Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

Padre Vaz,
um eleito do Senhor*

Paulo Roberto Cardoso
Assessor de Comunicação Social do
Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais

 

 

Soldado jesuíta, pensador tomista-hegeliano, servo penitente e temente, o eleito e predestinado do Senhor

O desaparecimento de uma inteligência brilhante e luminosa como a do padre Henrique Claúdio de Lima Vaz, para os discípulos, simplesmente, padre Vaz, é um daqueles instantes em que sentimos que a humanidade fica menor e mais pobre. A penumbra que desce sobre o vazio deixado, gera pessimismo e insegurança em relação ao futuro da humanidade do homem.

Padre Vaz foi, ao lado do professor Paulo Menezes, da PUC de Pernambuco, o mais destacado tradutor e intérprete de Hegel para o português, contudo, foi muito mais. Sua obra toda voltada para a ética, é de tal dimensão que o projeta à mesma estatura de um Martin Heiddeger e de um Jean Paul Sartre, no contexto da filosofia ocidental.

Em seu magistério, não limitou-se a lecionar o saber ético, mas ensinou, sobretudo, o agir ético. Sua trajetória foi caracterizada por uma peculiar simplicidade, aliada à sua vida monástica reclusa e ao fato de ter produzido, pensado e escrito em Português. O que, diga-se, não o projetou merecidamente, embora dele se saiba que tivesse um certo desprendimento em relação às glórias terrenas. Qualidade, aliás, muito própria daqueles que, como Padre Vaz, se dedicam à vida do espírito. Eis aí o milenar magistério da Igreja: sic transit gloria mundi.

Sua obra é uma sólida construção dialética em torno de um profundo diálogo entre São Tomaz de Aquino e Hegel. De padre Vaz bem podemos afirmar; não apenas em relação à sua obra filosófica, como também no plano pessoal, foi ele a síntese desses dois monstros sagrados. Sua disciplina intelectual, aliada a um rigor cientifico e metodológico, expressam com clareza e justiça a influência daqueles dois pensadores. Quanto ao vazio deixado por sua ausência, não é nenhum exagero, pois padre Vaz reunia, na singularidade de sua personalidade, a figura de um projetado filósofo e de um servo penitente e temente a Deus, cuja vida terrena contemplativa, própria aos santos do Senhor; foi marcada por um profundo diálogo interior, que, ainda assim, não foi suficiente para aliená-lo do mundo.

Estando no mundo, não era do mundo, ainda que tenha amargado dolorosas perseguições por parte do regime militar, por haver se oposto aos seus excessos. Com sua marcante personalidade, foi-lhe atribuída, pelos detentores do poder, à época, determinante influência na criação e consolidação da AP (Ação Popular), movimento de oposição aos militares. Tal acusação resultou numa infinidade de IPMs (Inquéritos Policiais Militares) iniciados em várias partes do país, os quais trouxeram-lhe grandes dissabores.

Entretanto, ainda diante de tais adversidades, mais uma vez, sua peculiar personalidade e marcante trajetória foram capazes de produzir um fato inusitado, que dá a medida exata da influência de sua ação pastoral. É que, tendo sido os IPMs enviados ao Superior Tribunal Militar (STM), foram todos eles reunidos e distribuídos a um único relator, que determinou pelo arquivamento e conseqüente extinção de todos eles, restabelecendo, através desse ato de justiça, a liberdade e tranqüilidade, que Padre Vaz tanto necessitava para se dedicar aos misteres de sua vida. O curioso, no caso, é que tal relator tratava-se de um "prussiano" e luterano que, mais tarde, tornar-se-ia conhecido de todos os brasileiros: o general Ernesto Geisel. Como se vê, ainda que por vias transversas, ocorreu no episódio um exemplar diálogo ecumênico.

Enfim, sua vida e obra, seguramente, haverão de se projetar pelos tempos futuros, se não por outras razões, pelo fato de sua ética ser o espaço possível e seguro da superação dialética do perigoso confronto vivido pelo Ocidente entre o ceticismo próprio da razão filosófica instrumental (responsável por um terrível vazio espiritual) e a emergência de um extremado e militante fundamentalismo religioso. Sua obra é como que uma bússola para a superação dialética deste perigoso e abissal confronto.

Enfim, soldado jesuíta, pensador tomista-hegeliano, servo penitente e temente, o eleito e predestinado do Senhor; ao adentrar a sua Jerusalém celestial, na presença de seu Deus poderá, como o apóstolo dos gentios, exclamar: "Combati o bom combate, encerrei a carreira, guardei a fé".

*Artigo publicado no Diário oficial de Minas Gerais, 29/05/2002

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Teodoro Magni - maio de 2002