia-que-retorna-a-si.
Para
Hegel, essa odisséia da consciência, a 'fenomenologia do espírito',
é a essência do mundo: "Tudo o que desde a eternidade
acontece no céu, na Terra, a vida de Deus e quanto se opera no
tempo, visa apenas a que o espírito conheça a si próprio, faça
a si mesmo objeto; se encontre, devenha por si mesmo, recolha-se
em si próprio; desdobre-se, aliene-se, mas somente para poder se
encontrar e poder voltar a si próprio."
Essa
maneira de representar um caminho de descobertas, aprendizados,
enriquecimento espiritual nascido com a Odisséia, de
Homero - foi levado à culminância no livro de Hegel, no qual ele
expõe seu sistema filosófico, herança-crítica-síntese da
grande tradição da filosofia ocidental. Falar de uma
'fenomenologia da vocação', portanto, é marcar duplamente a
evolução das idéias de Henrique Vaz: pelo que a palavra
fenomenologia evoca como 'itinerário', como 'formação', e pela
profunda presença de Hegel em sua obra.
Apesar
das dificuldades de compreensão que o sistema hegeliano oferece,
por sua complexidade e grandeza, Hegel é claro quando diz, em Introdução
á história da filosofia, texto que resultou de anotações
de um dos seus cursos: "Confiai na ciência e em vós mesmos.
A coragem da verdade, a fé no poder do espírito é a condição
primordial da filosofia. O homem, por seu espírito, pode e deve
julgar-se digno de tudo quanto há de mais sublime.".
Esses são os princípios que têm guiado o padre Vaz sua
filosofia: a confiança na ciência, a coragem a verdade, a fé no
poder do espírito.
Filósofo,
teólogo, educador, humanista, cidadão, o mineiro Henrique Cláudio
de Lima Vaz é filho de Theodoro Amálio da Fonseca Vaz, catedrático
de mineralogia da Escola de Minas de Ouro Preto e da Escola de
Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais, e de Emilia
Josephina de Lima Vaz. Fez seus estudos básicos em escolas públicas
de Ouro Preto, destacando-se entre as influências que lhe marcarão
o destino de professor e pesquisador a professora Maria Estrelina
de Oliveira Carmo, de quem guardará saudosa e reconhecida lembrança
pelo exemplo digno e generoso de exercício da docência.
Aos
16 anos vai para Nova Friburgo (RJ), onde, em março de 1938,
ingressa no Seminário dos Jesuítas. Aos 24 anos, em 1945, obtém
bacharelado e licenciatura em filosofia pela Faculdade de
Filosofia de Nova Friburgo, ordenando-se sacerdote em 15 de julho
de 1948. Em 1946 vai para a Itália, bacharelando-se e
licenciando-se em teologia pela Faculdade de Teologia da
Universidade Gregoriana de Roma em 1949, já mergulhado na obra do
filósofo grego Platão (427-347 a.C.). Em 1953, obteve o título
de doutor em filosofia na mesma universidade, com a tese De
dialectica et contemplatione in Platonis dialogis (Sobre o
dialética e o contemplação nos diálogos de Platão). Dessa
época, o padre Vaz destaca, em depoimento dado em 1976, a influência
de dois professores, os padres Charles Boyer e Paolo Dezza.
A
certeza sobre a capacidade intelectual do padre Vaz é precoce. O
professor José de Assis Carvalho, um conterrâneo que conheceu o
filósofo no início dos anos 50, relembra: "Nos idos de
1948, jovem seminarista, ouvi o padre Arlindo Vieira, ao término
de missões populares, em frente à bicentenária catedral de
Mariana, afirmar que o padre Leonel Franca estava à morte, mas a
Companhia de Jesus já possuía um substituto à altura do seu
imenso talento, na pessoa de um escolástico ouro-pretano,
Henrique Cláudio de Lima Vaz. Padre Franca era considerado, à época,
o luminar maior da cultura católica brasileira. Alceu Amoroso
Lima chamava-o poeticamente de diretor espiritual da inteligência
brasileira."
