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Pe. Vaz é de Ouro Preto, das Minas Gerais. Há um presságio
oculto nessa origem. O ouro da velha Vila Rica, percorrendo
caminhos secretos, reluz ainda hoje em palácios distantes e
remotas catedrais.
Nos
idos de 1948, como seminarista, ouvi o Pe. Arlindo Vieira, S.J.,
apóstolo itinerante das paróquias mineiras, ao término de missões
populares, em frente à bicentenária Catedral de Mariana,
blasonar que a Companhia de Jesus lamentava a situação
declinante da saúde do Pe. Leonel Franca. o mais famoso inaciano
da época (que Alceu de Amoroso Lima chegou a chamar,
poeticamente, de Diretor Espiritual da inteligência
brasileira"), mas já dispunha, entretanto, de um substituto
à altura na pessoa de um esperançoso jovem jesuíta de Vila
Rica.
Em
setembro de 1950, tive o prazer de conhecê-lo, pessoalmente, no
Colégio Pio Brasileiro, em Roma, quando assumia as funções de
Repetidor, isto é, de diretor de estudos dos seminaristas
pio-brasileiros.
Ainda
em Roma, pude testemunhar o brilhantismo de sua tese de
doutoramento, na Gregoriana, sobre a Contemplação e a Dialética
nos Diálogos de Platão, sob a orientação do Pe. René Arnou,
S.J. Desde então, ainda que de longe, não deixei de acompanhar,
passo a passo, a brilhante carreira do filósofo de Ouro Preto,
uma das mais bem feitas cabeças filosóficas do Brasil, apesar
de, modestamente, se incluir na arraia miúda do
pensamento".Agora que os amigos, sob a coordenação do Pe.
Carlos Palácio, S.J., Diretor da revista Perspectiva Teológica e
eminente teólogo, lhe oferecem uma soberba homenagem coletiva na
obra.
Cristianismo
e História, ed. Loyola - 1982, 436 págs., embora sem pretender
"ser uma réplica tupiniquim dos graves e acadêmicos
Festschriften, Essays in honour ou Mélanges de todo tipo que
pululam em outros continentes", modesto articulista, não
quero e não posso deixar de lhe dizer, através do JORNAL DE OURO
PRETO, o quanto os ouro-pretanos se sentem orgulhosos de seu
grande conterrâneo.Bem sei que existem vozes desafinadas nio coro
polifônico de louvores, como, por exemplo, Dom Odilon Moura, OSB,
que escreve ironicamente:
"Em
1978, quando estas linhas estão sendo escritas, não se pode
ainda saber se foi atingida a extremidade final do "grande
arco" da evolução doutrinaria do Pe. Vaz, cuja curvatura
vai de S. Tomás a Hegel. É difícil conhecer a etapa última de
um pensamento evolutivo tão acentuado. Talvez, por isso, a pessoa
do Pe. Vaz seja tão discutida". (Gf. As Idéias Católicas
no Brasil, Ed. Convívio - São Paulo - 1971, pág. 239).
Restrições
lhe fez Alfredo Lage, escritor vinculado à Ordem, já
desaparecido, e restrições lhe faz, atualmente, Antônio Paim.
Fernando de Arruda Campos, entretanto, rebate, depois de traçar a
trajetória do pensamento tomista no Brasil: ''Henrique Vaz é a
nosso ver, o mais profundo filósofo neotomista do Brasil
contemporâneo. Sua obra afirma-se, ainda, como forma toda pessoal
e genial mesmo, de repensar e aprofundar a filosofia do Angélico".
(Cf. Tomismo e Neotomismo no Brasil - S. Paulo, Ed. Grijalbo, pag.
170). Filósofo, Vaz o é deveras, original e profundo. E filósofo
"doublé" de teólogo. João Batista Libânio, S.J., diz
poder colocá-lo "entre os pensadores eruditos, acadêmicos,
magistrais, observando que o seu pensamento oscila entre a
vertente dos temas eternos da filosofia e a das provocações
inquietas do momento. Não fica, entretanto, preso a reflexões,
gratuitamente, teóricas, mas se defronta com os arenosos
problemas da realidade social movediça de nosso pais e do momento
cultural presente". (Cf. Cristianismo e História - págs.
275 e 276).
A
contribuição de Ouro Preto à cultura brasileira, desde os
tumultuados tempos da descoberta do ouro no Tripuí, sempre foi
grande:
No
século XVIII, brindou a literatura com Cláudio Manuel da Costa e
Tomas Antônio Gonzaga. Anote-se, "en passant", que Tomás
Antônio Gonzaga, além de poeta lírico e satírico de grande
veia, foi filósofo do direito, no seu Tratado de Direito
Natural.No século XIX, ofereceu a ciência política Bernardo
Pereira de Vasconcelos, o Monstro, o gênio que ajudou a travejar
as instituições do Império brasileiro, a Democracia Coroada,
que durou 67 anos. Nos fins do século, Bernardo Guimarães
imprimiu um toque singular ao romance regionalista.Nos primórdios
do século XX, o veio poético de Vila Rica explodiu na voz
simbolista de Alphonsus de Guimarães, que o recuo do tempo vem
nimbar de uma glória cada vez mais pura. Agora, na segunda metade
do século, Vila Rica oferece à nação, no plano mais alto da
filosofia e da teologia, o Pe. Vaz. S.J., de importância e de
significação incontestes no panorama sócio-cultural e eclesial
do Brasil atual. (Veja-se a apresentação do Pe. Carlos Palácio,
S.J., na obra citada).Para finalizar, seja-me lícito transcrever
a bela evocação do Pe. Fernando Bastos de Ávila, S.J.:
"O
Pe. Vaz é de Ouro Preto, das Minas Gerais. Há um presságio
oculto nessa origem. O ouro da velha Vila Rica, percorrendo
caminhos secretos, reluz ainda hoje em palácios distantes e
remotas catedrais. Muitos monumentos da inteligência foram concluídos
nestes últimos anos por aqui. Imagino que, examinando-os, o filho
de Ouro Preto não tem muita dificuldade em reconhecer a origem
remota de furtivas cintilações dessas obras de nossa arquitetura
teológica, filosófica e sociológica". (Op. cit. pág. 16).
*Artigo
publicado no Jornal de Ouro Preto em 02/10/1993 e no jornal ESTADO
DE MINAS de 22/08/1991 com o título "O filósofo Henrique
Vaz". José de assis Carvalho é advogado, licenciado em
Teologia pela Gregoriana de Roma e em Letras pela PUC/MG. |