Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Lembrando Padre Vaz...

Tilden Santiago

Deputado federal PT -MG

 

 

Caminhava como um João da silva qualquer, no meio do povo

Muito se escreveu sobre Padre Vaz. Mas não consigo silenciar-me e partilho algumas lembranças deste mestre inesquecível.

As aulas de filosofia iniciavam-se religiosamente às sete da manhã. A pontualidade era a marca primeira do preceptor que morava dentro dele. Tinha o que ensinar e sabia como. Um verdadeiro enseigneur, um rabi.

Com ele aprendemos a ler Hegel, ilustrado com referências as mais diversas: Kant, Marx, Tomás de Aquino, os filósofos gregos, os medievais, os contemporâneos. A ética era outra especialidade sua.

Amantes da dialética, nos deliciávamos com exposições provindas de uma memória que dispensava o caderno de anotações. Raul Messias, João Machado, Ricardo Fenati, e Fátima, Luís Aureliano, Carlos Drawin, Dirlene, Maria Eugênia, Mercês – e outros do meu tempo – que o digam.

Finda a aula, o peripatético caminhava da Fafich – no alto da Carangola, no Santo Antônio – até a então residência dos jesuítas na Álvares Cabral, quase esquina com espírito Santo. Caminhava como um João da silva qualquer, no meio do povo.

Escutava com atenção e estimulava no discípulo a sede do saber e da verdade, dialogava com simplicidade, com vigor e com franqueza, mas sensível às indagações do interlocutor. Imagino Teilhard de Chardin tão cativante como Padre Vaz. Aliás, ambos foram soldados da Igreja Católica e da Companhia de Jesus, dentro do figurino ignaciano. Praticaram a obediência em nome de valores maiores, sem a pusilanimidade dos que recusam ousar como cidadão e como ser político.

Quando a Juventude Universitária Católica (JUC), sensibilizada pela miséria do nosso povo, começou a reagir e foi abandonada pela maioria do episcopado, Padre Vaz foi dos sacerdotes e mestres que acolheram e caminharam com os rebeldes da resistência.

Foi o grande mentor da Ação Popular, braço político da Ação Católica, na luta contra o arbítrio. É o autor do "documento de base" e é ele que propõe a sistematização teórica em torno do ideal histórico, levando aqueles que têm sede e fome de justiça, a ler Marx a partir de Hegel e a utilizar o instrumental marxista como método válido de análise da realidade.

Nunca se curvou diante do poder. Respondeu a vários IPMs, após o golpe. Falava com carinho dos jovens com os quais fundou a AP, de Dazinho, Bambirra e Riani, os deputados operários, e dos coirmãos da Companhia de Jesus.

Quando, padres operários, chegamos ao Brasil, em 66, foi junto dele que colhemos informações e orientações antes de assumir as tarefas políticas.

Foi um cristão em profundidade. Talvez a vida não mudou muito para ele, no encontro com Deus, após a morte, porque na Terra seu tempo e espaço já eram ancorados no Eterno e no Imensurável.

*Artigo publicado no Jornal O Tempo de Belo Horizonte em 29 de maio de 2002

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Teodoro Magni - maio de 2002