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Cultura
brasileira celebra os 80 anos do Padre Henrique Cláudio de Lima
Vaz, mestre de várias gerações de pensadores
A
tarefa nobilíssima de ensinar filosofia é da mais exigentes e
humildes. Do professor de filosofia se exige um conhecimento amplo
das várias escolas e períodos, a capacidade de sistematizar
pensamentos muitas vezes assistemáticos, fazer ligações entre
temas que propõem o debate entre pensadores afastados pelos séculos
e, sobretudo, ajudar a entender os problemas do mundo a partir da
tradição. Ao professor de filosofia todas as manifestações da
cultura são significativas, da arte à ciência. A dedicação ao
ensino obriga, ainda, a uma permanente atualização o que, no
campo da filosofia, significa um grande esforço de erudição.
Quando
se desenha um perfil como este, o nome que vem à mente de várias
gerações de pensadores brasileiros é o do mineiro de Ouro
Preto, Henrique Cláudio de Lima Vaz, que completou 80 anos em
agosto e recebe hoje homenagem na Assembléia Legislativa de Minas
Gerais. Mas se o lado da proeminência intelectual ressalta a atuação
de Lima Vaz, a outra dimensão de sua vocação, uma humildade tão
verdadeira como tocante, completa a figura do professor ideal de
filosofia. Ao lado do magistério em vários centros de estudos
(no Rio e em Minas Gerais), o jesuíta Henrique de Lima Vaz foi
guia de jovens pensadores ligados à Igreja, da Juventude
Universitária católica e da primeira fase da Ação Popular, em
busca de aprofundamento nos estudos hegelianos, a partir da exigência
de engajamento sustentada pela filosofia marxista. Não havia
outra pessoa no Brasil, sobretudo ligada à Igreja, capaz de uma
pesquisa em profundidade nas raízes do pensamento marxista e de
suas relações com o idealismo alemão.
Período
hegeliano
Em
épocas de calor ideológico - que lhe renderam perseguições políticas
- o pensador aproxima sua pesquisa filosófica com alguns temas da
filosofia hegeliana. Para isso trazia, além de sólida formação
de ontologia clássica, sobretudo de Platão, Aristóteles e São
Tomás de Aquino, um diálogo com as ciências modernas e as
filosofias de Descartes e Kant. O período hegeliano, que marca a
terceira fase do pensamento de Lima Vaz, coloca em evidência, além
de uma nova concepção de racionalidade, os temas que marcariam
seus escritos mais recentes: a ética, o mundo, a cultura, a
transcendência. São elementos que encontram em sua Antropologia
Filosófica e na Introdução à Ética Filosófica a tradução
de uma vida de estudos, reflexões e ação.
Padre
Vaz, que pode ser considerado uma referência para os militantes
da esquerda católica nos anos 60 e 70, fez da reflexão sua forma
mais perfeita de atuação no cenário da política e da Igreja.
Em um texto de 1984, avalia sua participação no que chama de
"pré-história da Teologia de Libertação", da qual se
tornaria um crítico da "ambigüidade teórica", que o
levaria a se afastar desta corrente de pensamento. Esse diálogo
com sua época e com os temas colocados à reflexão da
intelectualidade católica foi objeto de dezenas de artigos,
publicados em revistas filosóficas de todo o mundo (sobretudo em
Síntese - Nova Fase) e que, a partir dos anos 80, ganharam maior
circulação com a série Escritos de Filosofia, que já soma seis
volumes, publicados pela editora Loyola.
São
escritos que percorrem uma vida ímpar de labuta no difícil campo
das idéias. Em seu conjunto, pode-se arriscar, constituem a mais
importante obra filosófica da cultura brasileira no século XX. E
mais: uma chave para se pensar, em plena crise da modernidade, a
perspectiva fundacional dos conceitos filosóficos. Uma trajetória
que se inicia na mais basilar das pesquisas filosóficas, a busca
do Ser, perpassa a difícil compreensão do Outro, em sua visada
antropológica, para chegar ao conceito do Bem, como horizonte da
realização humana. Não é um acaso que a mais recente publicação
de padre Vaz seja um estudo sobre a experiência mística na tradição
ocidental. O Absoluto e a abertura para o outro (uma tradução
das vias da mística e da política) foram os pólos de uma obra
que dignifica o Brasil. E enche de um saudável orgulho seus
alunos, na altura iluminada dos 80 anos do mestre.
