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Caminhava
como um João da silva qualquer, no meio do povo
Muito
se escreveu sobre Padre Vaz. Mas não consigo silenciar-me e
partilho algumas lembranças deste mestre inesquecível.
As
aulas de filosofia iniciavam-se religiosamente às sete da manhã.
A pontualidade era a marca primeira do preceptor que morava dentro
dele. Tinha o que ensinar e sabia como. Um verdadeiro enseigneur,
um rabi.
Com
ele aprendemos a ler Hegel, ilustrado com referências as mais
diversas: Kant, Marx, Tomás de Aquino, os filósofos gregos, os
medievais, os contemporâneos. A ética era outra especialidade
sua.
Amantes
da dialética, nos deliciávamos com exposições provindas de uma
memória que dispensava o caderno de anotações. Raul Messias, João
Machado, Ricardo Fenati, e Fátima, Luís Aureliano, Carlos Drawin,
Dirlene, Maria Eugênia, Mercês – e outros do meu tempo – que
o digam.
Finda
a aula, o peripatético caminhava da Fafich – no alto da
Carangola, no Santo Antônio – até a então residência dos
jesuítas na Álvares Cabral, quase esquina com espírito Santo.
Caminhava como um João da silva qualquer, no meio do povo.
Escutava
com atenção e estimulava no discípulo a sede do saber e da
verdade, dialogava com simplicidade, com vigor e com franqueza,
mas sensível às indagações do interlocutor. Imagino Teilhard de Chardin tão cativante como Padre Vaz. Aliás,
ambos foram soldados da Igreja Católica e da Companhia de Jesus,
dentro do figurino ignaciano. Praticaram a obediência em nome de
valores maiores, sem a pusilanimidade dos que recusam ousar como
cidadão e como ser político.
Quando
a Juventude Universitária Católica (JUC), sensibilizada pela miséria
do nosso povo, começou a reagir e foi abandonada pela maioria do
episcopado, Padre Vaz foi dos sacerdotes e mestres que acolheram e
caminharam com os rebeldes da resistência.
Foi
o grande mentor da Ação Popular, braço político da Ação Católica,
na luta contra o arbítrio. É o autor do "documento de
base" e é ele que propõe a sistematização teórica em
torno do ideal histórico, levando aqueles que têm sede e fome de
justiça, a ler Marx a partir de Hegel e a utilizar o instrumental
marxista como método válido de análise da realidade.
Nunca
se curvou diante do poder. Respondeu a vários IPMs, após o
golpe. Falava com carinho dos jovens com os quais fundou a AP, de
Dazinho, Bambirra e Riani, os deputados operários, e dos coirmãos
da Companhia de Jesus.
Quando,
padres operários, chegamos ao Brasil, em 66, foi junto dele que
colhemos informações e orientações antes de assumir as tarefas
políticas.
Foi
um cristão em profundidade. Talvez a vida não mudou muito para
ele, no encontro com Deus, após a morte, porque na Terra seu
tempo e espaço já eram ancorados no Eterno e no Imensurável.
*Artigo
publicado no Jornal O Tempo de Belo Horizonte em 29 de maio de
2002 |