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exerceu
uma influência político-ideológico-doutrinária muito grande
sobre uma geração, na época em que a Igreja Católica
caracterizava-se por uma posição extremamente conservadora
Sr.
Presidente, Srªs e Srs. Senadores, quero trazer hoje aqui,
lamentavelmente, três registros de mortes que nos afetaram
profundamente.
O
próprio Presidente da República me pediu que proferisse uma
palavra, sobretudo dirigida ao Comitê de Imprensa, pela morte da
jornalista Carmen Kozak, a quem todos nós desta Casa,
principalmente os que estão aqui há mais tempo, aprendemos a
admirar nesse convívio complexo e, ao mesmo tempo, amistoso,
nesse amálgama de contornos curiosíssimos, que é a relação do
Parlamentar com a imprensa.
Carmen
Kozak se distinguia por ser uma pessoa de grande timidez pessoal,
compensada por uma sutileza no trato e uma capacidade, como
jornalista, de dar a quem entrevistava a sensação de aqui ali
estava – ele, o entrevistado – a melhor pessoa do mundo. Esta
é uma das técnicas nem sempre usada, porém muito eficaz em
comunicação e em entrevista: dar ao entrevistado uma sensação
de bem-estar, inclusive levando-o a dizer muito mais do que o que
diria quando fica acuado.
Foi
um impacto grande a morte de Carmen Kozak para os seus
companheiros jornalistas e para os Parlamentares que conheciam a
sua seriedade. Portanto, quero que esta manifestação conste dos
Anais do Senado, de vez que a imprensa é partícipe dos trabalhos
da Casa; faz parte da dialética do próprio Parlamento a
repercussão na imprensa. E, dentro dessa relação tão complexa,
que às vezes até se transforma em uma relação de poder
conflitante, aqueles, tanto Parlamentares quanto jornalistas, que
se destacam nessa capacidade estão colaborando para o bom
andamento dos trabalhos.
Em
segundo lugar, quero encaminhar à Mesa um pedido para que, em
data a ser marcada, a Hora do Expediente da nossa sessão seja
dedicada a homenagear o político João Amazonas, que também
faleceu nesses dias. E, nada obstante não participar da sua visão
política, mas haver estado com ele em muitos episódios da vida
brasileira, em seus 90 anos, creio que é importante o Senado
Federal realizar uma sessão em homenagem àquela vida de coerência
e de grandeza.
Finalmente,
faço um terceiro registro, ainda doloroso, e esse não será
talvez de uma figura pública. Faleceu, em Minas Gerais, aos 80
anos, uma figura exemplar da Igreja Católica: o Padre Henrique de
Lima Vaz, que, nos anos 60, exerceu uma influência político-ideológico-doutrinária
muito grande sobre uma geração, na época em que a Igreja Católica
caracterizava-se por uma posição extremamente conservadora.
Refiro-me à Igreja pré-João XXIII. O Padre Henrique de Lima
Vaz, juntamente com o dominicano francês, até expulso
posteriormente do Brasil, o Frei Cardonel, e um outro padre francês,
o Padre Lebret, levantou a bandeira da causa social dentro da
doutrina da Igreja Católica.
O
Padre Henrique de Lima Vaz formou um grupo muito curioso de
jovens, à época, e eu estava entre eles e era o menos
qualificado entre todos. Também faziam parte do grupo Cacá
Diegues, extraordinário cineasta; o grande Betinho, essa espécie
de santo leigo da vida brasileira, o qual deixou uma legenda; e o
atual Deputado do Pc do B, à época católico, nosso companheiro
de geração e amigo de lutas, Aldo Arantes, Deputado Federal há
várias legislaturas por Goiás.
Enfim,
ele foi um grande pensador de uma ligação filosófica profunda
entre os ideais cristãos e os ideais de um pensamento social avançado.
Era um homem de extrema modéstia. Em um certo momento, foi
proibido, inclusive, de dar aulas. E, ainda assim, seja na formação
de religiosos posteriores, seja na formação de quadros políticos,
deixou sementes que prosperaram de uma maneira notável, pela sua
grande cultura. Ele, que era doutor em Filosofia pela Universidade
Gregoriana de Roma, tendo exercido durante muitos e muitos anos
este prodígio que é o professorado, era um professor humilde,
recatado, discreto, que deixou, porém, sementes inesquecíveis em
todos os que por ali passaram.
Também
o Movimento da esquerda católica chamado AP, que, até
recentemente e ainda agora, está presente na vida brasileira,
surgiu das idéias defendidas, nos anos 60, pelo Padre Henrique de
Lima Vaz. O atual candidato à Presidência da República José
Serra é oriundo da AP. O antigo Chefe da Casa Civil, Clóvis
Carvalho, é oriundo da AP. O Assessor do Presidente Fernando
Henrique Cardoso e o falecido ex-Ministro das Comunicações, Sérgio
Motta, vieram também dessa formação, dessa escola que percorreu
o pensamento católico por dentro e – eu até brincava com o
Presidente da República, dizendo que a AP era quem estava no
poder – tem origem naquele pensamento dos padres que tiveram a
coragem de aproximar as idéias sociais da Igreja da grande luta
por uma sociedade mais justa.
Faço,
com muito pesar, esses três registros, agradecendo a V. Exª pela
concessão do tempo e aos Srs. Senadores pela atenção às minhas
palavras.
*Pronunciamento
no senado Federal em 29/05/2002 |