|
|
Encontrava
tempo para visitar os enfermos e idosos e para ouvir e orientar
com ternura as pessoas que o procuravam.
Logo
que fiquei sabendo de sua operação, pedi a Deus por esse caro
irmão e amigo e desejava fazer-lhe uma visita no hospital, embora
rápida, para não cansá-lo. Qual não foi a surpresa de todos nós
ao recebermos a notícia de que, no dia 23/5, Deus acabava de chamá-lo,
aos 80 anos, para o prêmio de uma vida exemplar de dedicação a
Jesus Cristo e serviço aos irmãos.
Padre
Henrique Cláudio de Lima Vaz nasceu em Ouro Preto, em 24/8/1921.
Estudou no colégio Arnaldo, em Belo Horizonte. Aos 16 anos,
ingressou no noviciado da Companhia de Jesus. Revelou, desde a infância,
profunda sede da verdade, amor a Cristo e a Nossa Senhora e desejo
de se consagrar totalmente a Deus, como seu irmão, dom José
Carlos, jesuíta e bispo de Petrópolis, atestou na comovente
homilia da missa exequial.
Formado
em teologia e ordenado sacerdote em Roma (15/7/1948), obteve com
brilhantismo o doutorado em filosofia pela Universidade
Gregoriana. De volta ao Brasil, entregou sua vida ao serviço de
Deus no estudo e na formação de jovens religiosos, estendendo o
seu magistério a várias universidades.
Permita-me,
caro padre Henrique Vaz, hoje na "Casa do Pai",
dizer-lhe todo afeto e profunda admiração que lhe dedico.
Lembro-me do dia em que assumiu as aulas, em 1952, na Casa de
Formação dos Jesuítas em Nova Friburgo (RJ).
Unia
excelente preparação filosófica ao desejo de ajudar os alunos a
descobrir o fascínio da verdade e o método rigoroso do trabalho
intelectual. Suas aulas nos encantavam. Ficamos cativos de sua
paciência e de sua bondade com os jovens seminaristas, distantes
da acuidade de seu pensamento e da riqueza de sua erudição. O
domínio da língua grega assegurava-lhe a familiaridade com Platão
e com Aristóteles. Tornou-se um especialista em filosofia tomista
e medieval. Com denodo e argúcia, penetrou no pensamento de Hegel
e dos autores modernos e contemporâneos. Soube, em nossos dias,
propor com coragem intelectual o humanismo teocêntrico e o itinerário
do espírito para Deus.
Meu
caro padre Vaz, na sua pessoa transparecia a beleza do diálogo
interior com Deus na intensa vida de oração silenciosa. A
contemplação se abria para a conversa amiga e para a
profundidade mística com o Mestre do Amor e da Verdade. Os anos
passaram na busca constante da sabedoria no magistério e na
publicação de livros e artigos que formam hoje a melhor
contribuição de um filósofo brasileiro nos campos da metafísica,
da antropologia e da ética.
Seus
méritos tornaram-se ainda mais relevantes pela capacidade de
inserir-se no seu tempo e de compreender a complexidade dos
sistemas, os embates políticos, a angústia e as justas aspirações
da juventude. Homem de Deus, nos anos difíceis do governo
militar, soube - sem medo - defender a liberdade e sustentar a fé
dos que eram perseguidos. Encontrava tempo para visitar os
enfermos e idosos e para ouvir e orientar com ternura as pessoas
que o procuravam. Vejo o seu sorriso afável, discreto e acolhedor
e o seu olhar, que transmite a paz de quem em toda a vida busca
somente a Deus.
Hoje,
alegro-me vendo-o feliz, contemplando, na plena luz, Aquele que
sempre amou. Obrigado, padre Henrique, pela sua vida. É mensagem
de esperança. Faz-nos bem, em tempos obscuros e de atrofia do
pensamento, agradecer a Deus o exemplo desse irmão, que, com
harmonia, conjugou razão e fé, sabedoria e virtude,
simplicidade, despretensão e solicitude fraterna.
*Artigo
publicado no Jornal Folha de São Paulo de 01/06/2002 |