Henrique
Vaz lecionou no Colégio Pio Brasileiro de Roma e, ao voltar ao
Brasil, na Faculdade de Filosofia Anchieta, de Nova Friburgo, na
Universidade Católica de Minas Gerais e na Universidade Federal
de Minas Gerais, além de sua permanente dedicação ao Centro de
Estudos Superiores da Companhia de Jesus (no Rio de Janeiro, de
1975 a 1982, e em Minas Gerais, a partir de 1982). Professor em
diversas disciplinas no campo da filosofia e da psicologia, o
padre Vaz também tem formação no campo das ciências exatas. A
esse respeito há um depoimento do padre Fernando Bastos de Ávila,
um dos nomes mais importantes da Companhia de Jesus no Brasil e um
dos criadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro: "Ele, com sua preparação matemática (...) e com
seus cursos de cosmologia ministrados durante anos, chegou àquela
visão abrangente do cosmos, envolvendo desde o turbilhão dos
astros nas galáxias até a agitação frenética dos quarks
nas partículas elementares."
Esse
interesse e essa competência nas matemáticas por parte de um filósofo
não deve causar estranheza em quem sabe da centralidade da matemática
na obra de Platão e da centralidade desse pensador na filosofia
do padre Vaz. Em um de seus mais belos textos, a aula inaugural do
curso de doutorado em filosofia da UFMC, em 1993, ele diz: "0
gesto inaugural de toda decisão autêntica de filosofar dentro de
nossa tradição é um encontro ou um reencontro com Platão.
(...) Para mim, em todo caso, filosofar não é 'desconstruir'
mas, como queria Hegel, 'rememorar'. Vem a ser retomar no esforço
presente do conceito a longa história do ser tal como foi
inaugurado exatamente pela audácia do filosofar platônico."
Momentos
e problemas de fronteira
Adicionando
a Platão e a Hegel um terceiro nome, São Tomás de Aquino
(1225-1274), temos as três grandes influências filosóficas no
pensamento do padre Vaz. Isso não significa que tenha ignorado
outros autores: na verdade, como acontece com seus principais
mestres, sua obra é um amplo diálogo com a essência da tradição
filosófica ocidental. Seus trabalhos abrangem tudo o que é
considerado importante no pensamento filosófico e foram
elaborados com os instrumentos adequados: erudição e inteligência.
Tal
abertura para o diálogo, no entanto, não significa ecletismo ou
permissividade. O juízo crítico do padre Vaz é severo e agudo,
dentro de perspectiva filosófica 'racionalista' e
'universalista'. Um exemplo particularmente claro disso é sua
adesão ao tomismo. São Tomás de Aquino é, na trajetória da
história do cristianismo, o momento de apaziguamento das exaltações
apaixonadas de Santo Agostinho (354-436). A presença das idéias
do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) na obra de São Tomás
atua como contraponto e equilíbrio ao exaltado neoplatonismo
agostiniano.
Outra
navegação
O
próprio padre Vaz fornece os elementos que permitem traçar a
trajetória de sua formação de sua obra. Iniciado no mundo filosófico
sob influência de Platão e São Tomás de Aquino, ele admite ter
experimentado "outra navegação" a partir de 1956, com
a publicação de O fenômeno humano pelo pensador francês
Pierre Teilhard de Chardin (1881- 1955). No centro desse novo período
estão as exigências do tempo, as transformações da Igreja e da
sociedade, os grandes processos políticos e culturais que
resultaram no Concílio Vaticano II (realizado pela Igreja entre
1962 e 1965) e na turbulência política e existencial que chegou
ao auge em 1968, ano do turbulento 'maio' na França e também da
Conferência Episcopal de Medelím, na Colômbia, que teria grande
influência sobro os rumos da Igreja na América Latina.
Tal
mergulho no mundo, na temporalidade, em suas angústias e esperanças,
foi vivido intensamente pelo padre Vaz. Seu papel destacado na
construção de uma nova consciência eclesial e leiga no Brasil
fez dele um precursor da chamada Teologia da Libertação. Na época,
as bases que estabeleceu para o diálogo entre cristianismo e
marxismo foram mais consistentes que as surgidas na Europa. Ao
mesmo tempo, procedeu ao estudo intenso da filosofia moderna a
partir das idéias do francês René Descartes (1
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
596-1656) e teve
seu "primeiro e realmente sério confronto" com as idéias
do alemão Immanuel Kant (1724-1864).
