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Poucos
brasileiros marcaram tão fortemente a história eclesial e
intelectual do Brasil no século XX
No
dia 23 de maio, quinta feira passada, faleceu, aos 80 anos, o Pe.
Henrique Cláudio de Lima Vaz. Ativo e lúcido quase até o último
dia em sua missão de ensinar, escrever e animar a faculdade de
Filosofia da Companhia de Jesus em Belo Horizonte, onde viveu os
anos de sua infância e para onde voltou em janeiro de 1982, Pe.
Vaz acabou vencido pela enfermidade diagnosticada no início do
ano.
Poucos
brasileiros marcaram tão fortemente a história eclesial e
intelectual do Brasil no século XX quanto esse mineiro de Ouro
Preto que após concluir seus estudos de primeiro e segundo graus
no Colégio Arnaldo, da capital mineira, ingressou na Companhia de
Jesus, na qual passou o resto de sua vida.
Doutor
em Filosofia pela Universidade Gregoriana de Roma, Pe. Vaz
dedicou-se logo ao ensino e à pesquisa filosófica, destacando-se
imediatamente como um dos maiores filósofos do Brasil,
reconhecido igualmente no exterior. Professor exímio na arte de
ensinar e fazer pensar, formou toda uma geração de filósofos
hoje ativos nas cátedras de universidades brasileiras e
estrangeiras, produzindo um conhecimento sólido e elaborando as
grandes questões do mundo contemporâneo. Muitos jovens, animados
por suas reflexões, se engajaram numa luta transformadora por um
Brasil melhor.Vários deles seguem ativos e comprometidos ainda
hoje, em tempos mais democráticos, no serviço da fé e na promoção
da justiça.
Profundo
conhecedor do pensamento de Hegel, Pe. Vaz era, no entanto e
igualmente, profundo conhecedor de Filosofia Antiga, especialmente
do pensamento de Platão. Dominava, além disso, com segurança, a
reflexão dos grandes mestres da Filosofia, tais como Agostinho,
Tomás de Aquino, Bernardo de Claraval, e também Marx, Heidegger,
Bergson e outros. Homem de horizonte universal de saber, não
limitava no entanto sua atenção e rigor de pesquisador ao campo
da Filosofia. Conhecia profundamente Teologia, Mística,
Literatura, aventurando-se por qualquer terreno das Humanidades
com passo firme e raciocínio certeiro. Informadíssimo sobre
todas as questões da atualidade, era um conversador delicioso que
ensinava mesmo quando falava informalmente.
Embora
a academia fosse o seu campo de trabalho, era mais ainda sua terra
de missão. Mais que a herança do intelectual brilhante,
disciplinado e fecundo, Pe. Vaz deixa-nos o legado do homem de
Deus, do religioso observante e piedoso, do pensador cristão que
olhava e compreendia o mundo inspirado por uma fé cristalina e
transparente.
Todos
os que o conheceram, que admiraram seu brilho intelectual, podem
testemunhar a seriedade com que levava sua vida de sacerdote
dedicado, empenhado em seu ministério, relacionando-se com todos
com a mesma simplicidade disponível e atenciosa.
Pe.
Vaz nos deixa com a certeza da importância do estudo da Filosofia
para a busca da verdade pela qual o ser humano anseia. Sua vasta
obra publicada está toda ela permeada pelo desejo incessante e
apaixonado dessa verdade que só se rende àquele ou àquela que a
busca de todo coração, de todas as forças, de todo
entendimento.
Os
que tivemos o privilégio de ser seus alunos sentimos neste
momento a nostalgia das aulas e conversações do grande mestre.
Com clareza meridiana, ia desdobrando diante de nossos olhos ávidos
os meandros do pensar e as sendas do saber. Fica-nos, porém, o
consolo de que agora seu conhecimento é pleno e banhado da Luz
definitiva.
*Artigo
publicado no Jornal do Brasil de 27 de maio de 2002 |