Coma
morte do padre Henrique Cláudio de Lima Vaz, professor emérito
da UFMG, o pensamento brasileiro perde seu mais expressivo filósofo.
Seu trajeto filosófico estende-se por toda a filosofia ocidental,
num arco que vai de Platão até o exame da modernidade mais
recente, sobre a qual versa seu último livro, Raízes da
Modernidade, que não chegou a ver impresso, pois saiu da
editora no exato dia em que morreu.
Dono
de um conhecimento prodigioso de toda a tradição clássica, lida
nas fontes originais e intensamente meditada, não ficou preso à
exegese erudita dos textos. O conhecimento da metafísica grega,
aliada ao estudo dos autores cristãos, deu a seu pensamento a
densidade necessária para enfrentar o criticismo moderno. Dois
autores despontam como referência obrigatória: Santo Tomás, espécie
de norte magnético a indicar a direção, e Hegel, esse novo
Aristóteles enciclopédico que se aventura a rememorar toda a
cultura ocidental.
Para
chegar a Hegel, contudo, há que se atravessar a imensa barragem
das três críticas de Kant. Padre Vaz estudou-as com exemplar
cuidado. Para sair de Hegel, no entanto, a modernidade exige um
rito de passagem por Marx. Henrique Vaz não se esquivou dessa
passagem, mas realizou-a como que de modo preventivo, antes mesmo
de iniciar-se em Hegel.
Os
conturbados anos 60 da vida brasileira fizeram-no compreender as
urgências da política e impuseram-lhe a tarefa de uma leitura crítica
e cristã do pensamento marxiano. Para entender o mundo moderno,
aconselhava Hegel, substitua-se a prece matutina pela leitura dos
jornais; Vaz corrige o mestre alemão: a leitura após a prece dará,
sem dúvida, frutos melhores. A juventude católica não haveria
de renunciar à fé pela política, deveria antes dar o testemunho
da fé na própria militância política. Seus escritos daquela época
não deixam dúvida quanto a esta opção definitiva. Em sua última
entrevista, Padre Vaz fala de sua participação política
naqueles anos, do trabalho com a Juventude Universitária Católica
(JUC) e com o Movimento de Educação de Base, bem como de textos,
como Cristianismo e Consciência Histórica, de 1961, que
exerceram considerável influência nos movimentos cristãos,
embora, modestamente, dissesse que "eram textos de reflexão,
não de ação".
Os
estudos sobre Hegel desenvolvem-se a partir de 1970, na UFMG,
através de uma série de cursos sobre o filósofo da Fenomenologia
do Espírito, que se estenderam até sua aposentadoria, em
1987. Foram cursos memoráveis sobre a Fenomenologia, a Ciência
da Lógica, a Enciclopédia das Ciências Filosóficas
e a Filosofia do Direito. Vem desta época seu renome como
especialista na filosofia de Hegel, da qual, de fato, tornou-se tão
conhecedor quanto já era da filosofia platônica.
Tão
importantes quanto os estudos sobre Hegel são os livros que
publicou nos últimos anos: a série dos Escritos de Filosofia,
em cinco volumes, sendo três sobre ética; os dois volumes sobre Antropologia
Filosófica; e o breve, mas substancial Experiência Mística
e Filosofia na Tradição Ocidental Por fim, o livro póstumo
ao qual já me referi: Raízes da Modernidade.
Quero,
porém, deter-me em duas obras fundamentais para entender a trajetória
intelectual e o caminho espiritual de Padre Vaz: os dois volumes
sobre antropologia filosófica e o livro sobre a mística. A
primeira parte da Antropologia expõe criticamente as
concepções sobre o homem na filosofia ocidental, enquanto a
segunda empreende uma discussão dos conceitos subjacentes à idéia
de uma antropologia filosófica.
A
filosofia critica de Kant formulou três perguntas fundamentais: Que
posso saber?; Que devo fazer?; Que posso esperar?
A primeira é teórica e deve ser respondida pela ciência; a
segunda, prática, deve ser respondida pela filosofia (ética); a
terceira, religiosa, só pode ser respondida pela fé. Resumiu as
três questões numa única: Que é o homem?
Henrique
Vaz aprofunda a questão. Após o exame histórico, retoma o
problema em sua origem e estuda as categorias que permitem
compreender o homem: objetividade, intersubjetividade e transcendência.
Cada categoria ultrapassa a antecedente, mas a mantém implícita.
Assim, a categoria de intersubjetividade não nega que o homem
seja um objeto, mas indica que é um objeto que nega a si próprio
para tornar-se sujeito; a intersubjetividade "sublima" a
categoria de objeto, ao mostrar que o sujeito espiritual
estabelece com outro sujeito uma relação eu-tu, base da
comunidade espiritual e humana do nós. Cada eu é o
outro de um outro. Esta segunda categoria permite pensar os
conceitos de espírito e pessoa. A terceira
categoria, transcendência, conserva a intersubjetividade, mas, ao
mesmo tempo, a transcende na direção do Absoluto. Em capítulo
inspirado, mostra que a noção de transcendência perturba a inércia
do pensamento e o leva à reflexão radical que forma o impulso
que move a filosofia: "a reflexão sobre a transcendência",
escreve ele, "constitui a terra natal da filosofia" (Antropologia,
vol. II, p. 114). Esta tese permite-lhe descobrir a presença do
Absoluto: o fim não poderia advir se não estivesse antes no
princípio. A Antropologia Filosófica culmina num capitulo
sobre a categoria de pessoa, articulada entre o tempo e a
eternidade. "O ser e o modo dessa eternidade permanecem
inacessíveis à demonstração filosófica. Dela, no entanto, uma
figura ou imagem transparecem justamente nesse dinamismo da
auto-afirmação e nesse surto profundo do eu sou que passa além
de todo eidos finito e tende à plenitude infinita do
ser" (vol. 1, p. 236). A demonstração filosófica não
vai além da indicação de um caminho transcendente que o homem
deve percorrer. E a versão conceptual da sede de infinito que
experimentamos em nossa vida finita e incompleta.
A
antropologia filosófica culmina no conceito de homem como pessoa
e espírito, deixando claro que o espírito é uma exigência que
não se satisfaz com qualquer determinação finita. Assim, a
antropologia filosófica não pode ser aprisionada na precariedade
da vida material. Ela deve, pois, transformar-se em cristologia,
pois o homem é incapaz de ser o mediador de si mesmo no caminho
do Absoluto. Cristo é o mediador absoluto.
Na
missa comemorativa de seus 80 anos, Henrique Vaz reiterou sua
profissão de fé diante dos discípulos e amigos que foram saudá-lo:
"Eu amo o Cristo". Nove meses depois, na missa de corpo
presente, a comunidade, em resposta, cantou: e neste Homem / o
homem enfim se descobriu". Ecce homo. Deus o acolha
entre os santos.