Esse
segundo momento da trajetória filosófica do padre Vaz, que tem
algo de crítico em relação ao primeiro, marcado pela influência
da síntese neotomista, seria superado por um terceiro, iniciado
em 1976: o encontro com a filosofia hegeliana. A nova perspectiva
teria para o filósofo o sentido de uma reconciliação com suas
origens, com a tradição da filosofia clássica, com Platão. O
encontro com Hegel permitiu a Vaz realizar sua mais decisiva e
bela travessia. A voz do filósofo passou a mostrar encantamento e
plenitude: "0 caminho de volta agostiniano da
contemporaneidade à tradição não é o melancólico refúgio no
passado, na desesperança resignada de compreender o presente. É
o desafio do presente, vivido como problema, que obriga a
rememorar o passado e a captar no conceito o tempo que passa, pela
mediação refletida do tempo passado."
A
obra que o padre Vaz produz de forma sistemática desde os anos 40
reflete sua trajetória como filósofo e cidadão. Todas as fases
e todos os textos têm em comum a excelência da leitura e o rigor
e a amplitude dos conhecimentos. Em balanço que fez, em 1969, da
obra do padre Vaz, a historiadora italiana Lidia Acerboni incluiu
21 artigos em revistas especializadas e um livro, Ontologia e
história, publicado em 1967 pela editora Duas Cidades, de São
Paulo. Mas o filósofo já tinha publicado, também em 1967, pela
editora Vozes (Rio de Janeiro), o livro Universo científico e
visão cristã. Desse momento em diante sua obra
multiplicou-se.
Além
de dezenas de artigos, de traduções importantes (como a que fez
de partes da fenomenologia do espírito), de atividades
editoriais, de inúmeros cursos e orientações de teses, de
conferências e seminários, o padre Vaz publicou os seguintes
livros: Escritos de filosofia (Problemas de fronteira), em
1986; Escritos de filosofia II (Ética e cultura), em 1988;
Antropologia filosófica I, em 1991; Antropologia filosófica
II, em 1992; e Escritos de filosofia III (Filosofia e
cultura), em 1997, todos pela editora Loyola, de São Paulo.
Filósofo
por formação e escolha, Henrique Vaz trouxe contribuição
importante para a teologia no Brasil e na América Latina. Jesuíta
como José de Anchieta (1534-1597) e Antônio Vieira (1608-1697),
e inspirado no fundador da ordem, Santo Ignácio de Loyola
(1491?-1556), o filósofo envolveu-se na renovação da vida cristã
no país em um momento de grandes transformações e expectativas
e foi um participante fundamental no processo de construção de
uma ação católica comprometida com a luta pela justiça e pela
liberdade.
Seu
livro Escritos de filosofia (Problemas de fronteira), de
1986, é a busca do encontro da filosofia com a teologia. Esse
trabalho seria, nas palavras do próprio Vaz, "uma reflexão
especificamente 'teológica' sobre a história, capaz de
fundamentar teoricamente, pela mediação do ensinamento social da
Igreja, uma autêntica praxís social cristã".
Ética
e razão: os focos da elipse
A
modéstia e a contenção, praticadas como missão pelo padre Vaz,
talvez expliquem o relativo desconhecimento de seu nome fora do âmbito
da filosofia. É possível que este seja o destino dos filósofos
- como Bento de Espinosa (1632-1677) - que fizeram da 'ética',
mais que um campo da reflexão filosófica, uma exigência de
vida. Essa atitude, que nada tem de provinciana ou falsa, impõe
uma aura de respeito e sóbria grandeza em torno do trabalho do
pensador brasileiro e impede que seus conhecedores e apreciadores
o divulguem como merece.
Às
vezes, porém, o significado da filosofia de Henrique Vaz é
trazido a público. Como fez Paulo Menezes, o tradutor da Fenomenologia
do espírito, de Hegel, para o português, ao comentar o livro
Ética e cultura: "Esse livro do padre Vaz é
certamente um dos pontos altos da bibliografia filosófica
brasileira, e diria até que é um dos textos mais luminosos que
se podem encontrar sobre 'ética'. Tive essa impressão ao compará-lo
com A filosofia moral - Exame crítico e histórico dos grandes
sistemas, de Jacques Maritain [filósofo francês, 1882-1973].
Quem fizer o mesmo não terá dificuldade em constatar onde se
encontra mais simpatia e compreensão das éticas de Platão,
Aristóteles e Hegel. E até mesmo mais profundeza: como se o
aguerrido neoescolástico investisse contra muralhas e barbacãs
dessas fortalezas, enquanto o padre Vaz, de dentro, mergulhasse na
íntima essência e na profunda verdade de tão magníficas
filosofias."
