Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Padre Henrique Vaz:
A filosofia de nossa praxis

Herbert de Souza (Betinho)

Sociólogo

 

 

Padre Henrique Vaz aparecia para nós como um pensador competente, criador e contemporâneo

Foi esse exatamente o impacto do pensamento de Pe. Vaz em nossa geração, no começo dos anos 60.

Não que nos faltasse contato com a filosofia. O que faltava era relação entre a filosofia que conhecíamos e a nossa prática. Nosso aprendizado da filosofia foi marcado pelo autodidatismo e pela pressa de quem buscava respostas para os grandes problemas de nossa época.

No entanto, se faltava um conhecimento profundo da filosofia, não nos faltava a vontade de estudá-la e essa foi uma característica da geração que conheci e que me chama a atenção quando retomo hoje a lembrança daquele tempo.

Por que essa procura? Por que a filosofia? Como se deu a passagem da filosofia para a economia e a política?

Houve um itinerário que creio ter sido comum a muitas pessoas no Brasil e em várias partes do mundo: do tomismo ao personalismo e do personalismo ao estudo do marxismo. De São Tomás a Maritam, Teilhard de Chardin, Mounier e Marx, pelas mãos dos dominícanos e jesuítas.

Nosso contato com o Tomísmo, no convento dos Dominicanos em Belo Horizonte e nas noites de estudo com o casal Laterza, abriram algumas frestas para trás Aristóteles, Platão) e para frente, porém o mais importante foi ter sido um exercício de pensar. O contato com o Tomismo não passou de um encontro com a lógica e com a idéia do rigor científico do pensar. Descobrimos que havia formas de pensar corretas (os silogismos perfeitos) e incorretas (os sofismas) e que o conhecimento do real exigia um método científico. A filosofia era portanto uma ciência.

O tempo e as exigências de nossa realidade, no entanto, não coexistiam com o tempo e as exigências do Tomismo que conhecíamos. Os silogísmos estavam cheios de lógica, porém vazios da realidade que vivíamos. Nossas cabeças ferviam com problemas que não figuravam na lógica. Queríamos mais que uma lógica, um saber. Mais que um método, um conhecimento. Mais que uma ordem do pensar, um modo de produzir conhecimento e um norte para uma grande caminhada que pensávamos ser o nosso destino. Marítam e Mounier vieram dar movimento ao que pensávamos ter sido um encontro cabal com o que nos faltava: um pensamento capaz de colocar a história dos homens concretos no centro do pensar e a pessoa no eixo de uma ética que superava a dicotomia entre o indivíduo e a sociedade. Mais do que Marítam foi Mounier, com O Personalismo, que nos deu essa sensação de um encontro com uma filosofia do homem, da história e da ação. Foi com esse espírito que lemos Lebret e nos confraternizamos com Frei Cardonnel em sua rápida e fecunda passagem pelo Brasil.

Esse processo de descoberta foi também a conseqüência e o confronto de visões que se apresentavam encarnados em um ou dois livros de autores os mais diversos: Heidegger, Kierkegaard, Léon Bloy, Gabriel Marcel, Sartre, Berdiaeff e tantos outros.

Neste período, conhecer era ler e ler um autor era apropriarmos de alguns de seus livros para logo depois passar a outro, numa busca incessante e precária. Ficavam os autores que nos marcavam. Líamos com a emoção da necessidade. Se o Frei Mateus nos introduziu na radicalidade evangélica, e se Teilhard nos deu o sentido maior da grande aventura humana, foi Mounier no entanto o primeiro a atender nossa necessidade de fixar um norte para nossa busca aqui e agora.

Mounier fazia a ligação entre o evangelho, que havíamos lido e praticado através dos dominicanos, e a realidade entre o pensamento e a humanidade, entre a teoria e a prática, o estar no Brasil e intervir em sua história. Mounier foi portanto o elemento de ruptura com o nosso primeiro e precário aprendizado da filosofia e a abertura para uma nova etapa de busca. Não foi o contato acadêmico com as ciências sociais ou as necessidades de uma prática política, ainda incipiente, que nos colocou diante do problema de Marx. Foi ainda através da filosofia que Marx se apresentou como desafio. Lemos Marx através de Yves Calvez (La Pensée de Karl Marx). Não o Marx do Capital, do 18 Brumário ou do Manifesto, mas o Marx da Ideologia Alemã. Não o da mais-valia e da luta de classes, mas o da Alienação.

Ler Marx era discutir idealismo e materialismo, era enfrentar a contradição entre a filosofia cristã e o materialismo histórico. Nossa leitura de Marx, via Yves Calvez, era no fundo uma busca de conciliação, uma forma de resgatar no Marx que desconhecíamos um Marx que pudéssemos conhecer sem negar o que éramos, e éramos cristãos.

A leitura de Marx via Alienação, no entanto, não resolvia nem o problema da filosofia nem os nossos, que através de Mounier já haviam descido para o terreno dos homens concretos, da história, da economia e da política. A essa altura nossos problemas já eram mais urgentes e o conceito de "engajamento" já havia perdido muito de seu sabor abstrato ou contemplativo.

