Extinguiu-se
no dia 23 de maio uma das luzes mais fulgurantes da inteligência
católica deste país. O padre Vaz deixa-nos uma herança
intelectual de peso incalculável. Uniu em sua pessoa cultura vastíssima
e vida de extrema simplicidade e dedicação. Do silêncio do
quarto de estudioso vasculhou horizontes amplos do pensar humano
para iluminar a realidade do País e projetar luzes para o futuro.
Em
momento importante do itinerário político do Brasil na década
de 60, quando a juventude católica se sentia dilacerada entre
duas forças extremadas de um conservadorismo sem futuro e de um
progressismo marxista à custa da fé, Henrique Vaz, com seu
brilhante trabalho sobre a Consciência Histórica, abriu-lhe
trilhas que até hoje são fecundas. Acompanhou jovens irrequietos
intelectualmente com a paciência e profundidade de mestre, também
ele jovem, ajudando-os a encontrar luz no túnel escuro da
realidade brasileira. No período dos governos militares,
dedicou-se pacientemente a estudos sobre a obra de Hegel, o filósofo
maior da modernidade. Buscava ir mais fundo no conhecimento do
processo cultural por que passávamos, a fim de entendê-lo e de
apontar caminhos novos.
Nos
anos de maior maturidade, voltou-se mais uma vez aos clássicos de
onde partira. Do mundo grego, Platão e Aristóteles, e, do mundo
cristão, Santo Agostinho e Santo Tomás lhe serviam de guias.
Escreveu nas últimas décadas obras de enorme valor sobre
antropologia filosófica e ética. Preocupava-o sobremaneira
entender, interpretar e iluminar a modernidade que nos assedia de
todos os lados. Tinha um instinto de suspeita diante das afirmações
óbvias e consideradas evidentes no universo dos slogans.
Nada
é tão alardeado hoje como a necessidade de modernizar-se. E tudo
o que desafina desse canto monocórdio é rejeitado como
antiquado. Face à sedução da modernidade, procurou desvelar-lhe
os movimentos internos. Confrontou-a com o absoluto. Soube
descobrir-lhe o valor de criar uma nova imagem do mundo, de
permitir a emergência da subjetividade. No entanto, não se
deixou iludir pela pretensão prometêica de uma razão humana
absoluta, de uma imanência sem abertura para a transcendência.
Poucos dias antes de sua morte, aparece seu último livro sobre as
raízes da modernidade. Henrique Vaz batalhou no campo das idéias
para retomar o diálogo sadio entre fé e razão, tal como o
vivera, a seu modo, Santo Tomás no momento áureo do pensamento
escolástico medieval. Já de dentro de uma modernidade pós-cristã,
que rompeu os vínculos entre essas duas luzes fundamentais da
existência humana, quis reencontrar as possibilidades de um novo
encontro. Nisso seguiu as linhas traçadas por João Paulo II na
importante encíclica Fides et ratio.
Não
teria sido pouco ter cumprido essa brilhante missão de
intelectual até o fim da vida. Henrique Vaz deixou a lição de
um mestre diferente. Num mundo acadêmico, tão seduzido pela
titulagem abundante e por uma vaidade autocentrada, conservou-se
extremamente modesto e simples. Nunca se escondeu detrás de
honrarias nem usou de sua cultura e erudição assombrosa para
humilhar algum adversário na esgrima intelectual. Praticou
eximiamente o conselho do seu mestre de ordem, Santo Inácio, de
sempre salvar a proposição do próximo. Era uma figura suave e
desarmada. Qualquer um podia aproximar-se dele sem temor
reverencial. Quem lhe ouvisse as homilias nas missas dominicais,
simples e puras, nunca se imaginaria estar diante do filósofo das
obras de profundezas inesgotáveis.
Unir
a profundidade e agudeza de pensamento com uma simplicidade e
pureza de vida fez dele uma figura singular de mestre. Sua presença
continua viva entre nós nas letras e no exemplo deixado.