É
possível traçar um quadro que, apontando para a presença de
'pares conceituais' expressivos, expressa o essencial da proposta
filosófica do padre Vaz. Sua obra exibe e investiga as tensões
do confronto permanente entre noções contraditórias: imanência
versus transcendência; interioridade versus
exterioridade; pessoa versus sociedade; fé versus
razão; fé versus justiça. E sua resposta talvez seja que
tanto a razão (como instrumento fundamental para se alcançar a
verdade, a beleza e a liberdade) quanto a ética (que deveria ser
a destinação de todo ato humano) - os dois focos da elipse que
é a filosofia do padre Vaz - só têm legitimidade e plenitude
porque submetidas à 'transcendência'. Aqui, a transcendência,
ou a intervenção de um princípio superior além das coisas
naturais, tem o sentido proposto pelo filósofo francês Maurice
Blondel (1861-1949): "Sem um reconhecimento do sobrenatural,
o nosso relato da realidade é incompleto."
E
este o sentido essencial da obra do padre Henrique Vaz: a conciliação
da ética e da razão, da fé e da cultura, da fé e da razão
como os caminhos inescapáveis da emancipação humana.
Há
quem diga que toda a reflexão filosófica do padre Vaz tem uma só
preocupação: "o homem nas suas vicissitudes históricas",
como escreveu em 1991 Xavier Herrero, filósofo também formado na
tradição jesuítica e professor da UFMG. Vicissitudes essas
tomadas a partir da grande tradição do pensamento racionalista e
humanista e da experiência cristã. Esse também é o sentido básico
do livro Teologia e teoria social, do inglês John Milbank
(publicado no Brasil em 1995), que Vaz resenhou com entusiasmo em
1991. Nesse livro a teologia, a perspectiva da presença de Deus
na história é um dado essencial, mesmo para as teorias sociais
mais avançadas do nosso tempo. A proposta de Milbank era a de
"evidenciar que as próprias teorias sociais 'científicas' são
elas mesmas teologias ou antiteologias disfarçadas".
A
investigação filosófica do padre Vaz é ampla e profunda. Das
grandes perguntas da filosofia ('o que é o ser?', 'o que é a
verdade?', 'o que é o belo?', 'o que é o bem?', 'o que é o
dever?'), bases das grandes disciplinas filosóficas (a ontologia,
a epistemologia/lógica, a estética, a ética), só a problemática
estética não foi tratada a fundo em seu trabalho, talvez porque
o pensador trate essa questão com a mesma severidade que seu
mestre Platão.
Em
1991, em unia referência implícita a seu próprio esforço filosófico,
Henrique Vaz comentou - após discorrer sobre Platão, Aristóteles,
Plotino (205-270), Tomás de Aquino e Descartes - as "célebres
perguntas" de Kant, que chamou de "sementes da vida
filosófica": 'o que posso saber?', 'o que devo fazer?', 'o
que me é permitido esperar?' e 'o que é o homem?'. Para o padre
Vaz, a interrogação sobre 'o que posso saber' situa-nos no
terreno do tema ontologia e história" (tratado em seu
primeiro livro). já o tema ética e cultura (assunto de seu
terceiro livro) "move-se no âmbito da pergunta 'o que devo
fazer?"'. Em sua opinião, a terceira pergunta, 'o que me é
permitido esperar?'. "nos envolve inapelavelmente com a vexatissima
quastio sobre as relações entre filosofia e
cristianismo" (consideradas no segundo e sexto livros).
Enfim, diz ele, "a pergunta 'o que é o homem?', na qual
todas as outras irão desaguar, segundo Kant, leva-nos ao próprio
coração do tema antropologia e história" (objeto de seus
livros de 1991 e 1992).
Considerando
a centralidade que a obra de Platão tem para o filósofo Henrique
Vaz, talvez seja possível vislumbrar o núcleo essencial do seu
projeto filosófico nas palavras do historiador alemão Werner
Jaeger, adaptando frase que Platão escreveu em A república:
"A dialética leva o melhor da alma a contemplar o melhor de
tudo que existe." Essa frase resume, como um programa, o
sentido essencial da obra do padre Vaz: o conhecimento, a dialética,
irresistivelmente inclinados para o bem. Eis a vocação desse
mineiro que dignifica o pensamento filosófico brasileiro e nos da
esperança de um destino de justiça e liberdade.
*Artigo publicado no
revista ciência hoje vol.25 nº 146 jan/fev 1999, escrito por João
Antônio de Paula, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento
Regional da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade
Federal de Minas Gerais. |