Minha
convivência seguida de oito anos com o padre Henrique Cláudio de
Lima Vaz começou em 1954. Quando cheguei ao Colégio Anchieta, de
Nova Friburgo, para fazer dois anos de Humanidades, antes do curso
de Filosofia, tive a chance e a felicidade de encontrá-lo, como
superior e orientador de estudos. Sem nunca abrir mão de uma
rigorosa disciplina mental, ele tinha o dom de se colocar ao
alcance dos estudantes que dirigia e orientava. Percebia
imediatamente as capacidades; os limites e os sonhos de cada um,
sem nunca demonstrar impaciência, mesmo quando devia interromper
a leitura dos numerosos volumes que sempre tinha abertos sobre sua
mesa. Naquela época, a par das excelentes aulas de Cosmologia,
que superavam as amarras do método escolástico, ele estava
mergulhado por inteiro na Filosofia das Ciências e na leitura dos
Diálogos de Platão, valendo-se do aparato crítico mais recente.
Medíocre
aprendiz de grego, contei-lhe que gastava um tempo enorme ao
tentar ler Ésquilo no texto original. Seu conselho marcou minha
vida intelectual. Não abandone o vocabulário e a gramática da língua,
disse-me, mas aproveite seu tempo para ler as tragédias na boa
tradução francesa que temos na biblioteca. Leia também a
Paideia, de Jaegger, e lá você encontrará as chaves da cultura
ocidental. De um golpe só, graças ao padre Vaz, não só conheci
a dramaturgia de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, mas também
iniciei-me na língua francesa, que me seria útil pelo resto da
vida. Dessa forma, com a maior simplicidade, padre Vaz propunha
portas que nos permitiram superar, por assim dizer, as contingências
do currículo acadêmico.
"Por
assim dizer" era uma expressão cara ao padre Vaz. Ele ouvia,
conversava, sugeria, nunca impunha idéias. Você já leu A
Descoberta do Outro, do Corção? E Chesterton? E Maritain? Vale a
pena conhecer Bemanos e a poesia de Paul Claudel! Sem nunca fazer
cobranças, descontraído, ele nos fazia descobrir as visões de
mundo e os estilos desses autores. Apaixonei-me pela literatura
quando, por sugestão sua, li quase todos os sermões de Vieira na
belíssima edição fac-símile.
Teatro
Todos
nós queríamos demonstrar reconhecimento pela atenção que o
padre Vaz nos dedicava. Uma ocasião surgiu quando ele fez os
votos perpétuos na Companhia de Jesus. Cumpridos os ritos da
celebração, era costume encerrar o dia com um sarau festivo. Em
lugar de números convencionais de poesia e música, decidimos
oferecer-lhe a montagem teatral de A Fidalga do Vale,
auto sacramental de Calderón de la Barca. Quando a cortina do
palco se abriu, surpreendido pela ousadia, padre Vaz gelou
literalmente, ao imaginar como resultaria nosso desafio de
representar o embate mítico entre a Culpa e a Graça, sem uma
orientação profissional. Tranqüilizou-se logo e, como nos
contaria mais tarde, entusiasmou-se pela pertinência da mise-en-scène
e da interpretação. Ele nunca se esqueceria da homenagem, como
me lembrou mais uma vez num almoço que tive a honra de partilhar
com ele, em fevereiro último, na comunidade do Instituto Santo Inácio,
em Belo Horizonte. Vejo ainda o padre Vaz, nas tardes das
quartas-feiras, de olhos fechados, ouvindo acordes das peças de
Bethoven, Debussy e Mozart, na sua maneira muito pessoal de
transitar das puras idéias às vibrações de uma estética
refinada.
Cinema
Programador
de cinema durante rninha permanência no Colégio Anchieta, eu me
punha sempre na trilha dos cineastas mais importantes daquele
momento, como Fellini, o Kurosawa de Os sete samurais, o René
Clair de Por ternura também se mata, Marcel Carné, Hitchcock, o
George Stevens de Os brutos também amam. Sempre bem informado,
padre Vaz abria mão de outros compromissos para apreciar, com
perspicácia e encantamento, as grandes obras da sétima arte. E,
sobretudo, para compartilhar conosco as suas descobertas.
Lembro-me da leitura admirável que fez de Os Visitantes da Noite,
de Marcel Carné. Transformados em estátuas de pedra pelo diabo,
os enamorados do filme continuavam a viver na batida de seus corações.
A partir dessa alegoria, que criticava o absurdo da dominação
nazista, os comentários do padre Vaz tiveram o condão de abrir
nossos olhos para o conceito e a sensibilidade do amor medieval.
O
auge daquelas conversações inigualáveis sobre cinema foi
atingido com as repetidas exibições de La Strada, de Federico
Felimi. Padre Vaz soube encontrar a essência das personalidades
da Gelsomina, do Zampanó e do Matto e partilhar conosco sua vibração
com a proposta do cineasta, apesar de viverem ambos em mundos
radicalmente opostos. Quero dizer, sem encontrar a melhor palavra,
que a profundidade filosófica do padre Vaz tinha raízes, que ele
discretamente escondia, no conhecimento sensível e amplo da
complexidade do ser humano. E que os grandes filmes lhe davam a
oportunidade de antecipar a expressão do "cuidado", do
qual tanto se fala hoje em dia. Muito modestamente, aprendi com o
padre Vaz a buscar as significações ocultas das imagens
cinematográficas. A quem abriu as portas do meu amor pelo cinema,
minha homenagem, com carinho.