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"o
melhor que você pode fazer é vestir o casaco do padre Vaz"
Depois
de um atribulado período de liberdade vigiada, em que sofria
sempre novas prisões em Belo Horizonte e com uma tuberculose,
corroendo o pulmão direito, que seria tratada numa internação
de seis meses na clínica da Universidade de Louvaim, na Bélgica,
pude, graças à corrupção generalizada do governo Ademar de
Barros, comprar, em São Paulo, um passaporte por CR$ 50 mil. As
generosas amizades que me emprestaram a quantia decidiram também
não aceitar devolução. Zarpei, então, com o conforto destas
amizades, do porto de Santos, em 1º de outubro de 1964, no
transatlântico Queen Elizabeth, que me deixou em Lisboa,
prosseguindo o seu trajeto para a Inglaterra. Subi, lentamente, de
trem, a península - com uma agradável parada em Madri até
Paris, onde cheguei na manhã fria de 16 de outubro. Eu era o
primeiro correio com notícias vividas dos acontecimentos
nacionais para os companheiros que moravam ali ou que, em viagem
ao exterior, tiveram sua volta ao Brasil interrompida com a notícia
do golpe militar.
Ao
sair, na manhã seguinte, ouvi a grata recomendação do meu
cicerone, Sergio Menezes, que criticava as "roupas de
frio" brasileiras que eu trajava: "o melhor que você
pode fazer é vestir o casaco do padre Vaz". Era um sobretudo
clássico, de lã, que se me ajustou muito bem - não obstante a
pequena estatura física do seu dono - e protegeu-me, assim, nos
três primeiros dias que passei na Cidade Luz. Partindo
para a Itália, deixei-o no lugar em que se encontrava com a santa
missão de acobertar outros que por ali chegassem.
Sérgio
e Maria do Carmo, da Juventude Universitária Católica (JUC)
carioca, sempre em estreito contato de estudos e de convivência
espiritual com o padre Vaz, que ensinava em Friburgo (RJ),
terminaram seus cursos de graduação e partiam para prosseguir os
estudos em Paris. Despedindo-se do mestre, ouviram-no propor, num
gesto de cálida e sincera humanidade que lhe era congênita, que
levassem - para enfrentar o frio europeu - o casaco que usara nos
seus oito anos de Europa.
Recordo
o episódio, comovido e saudoso, como tantos outros que, no Brasil
e mundo afora, tivemos o privilégio de conhecer e conviver com
essa figura de tão legítimo destaque intelectual, político e
humano que foi o padre Henrique Cláudio de Lima Vaz que acaba de
nos deixar para sempre.
Iniciar-se-á,
agora, certamente, mais ampla e profundamente do que quando com
ele convivíamos o balanço da enorme dívida humana, moral,
intelectual e de orientação política que várias gerações de
estudantes e estudiosos têm para com este mestre intelectual,
rigoroso, brilhante e dedicado, que viveu, no entanto, o seu
longo, fértil e luminoso percurso como um verdadeiro pastor de
almas simples, como aquelas com quem se entretinha, piedosamente,
nas missas que celebrava, regularmente, na capela do Colégio
Marconi [Roma], onde foi ordenado sacerdote em l5/7/48.
*Artigo
publicado no jornal Estado de Minas de 29/05/2000
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