1961.
Eu era deputado estadual pelo Rio, Constituinte. A capital
mudara-se para Brasília, o Rio virara o Estado da Guanabara.
Tinha 25 anos, estalava de idealismo, ingênuo, saboreava com
alegria a generosa juventude. Em outra escala e intensidade, sou
assim até hoje...
Tínhamos
uma turma da qual eu era o menos qualificado intelectualmente: Cacá
Diegues, o hoje grande cineasta; Betinho, esse santo leigo que
emocionou o Brasil com sua campanha contra a fome; Raul Landim,
professor de Filosofia, cultura do tamanho de sua modéstia
imensa; Marcos Alencar, que partiu cedo, grande caráter, flor de
pessoa, sociólogo dos bons; Arnaldo Jabor e seu tonitroante
talento; Aldo Arantes, então presidente da UNE, hoje deputado
federal pelo PC do B de Goiás, à época católico.
Este
grupinho fez algumas reuniões com um padre, de, então, uns 40
anos, chamado Henrique de Lima Vaz. Filósofo, homem de enorme
cultura, manso, seguro do que falava. Eram tempos pré-João XXIII
e a Igreja era, deveras, reacionária no Brasil. João XXIII viria
em 1963 para rasgar um clarão de lucidez no universo católico de
então. Padre Vaz era jesuíta, ordem disciplinada dominada à época
por padres espanhóis que apoiavam Franco na Espanha, cultos, mas
cabeças de direita, interessadas só em formar quadros para a
elite dirigente, no empresariado e na vida pública.
E
nós todos éramos da PUC, menos o Raul Landim, o mais católico
de todos. Mas éramos inquietos, espoucava em nosso idealismo a
certeza de que fora do socialismo não haveria saída. Padre Vaz
deu-nos aulas. Luminoso! Coerente! Suave! Verbalizador notável,
juntava o sentido cristão profundo com uma inserção no mundo,
na ação política, na luta pela transformação da sociedade.
Padres como ele?
Poucos,
à época, o Padre Uebret e um francês, dominicano, creio que
amigo do Vaz, o Frei Cardonell que por aqui passara para o
deslumbramento da estudantada de esquerda. Muito aprendemos como
Padre Henrique de Uma Vaz.
Muito
aprendemos com o padre Vaz
Passaram-se
mais de 40 anos. Nunca mais pude vê-lo. Perseguido em silêncio
mas modesto, sereno e recolhido por natureza, aprofundou-se no
estudo. Depois, lecionou para padres e outros alunos de Filosofia.
E sem alarde colocou sementes que germinaram neles e em todos nós,
responsáveis por sermos até hoje, cada qual em seu caminho, os
mesmos rapazes idealistas daquele tempo, cada qual com seu modelo,
estilo, desilusões, esperanças, defeitos e sonhos. Mas
resistentes. Aqui estamos a lutar até hoje. Sabedores de sua
morte semana passada, aos 80 anos, enviamos ao Mistério uma oração
de paz por um verdadeiro sacerdote e agradecemos a ele e a Deus a
benção de prosseguirmos, hoje maduros e sessentões, na luta que
sempre nos uniu, ele como um sábio e nós como soldados a paz, da
justiça e da liberdade.