Erudição
comprometida
O
Padre Vaz tem ao menos uma dupla importância. professor, com
quase 50 anos de magistério ininterruptos - atualmente leciona no
Centro de Estudos Superiores dos Padres Jesuítas. Um magistério
que formou várias gerações de professores de filosofia, não só
pela dedicação as aulas sempre foram muito bem preparadas -, mas
também pela erudição, atualização na bibliografia e
conhecimento vasto da filosofia desde os clássicos gregos até o
pensamento contemporâneo. O Padre Vaz também é importante pelos
seus escritos. Publicou várias dezenas de artigos e é um dos filósofos
brasileiros com maior obra escrita. Escreveu os seis volumes
Escritos de Filosofia e dois da Antropologia Filosófica. Além
disso, tem muitos artigos publicados que não estão coligidos
nestes escritos filosóficos. A obra dele, se fosse feita uma
recolha dos artigos, seria muito mais vasta. Somente nestes livros
há cerca de 5.600 notas bibliográficas que ilustram a enorme
erudição de uma obra muito rigorosa do ponto de vista conceitual
e muito bem articulada do ponto de vista sistemático. O Padre Vaz
possui ainda uma personalidade humana extraordinária. Jamais usou
conhecimento com arrogância , é extremamente generoso, sempre
disponível para ajudar as pessoas e exerceu influência em várias
gerações Não apenas pelo trabalho direto do magistério mas
pela disseminação do seu magistério. teve uma importância
muito grande, social e política, na época da Ação Católica e
da Juventude Universitária Católica, no trabalho de construção
de uma consciência crítica dos jovens cristãos da década de
60. Uma das pessoas que foi diretamente influenciada por ele foi o
sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Carlos Roberto Drawin,
Professor do Departamento de Filosofia do UFMG e psicanalista.
Prenúncio
do eterno
Tenho
o máximo prazer em me referir ao Padre Vaz. É um mestre de toda
minha geração. Atende a necessidade de uma geração inteira. As
pessoas ultrapassam o momento eventual, e se projetam no futuro.
É importante porque é além de hoje. Dois pensamentos ilustram a
trajetória de Padre Vaz: "A verdade não é menos verdadeira
porque desabrocha no tempo histórico" e "A eternidade já
corre nas artérias do tempos", este último de Emmanuel
Mounier. A filosofia do Padre Henrique Vaz tem raízes profundas
no pensamento ocidental. Mais em Platão do que em Aristóteles.
Henrique Vaz supera a estática aristotélica da essência e o
formalismo da escolástica. Penetra nos mistérios da existência,
que é precisamente cotidiana com a sua margem de futuridade.
Henrique Vaz é o homem da modernidade. Daí que, para além da dúvida
cartesiana e da crítica de Kant, ele nos faz acordar para o
sentido da história, que pode ser a custódia da verdade. Daí o
seu afinco em debruçar na dialética que, principalmente em Hegel
e suas derivações mais próximas, procura o sentido da verdade
absoluta, a disposição da liberdade e do pensamento do homem.
Hegel, tanto quanto os antigos, lhe ensinou que pode haver um éter
das eternidades mentirosas. Daí o convite a uma atenção detida
e dirigente para o presente que, carregando o passado, aponta para
o futuro, prenunciando o eterno. Este é um comovido agradecimento
do tomista Moacyr Laterza, que foi salvo da sua escolástica por
Henrique de Lima Vaz. Moacyr Laterza, Professor aposentado da
UFMG.
Professor
e pensador
O
conhecimento no Padre Vaz se traduz em sabedoria. Distingo o Padre
Lima Vaz como pensador e professor. Nos dois campos ele tem uma
importância absoluta. Como professor, lecionou mais de vinte anos
na UFMG. Introduziu toda uma vertente informativa no ensino da
Filosofia em Minas. Fez todo um direcionamento para o conhecimento
sistemático de Kant, Hegel, e depois para a possibilidade de
pensar o momento atual também de um modo sistemático. Como
professor é uma pessoa generosa que sempre partilhou o
conhecimento com os alunos. Suas aulas são muito bem feitas. Fez
80 anos e leciona até hoje. Já como pensador, do ponto de vista
contemporâneo, é o maior pensador que temos no Brasil.
Exatamente porque tentou retomar a filosofia de seu ponto de vista
mais geral, nas disciplinas mais abrangente, tais como
Antropologia Filosófica, Ontologia e Ética, e traduzir isto em
um pensamento que fosse uma ampla visão e explicação do
processo cultural do ocidente e da fundamentação da modernidade.
É o autor que cobre melhor e sistematicamente as diversas áreas
do pensamento filosófico. Felizmente ele teve condição de
publicar tudo isto. Maria Eugênia Dias de Oliveira, Professora
aposentada da UFMG e professora do Centro de Estudos Superiores do
Instituto Santo Inácio.
*Artigo
publicado no Jornal Estado de Minas
de 08/11/2001 |