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Sob
a aparência simples e sempre afável, havia um mestre e um homem
de pensamento
Henrique
Cláudio de Lima Vaz, S. J., o padre Vaz, deixou-nos
definitivamente na noite de Quinta-feira última. Ouro Preto,
Roma, Friburgo e Belo Horizonte foram as estações de sua
extraordinária jornada de vida e de reflexão.
Sob
a aparência simples e sempre afável, havia um mestre e um homem
de pensamento. Vaz foi uma figura singular. Não se limitava a
repetir teorias e doutrinas filosóficas, como a maioria dos que
se dedicam à filosofia em nossas paragens, nem foi simplesmente
um grande erudito.
Embora
dotado de invulgar conhecimento, era, antes de tudo, um pensador
vigoroso e original, que mantinha diálogos criativos com os
gigantes do saber. Tinha um pensamento próprio e engajado,
marcado pela problematização das questões éticas, políticas e
religiosas.
Era
uma cabeça rara, com agudo poder de análise e de síntese.
É
de sua lavra o capítulo filosófico do "Documento de
Base", o ideário da Ação Popular (AP), movimento político
a que tenho orgulho de ter pertencido e do qual faziam parte
Betinho, Antônio Octávio Cintra, Raul Landim, Paulo Haddad, Hugo
Amaral e muitas outras figuras que ainda hoje participam do mundo
acadêmico e político do país.
Conheci
padre Vaz nos idos dos anos 60, quando se instalou em Belo
Horizonte e começou a ensinar na Fafich, vindo de Friburgo. Seu
primeiro curso ainda o tenho vivo na memória. A sala estava
sempre repleta. Alunos assentavam-se no chão e até no corredor,
próximo à porta. Não havia espaço para os que queriam ouvi-lo.
Vaz
levou-nos a uma monumental caminhada pela história da filosofia.
Contestava a tese de Émile Brehier de que não existia uma
filosofia cristã. Começando pela tragédia grega e pelos pré-socráticos,
Vaz foi pouco e pouco mostrando como as categorias do pensamento
grego foram fecundados pelos conteúdos bíblico-cristãos,
desembocando nas sínteses de santo Agostinho e são Tomás de
Aquino.
Percorreu
o longo itinerário da filosofia ocidental dos gregos a Kant,
parando em Hegel, Marx, Nietzsche, até chegar aos
existencialistas, demonstrando com argumentos persuasivos o
encontro sempre renovado do cristianismo com o pensamento central
de cada tempo. Suas paixões intelectuais foram Platão, na
mocidade, objeto de sua tese de doutorado, e Hegel na maturidade.
Tendo
enveredado pelos caminhos da ciência política, tivemos pouca
convivência desde os tempos em que fui seu aluno. A última vez
que o vi foi quando recebeu o titulo de professor emérito da UFMG
e falamos rapidamente de política e dos artigos que aqui escrevo.
Henrique
Cláudio de Lima Vaz, mineiro de Ouro Preto, jesuíta, filósofo e
professor, espalhou luz a seu redor por toda sua vida e deixou um
legado de pensamento e reflexão. Foi um sábio. O único que
conheci. Hoje habita a morada do ser.
*Artigo
publicado no jornal O Tempo 25/05/2000 |