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Foi,
sem dúvida, entre nós, o precursor da Teologia da Libertação,
embora não tenha embarcado na onda de vedetismo por ela provocada
Atendendo
ao chamado do Pai, jesuíta disciplinado que sempre foi, partiu o
Pe. Vaz. Seu nome completo: Henrique Cláudio de Lima Vaz. Poderia
ter-se chamado de "Pe. Vez", porque sempre estava de
prontidão e nunca perdeu a "vez" de tomar atitudes
claras e corajosas, ditadas pela sua extraordinária lucidez.
Poderia ter-se chamado de "Pe. Voz", porque sempre
levantou a "voz" firme e profética nas horas de
perplexidades.
Conheci-o,
de fama, na década de 60. Considerado a maior cabeça filosófica
de sua geração, irradiando além de nossas fronteiras, através
de seus escritos revolucionariamente renovadores. Tornou-se uma
espécie de "guru" da Juventude Universitária Católica.
Seus escritos eram lidos, debatidos, decorados, citados como um
facho de luz que iluminava o labirinto e as sombras das análises
de estrutura e de conjuntura que apaixonavam os estudantes mais
despertos e comprometidos daquela época.
Foi,
sem dúvida, entre nós, o precursor da Teologia da Libertação,
embora não tenha embarcado na onda de vedetismo por ela
provocada. Correu o risco consciente de certa marginalização.
Quando
o conheci pessoalmente, impressionou-me sua cordialidade espontânea,
discreta e modesta, serena e tranqüila, sólida e íntegra. Não
era efusivo. Despertava confiança pela densidade das palavras e
dos gestos. Nenhum exagero. Nenhum artifício. Total transparência.
Estávamos,
um grupo de Religiosas e Religiosos, refletindo em comum sobre a
renovação da vida religiosa, ao bafejo do Concílio Vaticano II.
Quando se falou do Voto de Pobreza, Pe. Vaz, sem arroubos mas com
a voz calma do crítico percuciente, soltou: "Pobreza
institucionalizada é um contradictio in terminis".
Abriram-se os horizontes e o debate se encaminhou no sentido de
vivenciar o Voto de Pobreza na solidariedade com os pobres e na
luta contra um sistema econômico que condena o Povo à pobreza.
Eliminar a pobreza na sociedade deve caracterizar a ação de quem
se consagra à Pobreza. Não uma Pobreza abstrata, regulamentada
por normas inócuas e hipócritas, mas a pobreza real e clamorosa
que corroe o tecido social.
Quando
do assassinato do estudante Edson Luís pela polícia, no Rio de
Janeiro, houve uma grande comoção dos estudantes. Dom Serafim,
Reitor da PUC/MG, pediu ao Pe. Ozanan Coelho para providenciar a
minuta de uma nota de solidariedade a ser publicada em seu nome.
Reuniu-se uma equipe para isso. Foi feita uma primeira redação
truculenta cujos termos não se ajustavam à altura do cargo de
Reitor que requer moderação e equilíbrio. A equipe resolveu
transformar aquele texto num manifesto a ser assinado por padres.
Solicitado, Pe. Vaz leu o texto com atenção e, sem vacilar, apôs
sua assinatura. Esse manifesto provocou um IPM, presidido pelo
Coronel Euclides de Figueiredo. Intimado a depor, Pe. Vaz lembrou
ao coronel que seu pai, o General Euclides de Figueiredo, foi
punido nos anos 30 pelo arbítrio de um governo golpista. Era uma
sutil chamada à consciência.
Quando
o Dominicano Frei Mateus Rocha nos foi arrebatado por um acidente
fatal, compareceu à missa de 7º dia. Escrevi-lhe depois, pedindo
um depoimento sobre o Frei Mateus. Respondeu-me delicadamente
excusando-se por não o ter conhecido o suficiente para dar um
testemunho sincero e autêntico.
A
última vez que estive com Pe. Vaz foi na fundação do instituto
Jacques Maritain. Com acerto, convocaram-no para Presidente.
Apesar de ter-se recolhido ao "retiro" do ISI, aceitou
com magnanimidade esse "onus" e não "honra".
Fez um primoroso balanço de toda a obra de Maritain, intercalando
comentários luminosos e apreciações corretas, no seu estilo
enxuto e cortante. Mais do que pensador profundo, professor
brilhante e convincente, Pe. Vaz foi e é o mestre sábio com o
dom de transformar "alunos" atentos em "discípulos"
inspirados, herdeiros de um patrimônio intelectual e espiritual.
VAZ
rima com PAZ. Pe. Vaz era um gênio da Paz. Inflamava-se com as
causas que esposava mas nunca se exaltava. Cheio de espírito de
Deus que, enviado por Jesus Ressuscitado, manifestou-se em um
vento impetuoso e em chamas, Pe. Vaz recebeu efusivamente a chama
do Espírito que brilhou no seu talento de teólogo, filósofo e
antropólogo.
Repouse
na Paz onde jaz. Viva na Paz infinita da mansão do Pai. Recquiescat
in Pace!
*Artigo
oferecido à família pelo autor em junho de 2002 |