Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

O padre Vaz 
Artur da Távola

Senador - PSDB-RJ

 

 

E sem alarde colocou sementes que germinaram neles e em todos nós, responsáveis por sermos até hoje, cada qual em seu caminho, os mesmos rapazes idealistas daquele tempo 

1961. Eu era deputado estadual pelo Rio, Constituinte. A capital mudara-se para Brasília, o Rio virara o Estado da Guanabara. Tinha 25 anos, estalava de idealismo, ingênuo, saboreava com alegria a generosa juventude. Em outra escala e intensidade, sou assim até hoje...

Tínhamos uma turma da qual eu era o menos qualificado intelectualmente: Cacá Diegues, o hoje grande cineasta; Betinho, esse santo leigo que emocionou o Brasil com sua campanha contra a fome; Raul Landim, professor de Filosofia, cultura do tamanho de sua modéstia imensa; Marcos Alencar, que partiu cedo, grande caráter, flor de pessoa, sociólogo dos bons; Arnaldo Jabor e seu tonitroante talento; Aldo Arantes, então presidente da UNE, hoje deputado federal pelo PC do B de Goiás, à época católico.

Este grupinho fez algumas reuniões com um padre, de, então, uns 40 anos, chamado Henrique de Lima Vaz. Filósofo, homem de enorme cultura, manso, seguro do que falava. Eram tempos pré-João XXIII e a Igreja era, deveras, reacionária no Brasil. João XXIII viria em 1963 para rasgar um clarão de lucidez no universo católico de então. Padre Vaz era jesuíta, ordem disciplinada dominada à época por padres espanhóis que apoiavam Franco na Espanha, cultos, mas cabeças de direita, interessadas só em formar quadros para a elite dirigente, no empresariado e na vida pública.

E nós todos éramos da PUC, menos o Raul Landim, o mais católico de todos. Mas éramos inquietos, espoucava em nosso idealismo a certeza de que fora do socialismo não haveria saída. Padre Vaz deu-nos aulas. Luminoso! Coerente! Suave! Verbalizador notável, juntava o sentido cristão profundo com uma inserção no mundo, na ação política, na luta pela transformação da sociedade. Padres como ele?

Poucos, à época, o Padre Uebret e um francês, dominicano, creio que amigo do Vaz, o Frei Cardonell que por aqui passara para o deslumbramento da estudantada de esquerda. Muito aprendemos como Padre Henrique de Uma Vaz.

Muito aprendemos com o padre Vaz

Passaram-se mais de 40 anos. Nunca mais pude vê-lo. Perseguido em silêncio mas modesto, sereno e recolhido por natureza, aprofundou-se no estudo. Depois, lecionou para padres e outros alunos de Filosofia. E sem alarde colocou sementes que germinaram neles e em todos nós, responsáveis por sermos até hoje, cada qual em seu caminho, os mesmos rapazes idealistas daquele tempo, cada qual com seu modelo, estilo, desilusões, esperanças, defeitos e sonhos. Mas resistentes. Aqui estamos a lutar até hoje. Sabedores de sua morte semana passada, aos 80 anos, enviamos ao Mistério uma oração de paz por um verdadeiro sacerdote e agradecemos a ele e a Deus a benção de prosseguirmos, hoje maduros e sessentões, na luta que sempre nos uniu, ele como um sábio e nós como soldados a paz, da justiça e da liberdade.

*Artigo publicado no jornal O Dia de 30/05/2002

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Teodoro Magni - maio de 2002