Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

O vigor de um humanista 
Faustino Teixeira

doutor em Teologia dogmática e coordenador do
Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da

Universidade Federal de Juiz de Fora

 

 

No limiar de sua vida, o tema da experiência mística foi alcançando um lugar cada vez mais decisivo em sua reflexão

Desde o dia 23 de maio estamos todos um pouco órfãos com a perda de um de nossos maiores pensadores brasileiros, o padre Henrique Cláudio de Lima Vaz. Este mineiro, nascido em Ouro Preto, dedicou toda a sua vida ao ensino da Filosofia, tendo publicado obras fundamentais como "Ontologia e História", "Antropologia Filosófica 1 e II" e os diversos escritos de Filosofia.

Uma parte significativa de sua vida acadêmica foi dedicada aos alunos do curso de Filosofia da UFMG e da Faculdade de Filosofia do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus (Belo Horizonte). O seu vigoroso pensamento humanista influenciou universitários de todos os âmbitos do Brasil.

Nas raízes da reflexão filosófica dos jovens cristãos da JUC nos anos 50 e 60, está a presença do padre Vaz e sua defesa vigorosa de uma consciência histórica e de um realismo da encarnação. Naquele período, os jovens cristãos estavam em busca de um instrumental filosófico que reforçasse o seu compromisso de engajamento na sociedade. Encontraram em padre Vaz a intuição que alimentava a busca coletiva: a perspectiva da consciência histórica. Para Vaz, "uma consciência histórica surge e se afirma quando uma critica radical põe em questão todo um mundo de cultura e uma nova 'imagem do mundo' começa a ser buscada". O engajamento dos jovens universitários da JUC encontrava guarita na reflexão de Vaz, para o qual a consciência histórica do cristianismo afirmava a presença do Absoluto "no mais íntimo da trama histórica". Mesmo quando ameaçados e perseguidos, esses jovens encontraram o apoio firme desse intelectual humanista. Sua defesa vem expressa em textos esclarecedores, como os publicados no livro "Cristianismo hoje", organizado por Herbert José de Souza (o Betinho) e Luiz Alberto Gómez de Souza (Editora Universitária, 1962). Essa é uma das facetas desse grande intelectual, que marcou sua trajetória sobretudo pelo vigor acadêmico. O seu reconhecimento neste âmbito é inconteste, tanto em nível nacional como mais amplo, constituindo-se um dos grandes especialistas da filosofia de Hegel, bem como da reflexão sobre Platão, pensador ao qual dedicou boa parte de sua atenção.

Nos últimos anos, sua produção filosófica ganhou grande divulgação com os trabalhos publicados pelas Edições Loyola, mas igualmente pelos brilhantes artigos e editoriais divulgados pela revista filosófica Síntese, à qual dedicou grande empenho nos últimos anos.

Os temas da ética e do humanismo foram sempre centrais em sua reflexão, bem como sua preocupação crescente com os rumos da modernidade. Em sua visão, a idéia do ser humano, longamente gestada no seio das tradições grega, antropológica-latina e bíblico-cristã, encontrou impasse na modernidade moderna, com a afirmação de um autonomia absoluta do ser humano e o abalo sísmico correspondente, ou seja, a instauração "da primeira civilização não-religiosa da História".
Para padre Vaz, a hesitação da modernidade na relação com a transcendência é motivo de preocupação, pois o ser humano não pode ser captado de forma destacada dessa referência essencial. Em iluminado artigo sobre o tema da religião e a modernidade filosófica (1990), levanta importantes questionamentos sobre os rumos do pensamento moderno em sua linha de ruptura com a religião, e abre espaço para a singularidade da religião vivida e sua "tensão" com a religião pensada. Como indica, há um momento onde os saberes da modernidade se calam e a experiência da santidade é a única possível e capaz de captar a dimensão de insondável profundidade do ser humano.

No limiar de sua vida, o tema da experiência mística foi alcançando um lugar cada vez mais decisivo em sua reflexão, como coroamento de uma trajetória sempre definida como entrega e gratuidade.

Num de seus últimos trabalhos, sobre a experiência mística e filosófica na tradição ocidental (2000), padre Vaz indica que a experiência mística e a experiência política "configuram os dois pólos ordenadores do complexo e extraordinário rico universo da experiência humana, traduzindo as duas formas mais altas de auto-realização do individuo na sua abertura para o Absoluto e para o Outro". Termina o livro anunciando a "secreta esperança" de uma retomada de interesse da humanidade pelo "sol da Transcendência", eclipsado pelos caminhos antropocêntricos da modernidade moderna.

*Artigo publicado no Jornal de Opinião de 10 a 16/06/2002

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Teodoro Magni - maio de 2002