Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz S.J.

 

O filósofo
de Ouro Preto
*

José Assis de Carvalho

 

 

O Pe. Vaz é de Ouro Preto, das Minas Gerais. Há um presságio oculto nessa origem. O ouro da velha Vila Rica, percorrendo caminhos secretos, reluz ainda hoje em palácios distantes e remotas catedrais.

Nos idos de 1948, como seminarista, ouvi o Pe. Arlindo Vieira, S.J., apóstolo itinerante das paróquias mineiras, ao término de missões populares, em frente à bicentenária Catedral de Mariana, blasonar que a Companhia de Jesus lamentava a situação declinante da saúde do Pe. Leonel Franca. o mais famoso inaciano da época (que Alceu de Amoroso Lima chegou a chamar, poeticamente, de Diretor Espiritual da inteligência brasileira"), mas já dispunha, entretanto, de um substituto à altura na pessoa de um esperançoso jovem jesuíta de Vila Rica.

Em setembro de 1950, tive o prazer de conhecê-lo, pessoalmente, no Colégio Pio Brasileiro, em Roma, quando assumia as funções de Repetidor, isto é, de diretor de estudos dos seminaristas pio-brasileiros.

Ainda em Roma, pude testemunhar o brilhantismo de sua tese de doutoramento, na Gregoriana, sobre a Contemplação e a Dialética nos Diálogos de Platão, sob a orientação do Pe. René Arnou, S.J. Desde então, ainda que de longe, não deixei de acompanhar, passo a passo, a brilhante carreira do filósofo de Ouro Preto, uma das mais bem feitas cabeças filosóficas do Brasil, apesar de, modestamente, se incluir na arraia miúda do pensamento".Agora que os amigos, sob a coordenação do Pe. Carlos Palácio, S.J., Diretor da revista Perspectiva Teológica e eminente teólogo, lhe oferecem uma soberba homenagem coletiva na obra.

Cristianismo e História, ed. Loyola - 1982, 436 págs., embora sem pretender "ser uma réplica tupiniquim dos graves e acadêmicos Festschriften, Essays in honour ou Mélanges de todo tipo que pululam em outros continentes", modesto articulista, não quero e não posso deixar de lhe dizer, através do JORNAL DE OURO PRETO, o quanto os ouro-pretanos se sentem orgulhosos de seu grande conterrâneo.Bem sei que existem vozes desafinadas nio coro polifônico de louvores, como, por exemplo, Dom Odilon Moura, OSB, que escreve ironicamente:

"Em 1978, quando estas linhas estão sendo escritas, não se pode ainda saber se foi atingida a extremidade final do "grande arco" da evolução doutrinaria do Pe. Vaz, cuja curvatura vai de S. Tomás a Hegel. É difícil conhecer a etapa última de um pensamento evolutivo tão acentuado. Talvez, por isso, a pessoa do Pe. Vaz seja tão discutida". (Gf. As Idéias Católicas no Brasil, Ed. Convívio - São Paulo - 1971, pág. 239).

Restrições lhe fez Alfredo Lage, escritor vinculado à Ordem, já desaparecido, e restrições lhe faz, atualmente, Antônio Paim. Fernando de Arruda Campos, entretanto, rebate, depois de traçar a trajetória do pensamento tomista no Brasil: ''Henrique Vaz é a nosso ver, o mais profundo filósofo neotomista do Brasil contemporâneo. Sua obra afirma-se, ainda, como forma toda pessoal e genial mesmo, de repensar e aprofundar a filosofia do Angélico". (Cf. Tomismo e Neotomismo no Brasil - S. Paulo, Ed. Grijalbo, pag. 170). Filósofo, Vaz o é deveras, original e profundo. E filósofo "doublé" de teólogo. João Batista Libânio, S.J., diz poder colocá-lo "entre os pensadores eruditos, acadêmicos, magistrais, observando que o seu pensamento oscila entre a vertente dos temas eternos da filosofia e a das provocações inquietas do momento. Não fica, entretanto, preso a reflexões, gratuitamente, teóricas, mas se defronta com os arenosos problemas da realidade social movediça de nosso pais e do momento cultural presente". (Cf. Cristianismo e História - págs. 275 e 276).

A contribuição de Ouro Preto à cultura brasileira, desde os tumultuados tempos da descoberta do ouro no Tripuí, sempre foi grande:

No século XVIII, brindou a literatura com Cláudio Manuel da Costa e Tomas Antônio Gonzaga. Anote-se, "en passant", que Tomás Antônio Gonzaga, além de poeta lírico e satírico de grande veia, foi filósofo do direito, no seu Tratado de Direito Natural.No século XIX, ofereceu a ciência política Bernardo Pereira de Vasconcelos, o Monstro, o gênio que ajudou a travejar as instituições do Império brasileiro, a Democracia Coroada, que durou 67 anos. Nos fins do século, Bernardo Guimarães imprimiu um toque singular ao romance regionalista.Nos primórdios do século XX, o veio poético de Vila Rica explodiu na voz simbolista de Alphonsus de Guimarães, que o recuo do tempo vem nimbar de uma glória cada vez mais pura. Agora, na segunda metade do século, Vila Rica oferece à nação, no plano mais alto da filosofia e da teologia, o Pe. Vaz. S.J., de importância e de significação incontestes no panorama sócio-cultural e eclesial do Brasil atual. (Veja-se a apresentação do Pe. Carlos Palácio, S.J., na obra citada).Para finalizar, seja-me lícito transcrever a bela evocação do Pe. Fernando Bastos de Ávila, S.J.:

"O Pe. Vaz é de Ouro Preto, das Minas Gerais. Há um presságio oculto nessa origem. O ouro da velha Vila Rica, percorrendo caminhos secretos, reluz ainda hoje em palácios distantes e remotas catedrais. Muitos monumentos da inteligência foram concluídos nestes últimos anos por aqui. Imagino que, examinando-os, o filho de Ouro Preto não tem muita dificuldade em reconhecer a origem remota de furtivas cintilações dessas obras de nossa arquitetura teológica, filosófica e sociológica". (Op. cit. pág. 16).

*Artigo publicado no Jornal de Ouro Preto em 02/10/1993 e no jornal ESTADO DE MINAS de 22/08/1991 com o título "O filósofo Henrique Vaz". José de assis Carvalho é advogado, licenciado em Teologia pela Gregoriana de Roma e em Letras pela PUC/MG.

voltar

Teodoro Magni - maio de 2002