É neste contexto de engajamento, movido pela militância cristã da JE e da JUC, que Marx apareceu para muitos de nossa geração como um desafio e um problema: participávamos da política movidos pelas exigências da fé cristã. Por que então deixar a fé que - nos levava à política - para poder encontrar Marx na política? Através da fé já não havíamos chegado à política? Por que aceitar o dilema entre fé (cristã) e política (marxista)?

É neste contexto que o nosso engajamento político e o encontro inevitável com o marxismo vai viver um paradoxo curioso: buscávamos em Marx não o fim de nossa fé, mas o conhecimento de uma teoria orientada para a pratica social. Nesta exata medida porém começávamos a ter problemas com a hierarquia da Igreja, de quem compartilhávamos a fé, acusados de marxistas.

Mas é neste ponto e neste momento que surge na nossa história o pensamento e a presença do Pe. Vaz.

Padre Henrique Vaz aparecia para nós como um pensador competente, criador e contemporâneo. Conhecia em profundidade a filosofia e elaborava um tipo de conhecimento que respondia de forma sólida aos problemas concretos de nosso engajamento político.

Certamente não tínhamos erudição para distinguir as questões centrais do debate filosófico de nossa época, porém tínhamos um sentido de seriedade que nos tornava capazes de distinguir entre os pensadores competentes e os incompetentes, os improvisadores e os sérios, os ultrapassados e os contemporâneos, entre os elaboradores e os simplesmente eruditos. Esta foi a base de nosso encontro com o Pe. Vaz.

A nossa experiência anterior com a filosofia, com exceção de Mounier, estava assentada no exercício da lógica formal: pensar era desenvolver um raciocínio lógico. Conhecer era exercitar a lógica. Esta experiência já exibia suas limitações frente ao mundo que vivíamos.

O Pe. Vaz nos introduziu no terreno deste desafio através da dialética que estava na origem do próprio Marx. Pe. Vaz pensava a dialética a partir de Hegel, porém em outra versão.

Começamos a entender o que era pensar de outra forma. Esta foi a contribuição essencial do Pe. Vaz a nossa geração.

E para que o aprendizado no uso da dialética fosse real, o Pe. Vaz inspirou o texto de nosso engajamento especificamente histórico na política: a parte filosófica do documento Base de Ação Popular. O Pe. Vaz no entanto nunca foi um ator de nossa política, nem definiu os cenários de nosso engajamento. Ele simplesmente definiu o fundamento filosófico de nossa opção naquele momento.

E tão discretamente quanto havia entrado, como filósofo, no nosso texto, se manteve afastado do cenário de nossa prática.

Não que dela discordasse e me refiro especificamente à prática até 1964, mas simplesmente porque não pensava ser esta sua tarefa de padre. Como pensador nos proporcionou a dialética, que fundamentava nossa análise e prática política, como padre não via na prática política o seu campo de atuação.

A filosofia que nos apresentou não era confessional, porém sua militância era na Igreja. Uma contribuição fundamental do Pe. Vaz foi então a de desconfessionalizar nosso pensamento político, ao distinguir a filosofia da teologia e ao distinguir seu papel de filósofo de sua condição de padre. Deu sua contribuição específica num dialogo claro conosco sobre o seu papel, seus limites e suas opções pessoais.

Assim como nossa liberdade política foi por ele respeitada, nossa geração também soube respeitar sua opção de ser um companheiro do mesmo destino com tarefas e campos de ação diferentes.

Pe. Vaz nunca cobrou de nossa política o compromisso com o confessional, assim como nós não cobramos de sua condição de homem da Igreja o compromisso com a nossa pratica e opções políticas.

Neste sentido ele é, de certo modo, um dos fundadores de nosso pensamento político, sem ser um fundador da organização política que fundamos.

A contribuição do Pe. Vaz, em termos de um novo modo de pensar, foi, como dissemos, a introdução à dialética: a noção de contradição, de processo encarnado no social, em nossa história. Uma dialética onde consciência, natureza, história apareciam marcados pela liberdade e portanto disponível para uma prática política e uma análise social e não-dogmática.

Repensando hoje o que elaboramos nos anos 60, e realmente surpreendente descobrir a densidade e a riqueza destes textos. Essas qualidades devem em grande medida ser atribuídas às contribuições de Pe. Vaz.

A radicalidade deste pensar se somou à nossa liberdade em abraçar em profundidade uma causa que nos impelia a lutar por ela: a de transformar a sociedade brasileira tendo como norte os princípios fundamentais da democracia: liberdade, igualdade, participação.

Foi assim que uma dialética que não era de Marx nos levou a uma opção socialista.

Quando hoje se retoma a discussão sobre Democracia e Socialismo, e realmente revelador descobrir nestes textos de 20 anos atrás os resultados a que chegamos, onde socialismo e democracia não se excluem, mas são idênticos.

*Artigo publicado no livro Cristianismo e História, Edições Loyola, 1982

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Teodoro Magni - maio de 2002