Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Ao mestre com carinho 
José Tavares de Barros
presidente no Brasil da
Organização Católica
Internacional de Cinema (OCIC)
e professor de comunicação no CES da Companhia de Jesus em BH

 

 

padre Vaz abria mão de outros compromissos para apreciar, com perspicácia e encantamento, as grandes obras da sétima arte

Minha convivência seguida de oito anos com o padre Henrique Cláudio de Lima Vaz começou em 1954. Quando cheguei ao Colégio Anchieta, de Nova Friburgo, para fazer dois anos de Humanidades, antes do curso de Filosofia, tive a chance e a felicidade de encontrá-lo, como superior e orientador de estudos. Sem nunca abrir mão de uma rigorosa disciplina mental, ele tinha o dom de se colocar ao alcance dos estudantes que dirigia e orientava. Percebia imediatamente as capacidades; os limites e os sonhos de cada um, sem nunca demonstrar impaciência, mesmo quando devia interromper a leitura dos numerosos volumes que sempre tinha abertos sobre sua mesa. Naquela época, a par das excelentes aulas de Cosmologia, que superavam as amarras do método escolástico, ele estava mergulhado por inteiro na Filosofia das Ciências e na leitura dos Diálogos de Platão, valendo-se do aparato crítico mais recente.

Medíocre aprendiz de grego, contei-lhe que gastava um tempo enorme ao tentar ler Ésquilo no texto original. Seu conselho marcou minha vida intelectual. Não abandone o vocabulário e a gramática da língua, disse-me, mas aproveite seu tempo para ler as tragédias na boa tradução francesa que temos na biblioteca. Leia também a Paideia, de Jaegger, e lá você encontrará as chaves da cultura ocidental. De um golpe só, graças ao padre Vaz, não só conheci a dramaturgia de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, mas também iniciei-me na língua francesa, que me seria útil pelo resto da vida. Dessa forma, com a maior simplicidade, padre Vaz propunha portas que nos permitiram superar, por assim dizer, as contingências do currículo acadêmico.

"Por assim dizer" era uma expressão cara ao padre Vaz. Ele ouvia, conversava, sugeria, nunca impunha idéias. Você já leu A Descoberta do Outro, do Corção? E Chesterton? E Maritain? Vale a pena conhecer Bemanos e a poesia de Paul Claudel! Sem nunca fazer cobranças, descontraído, ele nos fazia descobrir as visões de mundo e os estilos desses autores. Apaixonei-me pela literatura quando, por sugestão sua, li quase todos os sermões de Vieira na belíssima edição fac-símile.

Teatro

Todos nós queríamos demonstrar reconhecimento pela atenção que o padre Vaz nos dedicava. Uma ocasião surgiu quando ele fez os votos perpétuos na Companhia de Jesus. Cumpridos os ritos da celebração, era costume encerrar o dia com um sarau festivo. Em lugar de números convencionais de poesia e música, decidimos oferecer-lhe a montagem teatral de A Fidalga do Vale, auto sacramental de Calderón de la Barca. Quando a cortina do palco se abriu, surpreendido pela ousadia, padre Vaz gelou literalmente, ao imaginar como resultaria nosso desafio de representar o embate mítico entre a Culpa e a Graça, sem uma orientação profissional. Tranqüilizou-se logo e, como nos contaria mais tarde, entusiasmou-se pela pertinência da mise-en-scène e da interpretação. Ele nunca se esqueceria da homenagem, como me lembrou mais uma vez num almoço que tive a honra de partilhar com ele, em fevereiro último, na comunidade do Instituto Santo Inácio, em Belo Horizonte. Vejo ainda o padre Vaz, nas tardes das quartas-feiras, de olhos fechados, ouvindo acordes das peças de Bethoven, Debussy e Mozart, na sua maneira muito pessoal de transitar das puras idéias às vibrações de uma estética refinada.

Cinema

Programador de cinema durante rninha permanência no Colégio Anchieta, eu me punha sempre na trilha dos cineastas mais importantes daquele momento, como Fellini, o Kurosawa de Os sete samurais, o René Clair de Por ternura também se mata, Marcel Carné, Hitchcock, o George Stevens de Os brutos também amam. Sempre bem informado, padre Vaz abria mão de outros compromissos para apreciar, com perspicácia e encantamento, as grandes obras da sétima arte. E, sobretudo, para compartilhar conosco as suas descobertas. Lembro-me da leitura admirável que fez de Os Visitantes da Noite, de Marcel Carné. Transformados em estátuas de pedra pelo diabo, os enamorados do filme continuavam a viver na batida de seus corações. A partir dessa alegoria, que criticava o absurdo da dominação nazista, os comentários do padre Vaz tiveram o condão de abrir nossos olhos para o conceito e a sensibilidade do amor medieval.

O auge daquelas conversações inigualáveis sobre cinema foi atingido com as repetidas exibições de La Strada, de Federico Felimi. Padre Vaz soube encontrar a essência das personalidades da Gelsomina, do Zampanó e do Matto e partilhar conosco sua vibração com a proposta do cineasta, apesar de viverem ambos em mundos radicalmente opostos. Quero dizer, sem encontrar a melhor palavra, que a profundidade filosófica do padre Vaz tinha raízes, que ele discretamente escondia, no conhecimento sensível e amplo da complexidade do ser humano. E que os grandes filmes lhe davam a oportunidade de antecipar a expressão do "cuidado", do qual tanto se fala hoje em dia. Muito modestamente, aprendi com o padre Vaz a buscar as significações ocultas das imagens cinematográficas. A quem abriu as portas do meu amor pelo cinema, minha homenagem, com carinho.

*Artigo publicado no Jornal de Opinião de 10 a 16/06/2002

voltar

Teodoro Magni - maio de 2002